24 de junho de 2017

A literatura de autoria indígena

Marina Sousa Teixeira


Foto: Fábio Nascimento / Mobilização Nacional Indígena


"Aquela sociedade tinha alguma coisa que nós perdemos". 

Darcy Ribeiro


A primeira experiência que eu tive relativa à cultura indígena foi na pré-escola, quando a turma confeccionou um cocar de papel e o pintou com giz de cera. Saímos correndo pelo colégio, batendo com a mão na boca para fazer aquele barulho supostamente selvagem. A atividade só acontecia no Dia do Índio. E o que tem de errado com essa brincadeira de criança? O problema é ser a única atividade proposta que tem como objetivo retratar o indígena. Essa brincadeira é uma prática escolar que acompanha algumas gerações. Desde muito cedo é criada e enraizada uma alusão à cultura indígena com uma vestimenta de falsificação.

Essa ideia continua nos anos escolares posteriores. No ensino médio, lemos Gonçalves Dias, cujas descrições só nos ajudam a formar a imagem de um índio nu e robusto, protetor da floresta e destemido, armado com seu arco e flecha. E a esse ideal de índio devemos combinar a filosofia rousseauniana do bom selvagem, com a finalidade única de decorar conceitos porque é cobrado no vestibular. A finalização desses anos escolares inclui ler Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. O momento aqui é de catalogar um herói que corresponde ao povo brasileiro e Mário de Andrade constrói um índio plural em raça, etnia, cultura, e claro, preguiçoso. Porém, o escritor indígena Daniel Mundukuru faz uma observação importante: na mitologia indígena de Roraima, Macunaima – sem acento – é um ente legislador que nada tem a ver com a versão literária de Mário de Andrade.

O percurso que a educação brasileira segue sobre a história indígena faz com que toda a população não-indígena se fixe na ideia de que o lugar do índio é exclusivamente na floresta. A inclusão de História e Cultura Afro-Brasileira no currículo oficial da rede de ensino é obrigatória e está garantida por lei. Mas por que esse equívoco no conteúdo escolar continua acontecendo, com as práticas indo na contramão do que dizem as diretrizes? Porque a perspectiva que é passada e trabalhada em salas de aula não é de autoria indígena. Enquanto essas vozes e esses espaços continuarem ocupados pela perspectiva do invasor, as ideias reproduzidas serão de preconceito e de estereótipo.

O que deve ser trabalhado é a consciência de uma literatura indígena que vem sendo produzida há mais de trinta anos e que, na minha saga educativa, com todos os meus privilégios, só tive acesso no ensino superior. A produção literária indígena é expressamente contemporânea e carrega um viés particular, uma afirmação de uma identidade coletiva e real, referente a cada povo. A língua portuguesa, que foi imposta a esses povos de diferentes formas, é usada por eles próprios para travar uma comunicação de continuidade e resistência presente nessas culturas. É o índio como protagonista da sua história, com acesso a novas tecnologias da informação, sustentando a ideia de “eu posso ser quem você é sem deixar de ser quem eu sou”.

Ler literatura indígena é adentrar um mundo desconhecido, repleto de diversidade. As cores e os cheiros quase ultrapassam as páginas. É fazer a mente passar por um processo de criação de formas e objetos antes inimagináveis, não deixando de ser desafiador. É notar que os índios ainda conseguem enxergar coisas que nossos olhos já perderam, dado nosso distanciamento com a natureza. E, acima de tudo, afirmar que temos um compromisso em ajudar e aprender a perpetuar essa história de resistência.

18 de junho de 2017

Bissexualidade e a necessidade de dizer

Isadora Maria Santos Dias


Imagem: Toni Frame

“Mas, fulano não era gay?”, “Virou lésbica?”, “Voltou a ser hetero?”, “Você só está com medo de sair do armário e se assumir gay/lésbica.”, “É só uma fase!”, “Você pre-ci-sa se decidir!”. A cada dez bissexuais, vinte já se perceberam ou perceber-se-ão tendo que lidar com esse tipo de colocação sobre sua orientação sexual. Uma afirmação estatisticamente incorreta que, entretanto, não deixa de ser verdadeira.
A compreensão da bissexualidade como derivação ou “mistura” de hetero e homossexualidade faz com que, no senso comum, esta orientação seja vista como impossível e/ou incompleta, uma vez que para heterossexuais a bissexualidade seria um "disfarce para esconder a sua real homossexualidade” e para homossexuais significaria “um heterossexual confuso e intruso na comunidade LGBT”. Nesse sentido, haveria uma dupla discriminação: por parte das pessoas enquadradas na norma da matriz heterossexual e também por parte de quem foge a ela.
Assim, este embate entre forças monossexuais — ou seja, de pessoas que se atraem e se relacionam romântica e/ou sexualmente com apenas um gênero — acaba por violentar e, por diversas vezes, apagar a bissexualidade. Não há espaço para quem se atrai por mais de um gênero. Não há espaço para quem, portanto, se identifica como bissexual. “Você pre-ci-sa se decidir!", e por se decidir entende-se se sentir atraída/o e se relacionar com um só gênero.
Não havendo espaço para a compreensão de que a bissexualidade é uma orientação sexual válida, é provável, também, que não exista muito espaço para narrativas sobre personagens bissexuais nas quais a bissexualidade não é negativada. São exemplos as incontáveis histórias, no Brasil principalmente em telenovelas, cujas personagens que estão em um relacionamento heterossexual passam a se relacionar com alguém do mesmo gênero e “viram gays ou lésbicas”. Ou, ainda, a personagem num relacionamento heteroafetivo que passa a se relacionar, fora do casamento, com alguém do mesmo gênero e “vira gay ou lésbica”. A identificação com a bissexualidade é impensável, e, ainda que em raros casos a personagem se nomine bissexual, a sexualidade dela será questionada e apagada.
Ainda sobre narrativas na mídia, o relatório The Where We Are on TV? (Onde nós estamos na TV?, em tradução livre para o português), produzido pela Organização Não Governamental GLAAD, monitora as representações da comunidade de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT) na mídia. A partir de dados estátisticos, o relatório investiga a diversidade em séries televisivas produzidas pelos maiores estúdios dos Estados Unidos da América.
Esta análise revelou que, no período 2015-2016, dentre as 70 personagens LGBT presentes nas principais séries de televisão dos canais de TV aberta NBC, Fox, ABC, The CW e CBS, 23 são lésbicas (33%); 33 são gays (47%); 12 mulheres são bissexuais (17%); e 2 são homens bissexuais (3%). Totalizando 20% de personagens bissexuais e 80% homossexuais. No relatório do ano seguinte 2016-2017, houve um aumento de 20% para 30% de personagens bissexuais. Contudo, a representação negativa se manteve.
De acordo com este relatório, as personagens bissexuais são geralmente retratadas da seguinte forma: não confiáveis, propensas a infidelidade, e/ou à falta de moralidade; personagens que usam o sexo como meio de manipulação ou não possuem a capacidade de manter relacionamentos duradouros; possuem comportamento autodestrutivo; e a atração dessas personagens por mais de um gênero é abordada como temporária e raramente retomada ao longo do enredo.
Em literatura, e, mais especificamente, em literatura brasileira contemporânea, esse tipo de representação não tem se mostrado diferente. Trabalhando a partir dos dados de extenso levantamento sobre autoras/es e personagens de romances brasileiros publicados por grandes editoras entre os anos de 2005 e 2014, retirados da pesquisa "A personagem do romance brasileiro contemporâneo", coordenada pela professora Regina Dalcastagnè, nota-se que em um conjunto de 303 romances, com 1140 personagens analisadas, 50 personagens são identificadas como bissexuais, das quais 32 das personagens são mulheres e 18 homens. A maioria dos autores são homens – de um total de 39 romances, 23 foram escritos por autores e 16 por autoras, sendo que Carola Saavedra, Flávio Braga e Marcelo Carneiro Cunha aparecem duas vezes cada como autores.
Tendo lido até agora pouco mais de um terço desses livros, a minha impressão geral e inicial tem sido a de que a bissexualidade é uma sexualidade ainda sem nome. Entre personagens protagonistas e secundárias, poucas são as que se dizem bissexuais com todas as letras. Muitas vezes, portanto, a bissexualidade depende do entendimento do leitor de que a atração sexual e/ou romântica da personagem por mais de um gênero é válida. Temos com isso um problema de representação: como identificar personagens bissexuais, se muitas vezes essas personagens não usam esse termo? Como dizer que uma narrativa representa uma perspectiva sobre bissexualidade, se há um espaço ambíguo na interpretação da história? E, principalmente, como esperar que essa leitura aconteça dentro de uma sociedade que sistematicamente invisibiliza bissexuais?
Uma explicação plausível para o não uso do termo “bissexual” por personagens que se relacionam com mais de gênero pode ser o estilo da autoria, uma escolha narrativa. Ou o que Kenji Yoshino denomina apagamento bissexual: mecanismos sócio históricos, políticos e discursivos que tornam a bissexualidade uma forma impossível e distorcida de identificação e expressão sexual.
Seja em representações associadas a estereótipos negativos na mídia, seja na ausência do termo em narrativas, o que tenho observado até aqui é a necessidade de se falar sobre a bissexualidade para além dos discursos médicos, para além da figura do bissexual "insaciável por sexo”, “indeciso”, “pouco confiável” ou “proliferador de doenças sexuais devido à conduta sexual exacerbada”, porque esses têm sido o lugar-comum sobre o assunto. E esses clichês têm invisibilizado, deslegitimado e generalizado um grupo muito diverso de pessoas.

Ao longo desse texto, talvez, eu tenha usado exaustivamente os termos “bissexual/bissexualidade”. Em minha defesa, admito que foi proposital.