3 de junho de 2018

Autobiografias trans em contexto de ditadura: a coragem de dizer

Leocádia Aparecida Chaves

Imagem: Thor Lindeneg



Peter Pál Pelbart em Vida Capital : Ensaios sobre biopolítica (2011), ao discutir sobre as agonias da contemporaneidade, nos lembra de que não há um espaço privilegiado para resistência. De acordo com as reflexões do filósofo, em todo e qualquer lugar pode-se provocar reviravoltas, disparar algo que atravesse a totalidade; dessa perspectiva, afirma: não é preciso genialidade no gesto de resistir!
Pois bem, tomando essas concepções como ponto de partida, trago para este ensaio o convite feito por Glória Anzaldúa – mulher lésbica, intelectual e ativista – às mulheres escritoras do terceiro mundo (2000): escrevam! Ao fazê-lo, enuncia em que medida concebe a escrita do subalternizado como ato de resistência:

Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você. Para me tornar mais íntima comigo mesma e consigo. Para me descobrir, preservar-me, construir-me, alcançar autonomia. Para desfazer os mitos de que sou uma profetisa louca ou uma pobre alma sofredora. Para me convencer de que tenho valor e o que tenho para dizer não é um monte de merda (ANZALDÙA, 2000, p. 232)

Destaco que essas cartas, datadas dos anos de 1980, para além de nos convidarem a pensar sobre a potência política do gesto de escrever a si mesmo, revelam o fortalecimento de um feminismo Outro – o não branco –, elemento fundante para a implosão da concepção universalizante do gênero feminino bem como para as discussões sobre identidade de gênero e sexualidade expandidos pela teoria queer a partir dos anos de 1990, conforme análise de Sara Salih em Judith Butler e a teoria queer (2013).
Dessa forma, não é gratuito que tenhamos na década de 1980, aqui no Brasil, um marco histórico no campo literário: a publicação das primeiras autobiografias marcadas pelo trânsito identitário quanto ao gênero, e, por isso, territorializadas como “dissidentes”, pois rasuradoras do padrão normatizador para a vivência do masculino e feminino. Estamos nos referindo às obras: A queda para o alto (1982) de Anderson Herzer, publicada pela Editora Vozes; Erro de Pessoa: João ou Joana? de João W. Nery (1984), publicada pela Record e Meu corpo, minha prisão: Autobiografia de um transexual (1985) de Loris Ádreon, pela Marco Zero, que revelam tanto o trânsito identitário do masculino para o feminino como a obra de Loris Ádreon, quanto o do feminino para o masculino, como as obras de Anderson Herzer e João W. Nery.
Também não é gratuito que essas obras tenham sido publicadas pelas editoras citadas, pois como analisa Flamorion Maués no artigo Livros, Editoras e oposição à Ditadura (2014), essas entre outras, se constituíram, em fins da década de 1970, em núcleos de resistência à ditadura civil militar brasileira (1964-1985), fazendo de seus projetos editoriais front literário para uma
(...) literatura política: obras de parlamentares de oposição, depoimentos de exilados e ex-presos políticos, livros-reportagem, memórias, romances políticos, romances-reportagem, livros de denúncias contra o governo, clássicos do pensamento socialista. (MAUÉS, 2014, p. 91)

 Nesse sentido é que situo a publicação dessas autobiografias, pois ainda que não possam ser consideradas como “literatura política” no estrito senso, acredito que seja inegável o gesto de combatividade política tanto por parte de seus escritores quanto por parte de seus publicadores, pois em suas respectivas agências rompem com um silenciamento histórico imposto aos corpos “dissidentes”.  
Entretanto, conforme Amara Moira analisa em De quando elas e eles contam suas histórias: Uma breve genealogia das autobiografias trans mostra a potência dessas obras (2018), embora esses projetos editoriais tenham sido concebidos sob o estigma cissexista e patologizante quanto essas experiências identitárias e dessa forma serem lidos como transfóbicos,  indago aqui os paradoxos dessa empreitada no tempo em que “nasceram”.
Nesse contexto de reflexão, importa lembrar, por exemplo, que somente em 01/03/2018 o Supremo Tribunal Federal em julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4275 reconhece juridicamente que a auto-definição quanto ao gênero é um direito inalienável circunscrito à autonomia de cada uma/um de nós independente de laudo médico. Portanto, tornar públicas, na década de 1980, narrativas que atravessam o discurso de totalidade quanto ao “ser homem” e “ser mulher” numa sociedade sob o domínio militar, no meu entendimento, também pode ser lido como um gesto de resistência.
Quanto a esse paradoxo, saliento, em especial, a “subversividade” da feminista e ativista Rose Marie Muraro, em responder pela publicação de duas dessas três obras: a de Herzer e a de Loris; quanto à última, já nos derradeiros suspiros do regime militar. Destaco que a atuação de Muraro, na Vozes, é reconhecida como fundamental na resistência ao regime; registra-se, inclusive, que  mesmo “pós-ditadura”, em 1986, foi “expulsa” da editora pelo Vaticano em função da publicação de sua obra Por uma Erótica Cristã, conforme entrevista a Ainà Vietro.
Sob essa perspectiva, destaco que a obra de Anderson Herzer, para além de dizer sobre o seu trânsito identitário, denunciará o regime de exceção que o cerca por meio das violências que sofreu nos últimos três anos de sua vida na FEBEM, um dos panópticos do regime militar. Salienta-se, sobretudo, que as torturas inflingidas ao seu corpo lido como dissidente eram mais severas do que as efetivadas sobre os corpos reconhecidos como “normais”:
O diretor da unidade (...) não me aceitava tal qual eu era, ele queria que eu fosse como as outras meninas, que usasse roupas diferentes (...) queria, de qualquer modo, que eu raspasse as pernas e usasse vestido, isso sem contar as humilhações que ele me fazia passar perante todas, com palavras de baixo calão, como por exemplo,  (...) – Machão sem saco, machão sou eu que tenho duas bolas. (HERZER,1982, p. 72)

Herzer era reconhecido na instituição como “ameaçador” tanto por “borrar” os padrões identitários quanto ao seu gênero – pois registrado como Sandra, reconhecia-se como Anderson, quanto por escrever poemas. Sobre eles cito aqui um trecho do Esquecido poeta morto: E meu nome negro será terra ressecada / como a colheita que morreu sem dar o fruto / e na distância do azul vou ser imagem / e embaçado pelas nuvens, serei luto (...) (HERZER,1982, p. 152). Quanto a esse ato de resistência – escrever suas dores e o meio que o violenta – denuncia em seu relato o confisco de seus escritos pelo Diretor da Unidade da FEBEM de Santa Maria, Sr. Humberto Marini Neto, que  justifica a “recolha” do material tendo em vista um projeto de publicação em andamento.
Sobre essa engenharia de tortura estatal, Ana Flauzina – intelectual e mulher negra ativista, em entrevista ao jornal online El País em 18/03/2018, nos lembra que foi estruturalmente arquitetada e implementada no século XVI pelo projeto colonizatório escravagista dito “modernizador”. Porém, também salienta que ainda na atualidade o sistema capitalista, sexista, racista, cisheteronormativo se sustenta nessa mesma engrenagem de extermínio de minorias identitárias. Nesse contexto, é fundamental destacar o aumento dos registros quanto aos crimes de ódio em nosso país, em especial, os de transfobia,  que em geral, conforme demonstra Felipe Bruno Martins Fernandes em Assassinatos de travestis e “pais de santo” no Brasil: homofobia, transfobia e intolerância religiosa (2014), são cometidos com requintes de crueldade – pioneiramente denunciados por Herzer.
A queda para o alto, portanto, é um marco quanto a enunciação de sujeitos cujas identidades ao fim e ao cabo colocam em xeque um modelo hegemônico de identidade e desse lócus fraturado (LUGONES, 2014) acabam por garantir espaço para rebeldias múltiplas, inclusive a da memória: Um homem jamais morre, enquanto sua existência for recordada (HERZER, 1982, p. 152). Destaca-se que Herzer morre poucos meses antes da publicação de seu livro como relata Eduardo Matarazzo Suplicy (HERZER, 1982, p. 15-16), que apresenta dúvidas quanto a causa de sua morte: suicídio ou provocado por terceiros?  Nesse sentido, a publicação de sua obra, por decisão de Muraro, intuo, parece se vincular, em alguma medida, ao projeto Brasil: Nunca mais! (1985), viabilizado pela mesma Editora, que de acordo com Janaína de Almeida Teles em Ditadura e repressão: locais de recordação e memória social na cidade de São Paulo (2015) teve como norte um conjunto de operações de memória sobre a ditadura no período de redemocratização.
Já a obra Meu corpo, minha prisão: Autobiografia de um transexual  publicada três anos após a de Herzer, permitirá ao leitor uma outra aproximação com a experiência de trânsito identitário, embora  ambas as narrativas se contextualizem no mesmo período – meados dos anos de 1960 e década de 1970. Loris, diferentemente de Herzer, branca, oriunda de uma família nuclearmente estruturada e com recursos materiais, se circunscreve num outro lugar de fala; essa localização social lhe permitirá, por exemplo, mudar-se para Manaus e lá completar os seus estudos bem como acessar leituras e informações sobre “casos como o seu” na biblioteca de um médico da família. Por meio de seu relato, portanto, seremos confrontados, com uma voz que ao buscar uma “verdade sobre si” se entenderá “nascida em um corpo errado”, perspectiva que flerta, principalmente, com o título da primeira autobiografia de João W. Nery em Erro de Pessoa: João ou Joana?, ressignificada  em sua segunda obra Viagem solitária : memórias de um transexual trinta anos depois (2011), aspecto discutido por Moira (2018).
No entanto, ainda que a escritora tivesse outra realidade familiar e outros acessos ao mundo, sua existência na “diferença”, fatalmente, foi marcada por violências e torturas desde a mais tenra infância. Quanto a sua vivência escolar, em fins da década de 1970, em Manaus, relata: 
Quando se iniciaram as aulas no meu último ano de ginásio, foi que as coisas se agravaram a um ponto insuportável para mim. (...) – “Veja, ele não tem pelos nas pernas! Olhe, as coxinhas dele como são redondas e  macias, são como as de meninas! Escutem a fala dele! É fala de mulher! O bumbum dele não é de homem nem aqui, nem na China!” (...) Uma vez, lembro-me fui reclamar ao professor de português sobre um aluno que se sentava atrás se mim, pois cada vez que eu levantava para apanhar alguma coisa, passava a mão em meu traseiro. O professor olhou para a classe, depois para mim por sobre os óculos e disse: “ É simples a solução para esse caso: casa-se com ele”. (ÁDREON, 1985, p. 59)

Destacamos, inclusive, que se por um lado, a sua condição econômica lhe permitiu finalizar seus estudos e, posteriormente, com a herança da família, realizar a cirurgia de confirmação de gênero (LANZ,2017, p. 403), também permitiu que seus pais lhe impusessem um tratamento hormonal na adolescência visando acelerar o desenvolvimento de evidências reconhecidas como masculinizantes em seu corpo. “Recurso” médico que operou como tortura sobre Loris, catalisando um quadro de sofrimento mental agudo levando-a a uma tentativa de suicídio na juventude:
Impelido pela dor e pelo ódio que fervia em meu coração, soltei um agudo grito, um tolo desabafo perante os demais, visto que não tinha outra forma de extravasar minha revolta.  Prof. Normand apertou fortemente meu braço dizendo: - “Calma, calma menino, o mundo não vai se acabar por causa de uma injeçãozinha dessas, na vida existem coisas piores!” (ÁDREON, 1985, p. 54)
Destaca-se que a narrativa de Loris nos aproximará, fundamentalmente, do espaço doméstico e dessa perspectiva permitir ao leitor vislumbrar como o espaço pequeno-burguês da família, socialmente reconhecido como de aconchego e confiança, também pode ser lido como panóptico, pois espaço de vigilância e tortura para os corpos dissidentes como o seu o que ainda hoje localizamos em nossa sociedade.
Essas obras, portanto, como que “aceitando” o convite de Alzandúa (2000),  dizem suas dores e angústias com língua de fogo e por esse meio desnudam - sob regime militar - a banalização do mal em que viveram, desde o íntimo do lar ao cotidiano das instituições estatais. Escrituras-prova  que o que têm para dizer não é um monte de merda e dessa forma se configurarem como espaço de resistência tanto pela memória do passado, quanto por nos permitir desnudar o nosso presente -  tempo em que dezenas de pessoas, diariamente, ainda são exterminadas por serem “diferentes”: velhas-novas ditaduras. 





4 de maio de 2018

A jornada em Azul Corvo


Marcella de Melo Faria

Imagem: Ismeta Gruenwald


Adriana Lisboa é autora de romances e livros infanto-juvenis, além de poeta e contista. Nasceu no Rio de Janeiro, morou também na França e na Nova Zelândia e atualmente vive nos Estados Unidos. Ela é mestra em literatura brasileira e doutora em literatura comparada pela UERJ, além de ter sido pesquisadora visitante nas Universidades de Kyoto, do Texas e do Novo México. Seus livros foram publicados em catorze países e traduzidos para diversos idiomas, tais como: inglês, francês, espanhol, alemão e árabe. Seu reconhecimento chegou a ser tão grande que recebeu diversos prêmios, como por exemplo, o Prêmio José Saramago, em Portugal, pelo romance Sinfonia em branco; o Prêmio Moinho Santista, no Brasil, pelo conjunto de seus romances; e o prêmio de autor revelação da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil por Língua de trapos.
Azul Corvo, publicado em 2010, é um de seus romances mais conhecidos. Esta obra retrata a trajetória de Vanja, uma menina de 13 anos que se muda para os Estados Unidos para morar com Fernando – ex-guerrilheiro e ex-marido de sua recente falecida mãe –, que promete ajudar Vanja a encontrar seu pai americano que nunca conhecera. A melancolia é o que une os dois personagens, que acabam criando laços afetivos capazes de durar uma vida inteira e os ajudar nos seus respectivos processos de amadurecimento diante dos tristes acontecimentos que suas vidas lhes proporcionaram até então. Ao mesclar mobilidades culturais à brevidade de relacionamentos afetivos e da própria vida, Adriana Lisboa nos oferece reflexões acerca da existência humana.
Genericamente, a figura do corvo está associada a maus presságios devido à sua cor negra. Nesse sentido, Vanja pode ser vista como uma ave que voa para lugares distintos e essa jornada é também uma viagem interna na qual a personagem conhece a si mesma. Ela acaba se tornando uma ave azul e não negra como poderia se esperar de uma garota estrangeira, órfã, sem muitas condições, vivendo nos Estados Unidos. No seu processo de amadurecimento e de encontro à felicidade ela adquire coloração.
Pode-se dizer que Azul Corvo retrata uma história de amizades que não escolhem nacionalidade, sexo, idioma ou idade. A migração é um tema recorrente na obra, visto que o desejo de mudança é um traço comum entre as personagens. A escritora também explora fatos históricos que ocorreram no Brasil, como a Guerrilha do Araguaia. Ademais, a obra versa sobre a diáspora atual acentuando-se questões importantes e profundas sobre a experiência humana diante de uma realidade cultural heterogênea e mesclada. O deslocamento das personagens pode ser visto como uma busca de identidade, proporcionando-lhes tanto o autoconhecimento como o conhecimento do outro. Ao buscar seu pai biológico Vanja conhece outras pessoas que contribuem para a construção de sua própria identidade e para o seu processo de amadurecimento.
Ao fazer uso de uma linguagem simples, porém poética, Adriana Lisboa narra uma belíssima história que oscila entre presente e flashbacks. Essa variação no tempo permite uma reflexão entre o passado e o presente, que nos leva a ponderar como as nossas escolhas constroem nosso futuro.
Por fim, é importante realçar que Azul Corvo é também uma história sobre nós que estamos imersos numa pluralidade de culturas e que muitas vezes ignoramos nossas diferenças e nos distanciamos dos valores humanos. Assim sendo, as palavras de Heitor Ferraz, colocadas na epígrafe da obra de Lisboa, merecem destaque: “Somos todos estrangeiros. Nesta cidade. Neste corpo que acorda”. Transitar, conhecer pessoas, conhecer-se. Existir é isso!