Maíra Fonseca Ramos
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| Maílson Furtado, escritor Foto: Micaela Menezes/Divugação/Editora Moinhos |
Todo livro foi, um dia, um sonho de alguém. A história pode surgir de uma palavra solta ou uma frase pode vir já toda pronta na mente do autor ou da autora. Uma história pode vir, ainda, da lembrança de um cheiro da infância ou do barulho que os pés fazem quando pisam uma rua que há muito se conhece. Pode vir, também, da observação da sombra que a árvore faz quando o sol nos diz que estamos no meio de uma tarde qualquer, de uma segunda-feira qualquer, numa cidade qualquer.
Um livro inteiro pode surgir de um rosto avistado enquanto se está num ônibus ou dos pensamentos que nos atingem de assalto enquanto corremos, apressados, rumo a um dos portões de embarque de um aeroporto internacional. Também pode vir da morte e do sentimento dilacerante do luto, mas há sempre uma pulsão de vida que acompanhará quem escreve. Uma ideia para um livro pode derivar de tudo isso ao mesmo tempo.
Mas não podemos nos esquecer que é de sonhos que falamos quando pensamos num livro: alguém teve uma ideia inicial, acreditou nessa ideia, investiu tempo para que pudesse se sentar e escrevê-la, palavra a palavra, linha a linha, capítulo a capítulo. Essa ideia que teremos, muito tempo depois, em nossas mãos, num livro que leremos no nosso tempo, com a nossa história de vida, os horizontes - do autor e do leitor - se encontrando em algum ponto diferente do mundo.
Um livro pode, ainda, conter toda uma cidade. Com suas poucas ou muitas ruas, com suas pessoas distraídas enquanto se deslocam subindo ladeiras, com sacolas nas mãos, voltando do mercado ou apressadas para buscar as crianças na escola. Também pode conter as histórias de pessoas que veem a vida correr, sentadas no banco de cimento da praça principal, com seus saquinhos de pipoca, enquanto a noite cai e a semana seguinte ainda é apenas uma promessa.
O que pode ser um livro, eu me pergunto e já imagino que ele pode ser o mundo inteiro de alguém. Um mundo de sonhos e palavras. E, nesse contexto, um prêmio literário, o que é? Sabe-se que o prêmio serve para divulgar as obras eleitas, além de ter o relevante papel para a consolidação de uma crítica acerca do que se escreveu. Os prêmios, atualmente, ainda fazem o papel que antes cabia às editoras: selecionar o que será – ou não – publicado, possibilitando o surgimento de novos nomes na cena literária. Permitindo visibilidade para além dos meios acadêmicos, a resposta à indagação proposta não parece ser simples. Vejamos.
Entrevistei recentemente o único autor independente a ganhar o Prêmio Jabuti, que é a premiação literária mais longeva e de maior reconhecimento do país. Mailson Furtado, cearense de Cariré, cresceu em Varjota, uma pequena cidade localizada no noroeste do estado do Ceará. Conquistou a premiação no ano de 2018, em duas categorias distintas, com o seu livro “à cidade”: melhor livro de poesia e livro do ano. Um feito sem precedentes nos mais de 60 anos desde que a premiação foi criada pela Câmara Brasileira do Livro, em 1959.
Quando questionado sobre se a sua escrita sofreu mudanças após a premiação, Furtado respondeu que o prêmio “veio abrir portas e ofertar um novo campo de oportunidades”. Acrescentou que o prêmio “possibilitou a discussão de tantas e tantas questões, necessárias há tempos com muitas pautas endossadas: o repensar do mercado editorial, o repensar das grandes casas de livrarias, o repensar do próprio fazer/estar independente nos dias de hoje, que nestes dias difíceis vividos por este mercado, formado por todos nós, sofre, e sinto que tudo o que aconteceu comigo foi um suspiro, feliz por ser parte desta história, por trazer um pouco o foco para toda uma 'classe' (a independente) que produz dia a dia, a labutar espaços tão raros, caros a todos nós.”
De fato, a premiação dada a um autor independente possibilita repensar os limites do campo literário. Quem pode ocupá-lo, em quais espaços, de que modo, como?
Ainda são muitas as barreiras a vencer, como pontuou Furtado. A despeito de o livro ter sido o mais premiado no ano de 2018, o autor apontou que não houve interesse de editoras em promover a (re)publicação da obra. Mesmo o livro tendo alcançado a incrível marca de dez mil exemplares vendidos, computados até os dias de hoje. Grandes autores nacionais não vendem tanto, mesmo com a chancela de importantes selos editoriais do país. O que Mailson Furtado conseguiu é, realmente, digno de nota.
Após a premiação, o nome de Furtado ganhou espaço relevante na cena literária nacional. Teve outros livros publicados, alguns saíram por editoras de renome, como o recente “O dia”, publicado em 2024 pela Editora Fósforo, a mesma casa editorial que publica a autora francesa, ganhadora do Prêmio Nobel, Annie Ernaux.
Antes da escolha pela edição autoral de “à cidade”, o livro foi submetido à análise de diversas casas editoriais, não tendo sido acolhido por nenhuma editora, de modo que “a opção foi pela editoração independente, fato que já havia realizado com outros livros”, disse o autor.
Por conta da premiação, Mailson Furtado passa a circular na cena literária nacional, inclusive pisando novos chãos no país. Tanto assim que a primeira viagem para São Paulo se deu por ocasião da cerimônia de premiação do Jabuti. Possibilitou, também, que marcasse presença em eventos, com participação em ações literárias, como oficinas, palestras, editorações.
O autor, embora não viva exclusivamente da literatura, tem nas artes a sua principal fonte renda: “há cerca de uma década - vem das artes, seja da literatura, teatro ou produção cultural”, mesclando o trabalho na cena artística com o ofício oriundo da sua formação em Odontologia.
Quando indagado sobre a maior dificuldade, como escritor independente, para fazer os livros chegarem até os leitores, respondeu que a “distribuição dos livros é o aspecto mais desafiador para quem banca a própria edição, o que vê ser realizado de maneira mais potente nas maiores casas editoriais do país”. O livro premiado está disponível para venda na plataforma Amazon, com o gerenciamento da comercialização dos e-books feito pelo próprio autor, ao passo que a venda dos livros físicos se dá através de distribuidoras e livrarias que adquiriram os livros com Furtado.
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| Troféus do prêmio Jabuti. Foto: Divulgação/Prêmio Jabuti |
Talvez um dos feitos principais de Mailson Furtado seja ter possibilitado a abertura para que outros autores independentes possam também sonhar, a partir da premiação, em chegar a mais leitores do país. Recentemente, Sophia Gannef foi finalista do Jabuti (2023), com o livro de crônicas “As vozes da minha cabeça.” O livro não foi o vencedor da categoria, mas indica que os caminhos estão, sim, abertos. Saiu publicado pela Editora Labrador, que se diz especializada em autopublicação premium, cuidando da distribuição em pontos físicos de venda em livrarias localizadas em diferentes estados do país, da disponibilização das obras publicadas em árvore de livros, do marketing dos autores e da inscrição em prêmios literários, o que não se faz sem custo – e, claro, não está acessível a todos os que escrevem.
Sobre o livro de Furtado, embora a ideia desse breve texto não seja a de resenhar a obra, cabe trazer alguns pontos que dizem também sobre o que se valoriza, hoje, numa obra literária. A cidade cantada por Mailson em seus versos livres, mais que espaço físico, também se inscreve no tempo, como se vê pela disposição dos capítulos fazendo alusão a diferentes tempos verbais (presente, pretérito, pretérito mais-que-perfeito, futuro do pretérito). O cotidiano marcando presença, com o passar das horas, as pessoas e as ruas da cidade, tudo ali.
Afinal, o que pode ser uma cidade? Mailson tenta responder, por meio da escrita de seu livro premiado, com os pés fincados num local mítico, localizado no interior do país, num sertão que pode ser tantas e diferentes cidades do Brasil. A cidade em que cachorros dão o ar da graça, motos passam apressadas com suas caixas de som ou seus botijões de gás nas garupas, homens e mulheres que, às seis da tarde, se reúnem nas calçadas, meninos que jogam bolas ou andam em suas bicicletas enquanto a noite vai rasgando as horas, em um local que “arde / é verão / é sertão / é cidade”.
O rio Acaraú, que marca tantas histórias do eu-lírico, é presença constante no longo poema. Assim também a estrada de ferro que, ao rasgar terra e ruas, foi quem trouxe os antepassados até a cidade e depois foi quem os levou para a cidade grande. Da cidade, o que se sabe? O poeta responde: “da cidade / eu não lembro / é uma fotografia / que nunca é a mesma / uma hoje / outra amanhã / o que já fui noutra década”.
A marca mais forte do “à cidade” é, sem dúvida, a autenticidade da voz autoral. Quem mais poderia cantar a pequena Varjota em seus poemas? Quem mais pisou aquele chão e olhou aquele céu? Quem viu aquele rio ou quem conheceu as pessoas que por aquele sertão se deslocam com seus sonhos a tiracolo? O livro é, então, mais que uma homenagem a uma cidade inventada, a marca que Furtado deixou no mundo, com tinta e papel. Só ele poderia cantá-la como cantou nos poemas do livro vencedor do Jabuti. A autenticidade aqui sendo a grande marca de distinção. E isso é muito.
E, assim, volto a uma das perguntas iniciais: o que é um prêmio? Um prêmio é alguém dizendo: você não está sozinho no seu sonho. Nós também acreditamos no seu sonho, junto com você. Mailson Furtado deixou sua marca no campo literário, é fato inconteste. Também é certo que o campo literário, espaço ainda bastante homogêneo, pode ganhar – e muito – com essa abertura para outras vozes que não estão sendo ouvidas nas grandes casas editoriais do país. Esses autores e autoras têm muito a nos dizer, espero que possamos ouvi-los e sonhar com eles.


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