Mostrando postagens com marcador Teses. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Teses. Mostrar todas as postagens

12 de dezembro de 2015

A contemporaneidade de Caio Fernando Abreu

(sobre Sexualidades em questionamento: uma abordagem queer sobre Caio Fernando Abreu, de Mariana de Moura Coelho)


Fernanda Borges

Caio Fernando Abreu
Caio Fernando Abreu é um autor que encanta e surpreende os leitores, os quais, muitas vezes, tornam-se seguidores, fãs e discípulos fiéis de seus textos e de suas ideias. O autor gaúcho, falecido em 1996, conta ainda hoje com uma legião de leitores, o que atesta a contemporaneidade de sua literatura. Seu acervo pessoal, composto por cartas, manuscritos e datiloscritos, fotografias e mapas astrais, entre outros objetos, encontra-se no Delfos –Espaço de Documentação e Memória Cultural da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). A obra de Caio também conta com significativa fortuna crítica acadêmica por apresentar temas extremamente relevantes neste momento social que vivemos no Brasil, como a discussão desenvolvida na dissertação de Mariana de Moura Coelho, intitulada Sexualidades em questionamento: uma abordagem queer sobre Caio Fernando Abreu
Igualdade de gênero, homoafetividade, casamento gay e homofobia são questões discutidas diariamente não só na sociedade brasileira, mas em contexto mundial. Como bem afirma Mariana Coelho, Caio Fernando Abreu é um autor reconhecido também por tratar desses tópicos em seus textos ficcionais, mesmo que a maioria de suas personagens não sejam identificadas nas narrativas como gays, homo ou bissexuais: “Caio Fernando Abreu é, sem dúvida, um dos principais nomes da temática homoerótica na literatura brasileira. Ainda assim, (…) aqueles tidos como claramente homossexuais não representam a maioria de seus personagens. Caio nunca esteve interessado em levantar bandeiras: em sua literatura existencial, da solidão, da busca do amor, sua preocupação maior sempre esteve em descrever experiências amorosas, sejam entre quem fosse, ainda que isso não significasse igualá-las todas ou negligenciar suas particularidades. Mesmo assim, ele se destacou pela homotextualidade e certamente figura na lista dos mais importantes escritores brasileiros da segunda metade do século XX”.
Apesar de ter se destacado sobretudo como contista, os textos de Caio analisados no trabalho não são os contos, mas a novela “Pela noite”, publicada em Triângulo das águas, de 1983, e o romance Onde andará Dulce Veiga?, de 1990. As personagens Pérsio e Santiago, de “Pela noite”, apresentam perspectivas opostas no modo de encarem e vivenciarem sua orientação sexual. Pérsio, por ter enfrentado diversos casos de preconceito, encarna a culpa na realização de sua sexualidade, ao contrário de Santiago, que não concebe o seu desejo como anormal, conforme certos discursos querem forçá-lo a pensar. Dessa forma, Caio Fernando Abreu problematiza tais questões identitárias já na década de 1980, refletindo claramente ainda acerca da AIDS e da clandestinidade sexual e afetiva enfrentada pelas personagens. Já em Onde andará Dulce Veiga?, Mariana Coelho discute a diversidade sexual das personagens do romance, o qual não as define ou rotula de modo a incluí-las em categorias específicas e fechadas. A liberdade quanto à representação das identidades e das orientações sexuais é uma das características mais interessantes dessa obra, que se mostra fundamental na literatura contemporânea para que não se adote posturas excessivamente classificatórias e, consequentemente, estanques e infrutíferas na escritura literária e na posterior análise crítica.
A dissertação Sexualidades em questionamento: uma abordagem queer sobre Caio Fernando Abreu, defendida na UnB, toca em importantes aspectos da literatura de Caio F. e esclarece diversos conceitos da teoria queer, muitas vezes mencionados aleatoriamente ou desvinculados de sua postura política e filosófica. Em um momento em que tanto se fala de igualdade de direitos, de intolerância e de respeito, as questões trazidas pelo texto de Mariana Coelho reforçam nossa argumentação contra discursos preconceituosos e homofóbicos e, acima de tudo, relembram-nos da delicadeza e da força da literatura de Caio Fernando Abreu.

Confira o conteúdo completo da dissertação de Mariana de Moura Coelho, Sexualidades em questionamento: uma abordagem queer sobre Caio Fernando Abreu (2010, Universidade de Brasília) no site do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea. Veja o trabalho completo aqui.

9 de outubro de 2015

Em torno da ficção e da autobiografia

(sobre Trato desfeito: o revés autobiográfico na literatura contemporânea brasileira, de Pedro Galas)

Bruna Ferreira

                         Imagem: Rob Gonsalves                                                                        Fonte: boredpanda.com.

O chamado “pacto autobiográfico” foi proposto por Philippe Lejeune nos anos 1970, em uma tentativa de estabelecer uma definição precisa da autobiografia como um gênero literário. O pacto de “veracidade” da escrita seria estabelecido entre leitor e autor (pretendido por este e confirmado por aquele) a partir da coincidência entre os nomes próprios do narrador de um texto e do autor que o tenha publicado. A fragilidade desta definição foi discutida posteriormente por vários críticos, e sua aplicabilidade na literatura brasileira contemporânea é o tema central da dissertação de mestrado de Pedro Galas, defendida na Universidade de Brasília em 2011, sob orientação da professora Regina Dalcastagnè. Em sua pesquisa, Galas analisa romances e contos de três escritores contemporâneos cujos textos são narrados em primeira pessoa e cujos narradores guardam semelhanças com seus autores: Sérgio Sant’Anna, Bernardo Carvalho e Marcelo Mirisola.
Em Sérgio de Sant’Anna, Galas aponta as contradições de uma escrita de si que ao mesmo tempo em que se pretende confessional e “verdadeira”, questiona a capacidade da linguagem literária de representar o “real”. Na obscura narração de Sant’Anna, nada é transparente, e ainda que o narrador se confesse o eu que assina a capa do livro e, através da escrita, revele coincidências factuais entre um e outro, definir com precisão o que é ficção e o que de fato aconteceu é impossível. Não só a identidade do narrador é sucessivamente colocada em questão pela tessitura da escrita, como são lançadas dúvidas sobre a própria possibilidade de representação de qualquer identidade coerente por meio da palavra.
Ao analisar a obra de Bernardo de Carvalho, Galas identifica o jogo do autor com os nomes próprios no romance As iniciais, em que os personagens são esvaziados de qualquer identidade fixa e isolada. Em vez de indivíduos que preexistem ao convívio social e dele participam inteiros e acabados, Bernardo de Carvalho cria personagens-função, que só existem em relação ao grupo, e que só ganham significado – sempre flutuante – em relação a um outro e ao desenrolar da narrativa. Já em Nove noites, do mesmo autor, encontramos nomes próprios que remetem a pessoas cuja existência poderá ser comprovada factualmente (Buell Quain, Ruth Benedict, Heloísa Alberto Torres) envolvidos em acontecimentos de uma busca misteriosa que tanto poderá ser real quanto imaginária – a depender da credulidade do leitor que acabará por ter que reconhecer que “neste pacto autobiográfico, somente ele assinou o contrato; o narrador, omisso, se esquivou e o trato foi desfeito”.
Se Sérgio Sant’Anna e Bernardo de Carvalho lançam contínua e conscientemente dúvidas sobre a coincidência entre as opiniões e vivências de seus narradores homônimos e as suas próprias, Marcelo Mirisola parece pretender, segundo a pesquisa de Pedro Galas, identificar-se inteiramente com a persona construída em sua ficção. Mirisola esforça-se por criar uma coerência entre todos os seus narradores – cínicos, críticos do politicamente correto, pretensamente viscerais – e a sua figura pública de autor que se expõe em diversas outras mídias. O autor Mirisola seria, então, um performer, personagem de si mesmo – e contraditoriamente é essa insistência em ser sempre e sistematicamente “autêntico”, dentro e fora dos livros, que nos faz duvidar da “veracidade” desse autor-personagem midiático.
A relação entre literatura e outras mídias é, aliás, o que faz com que Galas inclua em sua discussão mais duas obras: Chove sobre minha infância e O filho eterno, de Miguel Sanches Neto e Cristóvão Tezza, respectivamente. A extensa atividade pública de autocomentário dos dois autores – em uma dinâmica cultural focada no entretenimento e no espetáculo da “vida real” que quase os obriga a isso – leva o crítico a questionar a resistência dos dois autores em assumirem-se publicamente como escritores “autobiográficos”. Para Sanches Neto e Tezza, conclui Galas, assumir o viés autobiográfico de seus romances diminuiria o caráter artificioso – e por isso especial, difícil, “digno de mérito” – de suas obras de ficção: “O escritor procura demarcar as fronteiras: o material que sustenta a obra é autobiográfico; o engenho que o modela é ficcional”.
Esta profusão de escritas de si e narradores em primeira pessoa na literatura contemporânea brasileira está associada, segundo afirma Galas no trabalho que brevemente apresento aqui, a uma intenção de reorganização de uma identidade coerente a partir do discurso. Extrapolando as fronteiras da ficção, na era do “culto da personalidade”, os escritores veem-se a si mesmos transformados em personagens de uma indústria de entretenimento que os transforma em celebridades a serem vistas em festas literárias e em gurus que tudo revelam em repetitivas entrevistas.
É nas fissuras destas contradições do nosso tempo que, por um lado, evidencia o caráter fragmentário, múltiplo e descontinuado do eu, e, por outro – e talvez por isso mesmo – tudo faz para construir narrativas sólidas, coerentes e críveis de personalidades da “vida real”, que autor e leitor se movem e se cortejam, ora cúmplices, ora desconfiados, mas talvez sempre nos domínios da ficção.

Confira o conteúdo completo da dissertação de Pedro Galas, Trato desfeito: o revés autobiográfico na literaturacontemporânea brasileira  (2011, Universidade de Brasília) no novo site do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea.