7 de novembro de 2020

DES/APARECIDOS

 

Nicoletta Vallorani*

Imagem: The Disappearing Man, de Howard Ross


 

As palavras dão forma ao mundo. Enquanto digo isso, me assusto, porque penso nas palavras que estão se apagando agora, nesta infeliz contingência, e me convenço que talvez seja melhor permanecermos mudos. As palavras são pedras, como diz Portelli, combinando injustiças diferentes e colocando lado a lado casos como Giulio Regeni [um doutorando italiano da Universidade de Cambridge, que foi sequestrado no dia 25 de janeiro de 2016 e encontrado morto em 3 de fevereiro daquele ano na cidade do Cairo, Egito. As condições do corpo demonstravam sinais de tortura. Até hoje as autoridades egípcias não respondem a todos os questionamentos para uma investigação transparente sobre o assassinato de Regeni. Uma campanha da Anistia Internacional persiste pedindo verdade sobre o que foi feito contra ele] e BlackLivesMatter. As palavras dão aparência a e fazem desaparecer pessoas, tornam-nas visíveis ou apagam as coisas e situações. São armas que devem ser usadas com cautela.

 

As palavras da pandemia, em particular, como escreveu anteriormente Susan Sontag, têm uma validade dupla, uma genealogia metafórica dupla, que combina o desejo de abstrair-se da dor com a consciência de que o corpo doente é real, existe, é violável, é violado. As medidas “simbólicas” que dias atrás invocavam um dos governadores de uma região italiana são – se definidas como tais – ofensivas e perigosas. Estas cancelam a consciência dos corpos verdadeiros para preencher o espaço com um léxico político conveniente.

 

Há alguns anos, a partir do meu ponto de vista não médico, me ocupei dos temas epidemia e contaminação, trabalhando sobre Derek Jarman e sua potente expressão artística que, para esse extraordinário pintor e filmaker, é ligada à consciência de uma morte à época inevitável para quem adoecia de AIDS. Antes, como hoje, o léxico prevalente para falar de infecções virais era maniqueísta: saudável ou doente, limpo ou sujo, normal/normativo ou anormal/anômalo. Nenhuma gradação, nenhum espaço intermediário. Acima de tudo, uma terminologia bélica penetrante, militarizada já a partir dos acrônimos utilizados: quem contraía AIDS, por exemplo, era um PWA (“Person with AIDS/ Pessoa com AIDS”), uma definição com mais de uma proximidade com o militar POW (“Prisioner of War/Prisioneiro de guerra”).

 

Praticamente, desde os estudos de Susan Sontag sobre como se contam as epidemias em relação à linguagem expressiva de hoje, pouco mudou, senão que as metáforas biopolíticas de caráter militar por vezes são usadas comicamente sem um propósito. Como por exemplo, alguns dias atrás, tivemos que ler em um jornal de tiragem nacional as palavras de um secretário da região da Lombardia que declarava orgulhosamente: “Estamos perfeitamente equipados para enfrentar a Armada Vermelha”, quase como se o vírus fosse um comunista – o único comunista sobrevivente, provavelmente, no planeta – e pudesse ser derrotado com armas.

 

Na verdade, uma das tantas coisas que estão indo parar na conta das vítimas é a capacidade de “ver” aquilo que está acontecendo, e de contá-lo de modo que a narrativa sirva àquilo que servem as histórias: entender, encontrar caminhos, tornar visível, desvendar o emaranhado de erros. Na estupidez política que parece um sinal dos tempos, esta capacidade de dar forma ao desastre é um dos ilustres desaparecimentos, enquanto aparecem em todos os lugares especialistas em política, epidemiologia, especialistas em adolescentes, escolas, economistas autodidatas.

 

Entre esses se move, perdido, o cidadão comum, e este adjetivo, como poderemos ver, é importante – é um pouco como o estrangeiro, o migrante, a mulher, o homossexual, a figura não normativa, isto é, todos precisam se esforçar para não sê-lo (fingindo-se, portanto, de especialista em qualquer coisa) e de não vê-lo (se conseguiu sair da categoria de invisível).

 

Em alguns lugares que não se aconselha frequentar, o cidadão comum é formalmente inserido como criatura de segunda ordem. “Durante a pandemia, o sistema de saúde privado abriu seus quartos luxuosos para pacientes comuns que eram transferidos do setor público” proclamava o secretário de saúde da Lombardia, Gallera, no dia 24 de junho de 2020, e hoje essa mesma voz, com relação à vacina antigripal, diz: “O objetivo é cobrir as faixas de risco. Livre mercado? Não podemos nos ocupar do paciente comum”. Nos anos 70, Raymond Williams, professor, estudioso e ativista, orgulhosamente afirmava “Culture is ordinary”: a cultura é de todos, um bem comum, não prerrogativa de uma elite de intelectuais. Hoje temos o “paciente comum” que sustenta o privado com seus impostos, mas deve esperar a complacente beneficência, dentro de uma moldura administrativa que se constitui como um sistema autoimune, no qual a crítica não penetra, não porque não exista, mas porque é feita desaparecer antes mesmo de entrar nas fronteiras institucionais. Se desmaterializa, um pouco como os arquivos de um tempo quando são digitalizados.

   

Entretanto, nesta festa de desaparições, também outros são os desaparecimentos. Desapareceram, por exemplo, os corpos dos vivos. Não existem os sorrisos, as caretas tristes e alegres, as bocas fechadas ou escancaradas, cheias de dentes. Para tantos de nós que continuamos a lecionar, desapareceram os estudantes, transformados em bolinhas, no melhor dos casos decoradas com avatares que designam identidades imaginárias. Desapareceram os abraços. Na relação entre as pessoas, desapareceu a pele.

 

Além disso, desapareceram os corpos dos mortos. As pessoas que partiram são objetos sem respiração que não se pode ver. Entes queridos desaparecidos, dos quais apenas podemos imaginar a cerimônia fúnebre, em vez de vivê-la. A memória se evapora rapidamente, enquanto a dor permanece intensa, sem ser possível o consolo de uma despedida adequada.

 

Desapareceu a cultura, uma vez que ao contrário de a usarmos para contornar o problema, a empurramos para os cantos, nos interstícios da história. Reduzida a assunto de carteiras com rodinhas[1] [para retorno dos alunos às aulas presenciais] e acrônimos de duvidosa transparência, a cultura se afogou.

 

Enfim, desapareceram a responsabilidade e a obrigação da competência: teríamos, em teoria, como adultos, uma responsabilidade na relação com os mais jovens. Teríamos também a responsabilidade de evitar que desaparecessem as coisas que importam, por exemplo, as relações, a dimensão ética, a ideia de comunidade. Deveríamos, talvez, convencê-los de que não irão se afogar nas máscaras apertando entre punhos cerrados um título de estudo que vale pouco, especialmente se da área de humanas, porque com o passar do tempo esqueceu-se para que serve a cultura. Devemos, talvez, admitir que somos capazes de argumentar, discutir, mas não de elaborar os conflitos; de nos indignarmos, mas não de nos comprometermos; de pretender que devemos ser salvos, mas sem renunciar àquilo que contribuiu para o desastre.  

 

Pagamos – aqui em Milão, na minha percepção, mas talvez também em outros lugares – um outro desaparecimento importante, ainda mais penoso e originário: o desaparecimento da capacidade de entender aquilo que acontece ao nosso redor. Para esse tipo de compreensão, é preciso um tempo lento, uma reflexão que se tornou essencial, de uma consciência inédita, um olhar atento ao caos, que é nosso companheiro e, como escreve Haraway, é a condição permanente de um planeta que arrisca desaparecer também.

 




[1] Na Itália, a maioria das salas de aulas são dotadas de carteiras “duplas”, a mesa com cadeiras para dois alunos. Com a pandemia do novo coronavírus, a proposta mais divulgada (não sem polêmicas) do Ministério da Educação foi a aquisição de carteiras individuais com rodinhas, que permitiriam facilmente a administração do distanciamento entre os alunos. Os custos e a prioridade que se deu ao projeto foi muito criticado pela própria comunidade escolar, que apontava como mais preocupantes a própria falta de espaços para realocar os alunos distanciados e a necessidade de contratação de professores para cobrir os diferentes horários de aula e a substituição dos professores da faixa de risco que não poderiam voltar às aulas presenciais. 



* Escritora e professora de língua, literatura e cultura inglesa e anglo-americana na Università degli Studi di Milano.

Tradução: Grazielle Frederico

Publicado originalmente em:

27 de junho de 2020

Por uma gestão do infraordinário


Lucía Tennina
Universidade de Buenos Aires

Imagem: Dragan Bibin



Paralelamente ao trabalho de cientistas e epidemiologistas para encontrar uma vacina que acabe com o coronavírus, o confinamento global agitou teclados, agendas e projetos para pensar em horizontes possíveis e desejáveis ​​após o término da pandemia. O futuro nos envolve com uma incerteza que não apenas nos enche de esperanças de uma mudança global em termos sociais e climáticos, mas também nos assusta com novas catástrofes e realidades distópicas ou nos preocupa, ao pensarmos que tudo voltará ao que era antes.

Mas o que acontece portas adentro, na vida diária mais íntima?
Tomando como ponto de partida meu lugar de enunciação como mulher branca em um mundo ainda patriarcal, de classe média, professora universitária, pesquisadora, mãe de duas filhas muito pequenas, me ocorre pensar que esse nós do qual faço parte está imerso em um cotidiano permanente, em um dia a dia que se repete e que vai acumulando os hábitos uns sobre os outros, embora sem deixar de ser um diferente do outro. Cercada por brinquedos, diálogos imaginários com bonecas, role-playing onde às vezes eu sou um bebê, outros eu sou o lobo, montanhas de louças, roupas sujas para lavar ou limpas para pendurar, compras de supermercado para desinfetar, trabalho pendente para resolver, contas a pagar. Ruídos de água corrente, aspirador funcionando, telefone tocando, aquecimento por microondas. Gritos, choros, TV ao fundo, silêncios, diálogos. Tudo dentro de casa. E, enquanto isso, o calendário avança.
É possível falar sobre o futuro neste modo de vida? Prefiro dizer que estamos vivendo um presente que não dá lugar ao futuro. E também não sei se é possível falar do presente, mas de uma interioridade cheia de instantes intangíveis à primeira vista e que estão por trás do pensamento em uma dimensão, ainda, de tentar entender. Seria, de acordo com Clarice Lispector, um instante – já tão difícil de definir, porque é algo como uma quarta dimensão, trata-se do desconhecido dos instantes sempre iguais. Mas não igualitários. Porque essa conjuntura de uma pandemia mundial colocou sobre a mesa que nem todo mundo tem o direito de dimensionar seus instantes e que, para esses, os instantes se tornam urgências que gritam racismos, que gritam abandono e revelam que as mortes que estão acontecendo não são apenas tragédias, mas também assassinatos e que o futuro faz tempo que é impensável.
As perguntas que surgem, então, são: Que responsabilidade nos cabe, a nós que nos dedicamos à pesquisa básica, nestes momentos? Como devemos administrar os instantes para pensar em nosso cotidiano não apenas como repetição, mas como momentos de criação e agência? Que posição devemos tomar em relação às urgências que anulam o direito aos instantes?
Nestes dias estive lendo uma poeta chamada Marília Garcia e em um de seus poemas, do livro Parque das ruínas, ela menciona um termo de Georges Perec: o infraordinário. Marília diz:

            “o que se passa todos os dias e que volta todos os dias
o banal o cotidiano o óbvio o comum o ordinário
o infraordinário
o barulho de fundo o hábito
— como perceber todas essas coisas?          
como abordar e descrever aquilo que de fato
preenche a nossa vida?”

Parece-me que esse fragmento define muito bem o que, acredito, nos cabe como intelectuais nesse momento de confinamento. Quanto podemos pensar no futuro nessas circunstâncias que não deixam de ser privilegiadas? E o que resta do presente? Mais do que pensar no futuro ou no presente, acho que hoje seríamos forçados a pensar, antes, no todos os dias, pensar essas novas coordenadas de representação de nossos hábitos através do infraordinário, entendendo esse tipo de reflexão como política no sentido rancieriano de elaboração de uma sensibilidade do anônimo, do ainda não nomeado. Paradoxalmente, nesses tempos em que o distanciamento é a regra, a saída estaria em se debruçar com uma lupa sobre a potência do nosso cotidiano. E, como contrapartida, em assumir a desigualdade dessas reflexões, levando em conta que existe outro tipo de anonimato, o de grupos sociais historicamente marginalizados e abandonados, sufocados (literalmente) mais do que nunca neste momento, que não têm direito a esta repetição e que nos obrigam a replicar não apenas o "ruído de fundo do hábito", mas também os slogans dos protestos que essas violências reacendem.

16 de maio de 2020

Este não é um texto sobre a pandemia

Lucas Amaral de Oliveira


Imagem: Claire Harvey

Não teria sido possível seguir enfrentando esta sociedade incivil, mais explícita em função da pandemia, sem o horizonte intelectual e afetivo de Muniz Sodré

Calhou nestes dias de confinamento uma urgência de escrever, entregar às palavras o que tem sido do império das angústias. De início, pensei que talvez me fosse mais apropriado, na condição de sociólogo-docente-pesquisador, discorrer sobre como esta crise epidemiológica vem aniquilando os espaços de convivialidade de uma cidade tão culturalmente agitada como Salvador. Ou, por outro lado, como esta fatal necessidade do isolamento – e, paradoxalmente, para muitos cidadãos, a sua impossibilidade material – acaba por amplificar as desigualdades sociorraciais e a segregação urbana de uma das metrópoles com maior densidade populacional do planeta. Já havia, inclusive, esquematizado uma análise cujo eixo seguia os itinerários da operacionalização da necropolítica no Brasil. Foi então que recebi uma mensagem familiar.
Era uma sexta de pouco sol em Salvador, depois de semanas de chuva e tempo fechado. Condição atípica, que fez do isolamento a aceitação do exílio. A mensagem me chegou como sinal de alento, respiro – afinal, o luto se impõe quando diante de mais de quatorze mil mortes oficiais registradas no país. Após quinze dias de desassossego, soubemos que Muniz Sodré está melhor. Entendedor das culturas brasileiras. Espírito imensurável. Que tem se mostrado até então maior que seu quase-fim terreno. Suportou dias a fio de inconsciência febril, lidando com o ápice da infecção de Covid-19, na UTI de um hospital de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Com muito custo, o baiano parece disposto a engambelar esta doença que muitos ainda insistem em eufemizar. Mas pudera! Muniz não caberia em despedidas. Por galardosas que fossem. Não caberia em epílogos. Por adjetivosos que pudessem parecer. Se fosse o caso, certamente ele se transbordaria desde dentro da gente em forma lagrimosa. Num contexto de morte e nada mais, é preciso celebrar os sopros de vida, as sobrevivências do dia-a-dia. O axé de Muniz.
Ultimamente, quase não tem havido espaço para boas notícias. Pelo menos em terras incivilizadas. Como a nossa, latifúndio do ódio. Terra que agora ainda tem de enfrentar uma doença implacável que só tem trazido sofrimento, desalento, escassez, morte. Obviamente, a uns mais que a outros. Mas me traz um leve sorriso ao rosto saber que este texto não é tributo póstumo. E que estas palavras estejam sendo traçadas, agora, em tom de homenagem a alguém que, desde um lugar um pouco mais seguro, segue entre nós. Me abranda o espírito que este texto não ecoa palavras de despedida. É apenas um relato pessoal. Ou reminiscência intelectual que gostaria de tornar público, hoje. Porque constitui um testemunho de como um ser humano marcou, com tamanha solidez, uma geração inteira de pesquisadores da cultura – na qual eu próprio me incluo –, preocupada com efeitos éticos e políticos da produção do saber.
Se não há tamanho, também não há tempo neste mundo em que caiba Muniz Sodré de Araújo Cabral. O professor Muca, como costuma ser afetuosamente reconhecido entre colegas e familiares, é existência incabível, inencaixável, imorrível. Farol que orienta nossos pés nos entremeios das tormentas da história. Oriente. Horizonte. A exata somatória da vastidão de sua ternura com a fineza de um intelecto perspicaz, multiplicada pela seriedade investida no cultivo das belas artes do ensinar – que orientam a mim e a colegas no magistério público –, elevado à enésima potência da dedicação que tem depositado, nas últimas cinco décadas, em analisar as vicissitudes nacionais, às vezes desnudando nossos ilogismos mais desavergonhados.
Muniz é daqueles seres humanos insubstituíveis. Do tamanho da energia de vida que tem despendido buscando entender a alma, a mentalidade, o imaginário, a epiderme, os intestinos e o sistema nervoso central de um país periférico, culturalmente rico, não há dúvidas, e híbrido até a raiz de suas histórias mais recônditas; mas erguido na base de ferro, fogo, lágrima, sangue, racismo e muito genocídio. Da mesma maneira que as composições de Aldir Blanc e Moraes Moreira revolucionaram a bússola da música popular brasileira, que as atuações de Flavio Migliaccio politizaram a dramaturgia de um país naufragado no precipício do autoritarismo, ou então que os contos de Sérgio Sant’Anna redirecionaram a ficção na literatura brasileira contemporânea, as obras de Muniz Sodré sublevaram as ciências sociais e humanas de modo irremediável, em especial as teorias da comunicação e a sociologia da arte e da cultura: “O terreiro e a cidade” (1988), “A máquina de Narciso” (1990), “Antropológica do espelho” (2001), “A narração do fato” (2009), “Reinventando a educação” (2012), “A ciência do comum” (2014) e “Pensar nagô” (2017) são apenas alguns exemplos de sua prodigalidade.
Não podemos economizar adjetivos, analogias e perífrases quando homenageamos alguém em vida. A vida de Muniz. Mestre da tradução intercultural, artesão dos saberes, zelador da communitas e da civitas. Desconstruidor das práticas sócio-antropológicas que foram moduladas na obsessão euro-americana de conhecer a si à medida que subalternizava mundos. Transgressor das interdisciplinaridades acadêmicas. Crítico infatigável do racismo estrutural que, para ele, é constituído e constituidor tanto de nossas cordialidades interpessoais como dos patrimonialismos institucionais. Muniz Sodré é um decolonial nas humanidades brasileiras. Sua práxis é a política do afeto: “o vazio do sensível torna inócuo o conhecimento da evidência objetiva e inibe um posicionamento prático-teórico que possa contornar as taras monocausais”.
Livre-Docente e Professor Emérito da UFRJ, Doutor Honoris Causa da UFBA, Pós-Doutor na Paris-Sorbonne, ex-presidente da Biblioteca Nacional, escritor latino-americano rigoroso e eloquente. Verdadeiro gingador de brasilianidades. Virtuoso. Hábil em formalizar em palavras e conceitos as vidas de todos nós que, sem dinheiro no banco e nem parentes importantes, viemos do interior. Muniz é um dos teóricos brasileiros mais lidos, difundidos e respeitados no exterior. E seguirá sendo. Intelectual e ativista negro de brio, fala iorubá, inglês, russo, francês, espanhol, italiano, árabe, alemão. Ser multíplice, multiplicador. Alquimista do conhecimento. Guardião da ancestralidade. Autodidata dos impasses da vida. Aprendiz de Mestre Bimba – o mais ilustre entre batuqueiros e capoeiristas. Muniz, como seus estimados baianos Jorge Amado, Dorival Caymmi e Gilberto Gil, também é Obá Xangô do Axé Opô Afonjá, no culto nagô-ketu do candomblé baiano. E, como cientista social público e inventivo que é, faz questão de misturar suas vivências a epistemologias plurais para entender o presente.
Em especial, sou simpático de uma reflexão que ele vem equacionando e que parece ter ganhado força com a experiência do bolsonarismo no Brasil contemporâneo. Muniz insiste que, como nação, somos uma fábrica arcaica de “produção social do ódio”. Isso nos tem feito reféns daquilo que sempre fomos, porque forjados nos cemitérios do colonialismo: uma “sociedade incivil”. Ele argumenta que estamos a experimentar, hoje, um inquietante tropeção no fio transformador da história nacional. A imagem, tão potente quanto trágica, sugere que não se trata mais da antiga oposição entre civilização e barbárie, e sim de uma figuração social nova, em que relações humanas geridas pelas tecnologias de comunicação de massa acirram cada vez mais a criação, a difusão e o consumo egoístico de informações inautênticas, processo que vem desestabilizando consensos de representação do mundo – formato da Terra, história do nazismo, direitos humanos, acúmulo científico, etc. Não há mais ação comunicativa possível em um cenário em que parte da população brasileira se oferece a negacionismos, anti-intelectualismos, fundamentalismos e conspiracionismos de variados graus. O atoledo da ignorância nos asfixia.
Para ele, a farsa desta contemporaneidade é habitada por uma horda que exibe um desejo pornográfico pelo caos. São essas as pessoas que vêm alimentando o espectro do fascismo, real e virtualmente. Ou, como prevê o baiano de São Gonçalo dos Campos, é a entrega a essa pulsão que alicerça o protofascismo tupiniquim, em que a perseguição do Outro, inimigo em potencial, irrompe como fratura política, sociopatia e gozo pela catástrofe. Por si, a desigualdade já dificulta que pessoas privilegiadas vejam seus Outros como entes merecedores de respeito e consideração. Só que a desigualdade brasileira, que sempre foi um perverso projeto de nação, além de impor obstáculos à civilidade, transforma pessoas em “não pessoas”, esvaziando-as de valores intrínsecos, vertendo corpos e existências em vidas precárias, descartáveis. Daí a sanha pela ofensa, o fascínio pela violência, a apologia armamentista. Daí os absurdos regressivos e as defesas crônicas de um estado teocrático-miliciano que se anuncia como “salvador da pátria”, administrado por “cidadãos de bem”. Daí a transformação da morte em único horizonte de vida.
Como reflete Muniz, não se trata de ideologia capitaneada por um partido político com o beneplácito do Estado, como o nazifascismo histórico, mas sim do produto do ressentimento social das elites em relação a uma década de governos de centro-esquerda, estimulado por uma ordem de fatores que encontra na violência sua única justificação: a ignorância da história do país, a energia do descontentamento ante o acúmulo de diversas crises, alterações nos hábitos, corrupções políticas, versatilização dos estilos e estéticas de vida, sentimento de um suposto declínio ético e moral, etc. Tanto ontem como hoje, a “situação fascista” reflete um medo coletivo e manipulável, “paixão política negativa”. Medo imaginado, abstrato, fantasmagórico. Medo cujo saldo é o ódio. Não viveriam acólitos e colaboracionistas do presidente perdidos num labirinto assombrado por inimigos que eles próprios projetaram e, agora, querem eliminar? Como gramsciano, Sodré nota que “o velho mundo sempre morre, mas o novo tarda para surgir; e desse claro-escuro emergem os monstros”. Espero que as lições de Muca, nosso mandingueiro anticolonial que tem vertido suas últimas décadas de vida num campo de luta contra os monstros do fascismo e num espaço de reconhecimento e desmantelamento das “inscrições da barbárie no cotidiano”, orientem a todos nós neste mar de trevas no qual nos encontramos.
Finalizo meu testemunho intelectual com um trecho do discurso que Muniz proferiu na Academia de Letras da Bahia, em 31 de outubro de 2019, aqui em Salvador, alguns meses antes da pandemia nos atingir. Na cerimônia que marcou a sua posse da cadeira 33, cujo patrono é o poeta abolicionista Castro Alves, sucedendo a Ialorixá Mãe Stella de Oxóssi, ele disse: “A ancestralidade – folha no chão – vem ensinar que ética não se resume à codificação de regras de conduta nem a um ajustamento moral, decidido por tribunais de meia sola, por falsos monopólios da virtude.  O que hoje se vem chamando de crise moral não é a mera violação de valores e regras instituídos (corrupção, violência institucional, mutação nos costumes), mas sim o obscurecimento do destino comum, esse destino a que se revelam cegas as elites econômicas, políticas, burocráticas e tecnológicas. Por ética, eu me refiro a um apelo radical à dignidade do ato de habitar e conviver, portanto, a tudo o que implique um destino comum prefigurado pela razão fundadora da comunidade”. Saravá, Muniz! Sigamos vivos, porque a luta continua...

* Lucas Amaral de Oliveira é Professor Adjunto do Departamento de Sociologia da UFBA.

3 de maio de 2020

Para Carolina



Arte de Farnese de Andrade



Cara Carolina Maria de Jesus, nossa eterna Bitita,

estou te escrevendo do ano de 2020, quando um vírus letal tem mostrado para a humanidade, há muito doente, que ela tem seus pés de barro. Escrevo-te de uma pequena sala da minha casa, enquanto ouço o barulho de crianças gritando; o movimento dos carros; o chiado da panela de pressão na casa da vizinha; o pronunciamento do atual presidente do país nas redes sociais questionando “e daí?” diante da morte de mais de cinco mil pessoas devido à pandemia causada pelo vírus; os gritos de uma mulher que parecem vir do outro lado da rua; o sono leve de meu filho, de três anos, com febre aqui do meu lado devido a uma garganta inflamada. Vindo das batidas inquietas do meu coração, ouço ainda os sussurros invisíveis de milhares de Carolinas desesperadas por não saberem o que darão aos seus filhos para comer no dia de hoje e nos mais sombrios que ainda virão. Aproximando-se um pouquinho da sua, minha escrita se emaranha aos burburinhos que tecem o cotidiano desses dias e à urgência de dizê-los, ainda que seja só para pedir que o vento encontre uma fenda na vozaria por onde possa levar, à sala de visitas, as palavras de angústia, de indignação, de medo, mas também de amor, empatia e esperança, que movem o meu escrever.

Desculpe por introduzir a nossa conversa com alguns assuntos tão tristes. Queria eu começar esta carta te falando apenas dos sorrisos largos dados, por um breve tempo, pelo nosso Brasil. Dizer a você que um homem, que já passou fome, o governou. Sim, querida Bitita, o Brasil foi dirigido por alguém que teve como professora a fome. É bem verdade que, para conseguir governar, precisou fazer alianças com o mercado e isso lhe/nos custou muito caro. Em um outro momento te conto mais sobre isso. Por enquanto, quero que saiba que, como você previu, as políticas adotadas por esse governo contribuíram para que cada vez mais brasileiros pudessem comer três vezes por dia sem deixar de comprar sapatos para as suas filhas. E não parou por aí. Você, que atravessou cidades de Minas a pé, com as pernas feridas, em busca de um tratamento, certamente ficará feliz em saber que esse governo também investiu em saúde pública, ainda que não o suficiente. E tem mais, talvez seja difícil para você acreditar, mas por um tempo, os pobres puderam viajar de avião, misturando-se aos ricos nos pomposos aeroportos. Foi dessa forma que os pretos, espalhados pelo vento como folhas secas, puderam se juntar, ficar mais perto dos seus. Também muitos de nós puderam abandonar os quartos de despejo e comprar uma casa de alvenaria. Houve investimento na educação e na pesquisa. As nossas universidades foram ficando cada vez mais coloridas por pretos, índios, quilombolas, homossexuais, transexuais. Pessoas que, como você, também compreenderam o poder de transformação que tem a escrita e, com e por meio dela, têm feito coisas extraordinárias. Você precisa lê as literaturas inspiradoras que as filhas e netas de empregadas, de pedreiros e de outras tantas profissões desvalorizadas estão escrevendo!

Queria eu ter começado esta carta te dizendo que o Brasil já foi governado por uma mulher.  Essa é mais difícil de acreditar, não é? Mas foi. Estou te contando isso por acreditar que a menina Bitita, que tantas vezes sonhou atravessar o arco-íris para se tornar homem e assim desfrutar dos privilégios concedidos a esse gênero, ficará feliz em saber que, apesar de a desigualdade de gênero ainda existir e de a nossa primeira presidenta ter sido derrubada em meio a discursos extremamente machistas, um número significativo das mulheres do nosso tempo são, cada vez mais, donas de si e seguem sendo inspiração para tantas outras, como você foi e ainda é para muitas de nós.

Ah, e como eu queria ter começado esta carta te contando que as patroas do seu tempo encontrariam muita resistência ao tentar fazer as meninas pretas do meu tempo trabalhar de graça em troca de produtos que pudessem deixar os seus cabelos escorridos. As amarras de um sistema que te fizeram, e ainda fazem a muitas de nós, olhar os cabelos no espelho e desejar que eles tivessem nascido lisos têm sido denunciadas e contestadas por coletivos e por pessoas inspiradoras. Os nossos crespos e cacheados não querem mais ficar presos. Volumosos, eles têm entrado nos cinemas, na televisão, na internet, nos shoppings, nas propagandas, no concurso de Miss Brasil, em todos os lugares.

Infelizmente, não pude começar nossa conversa por aí. Escolhi que ela se iniciasse em um espaço-tempo despetalado. Porque assim como a escritora favelada foi rosa despetalada quando espinhos alcançaram o seu coração também foram aqueles(as) que, no meu tempo, ousaram não ficar em silêncio ou tentaram mudar a ordem estabelecida das coisas. Igual a um corpo envelhecendo, também nossos sonhos, florescidos nos tempos de alegrias contados acima, foram desiludindo, regredindo, envelhecendo, enrugando, murchando, morrendo. Os espinhos da minha época talvez não tenham os mesmos nomes que os da sua, mas não duvido que possuam os mesmos traços genéticos, as mesmas raízes, os mesmos sobrenomes. Continuam a humilhar a menina faminta que pega uma manga no quintal do vizinho para saciar a fome e a apertar a mão e dar uns tapinhas nas costas dos que roubam o país. A menina “ladra” ouviria, com muito medo, que bandido bom é bandido morto enquanto a amarrariam em um poste ou tatuariam “ladra e vacilona” em sua testa. A mãe trabalhadora que, sozinha, cria e mantém o sustento dos filhos, ouviria do vice-presidente que ela é fábrica de elementos desajustados que afetam o país.

É que os filhos dos Moreiras, Pereiras e Oliveiras do seu e do meu tempo, Carolina, continuam a violentar nossos corpos, nossas forças de trabalho, nossas identidades. Continuam a tratar bem os industriais e a tratar como animais os operários. Continuam a cobrar de nós que sejamos submissos, que abaixemos as vozes, que não façamos o que eles chamam de “mi-mi-mi” ao menosprezarem as nossas vozes. É que eles, Carolina, não suportaram nos ver nos infiltrando, para usar aqui uma palavra sua, em universidades; viajando para o exterior; indo aos mesmos shoppings, teatros, restaurantes e cinemas que eles; produzindo e vendendo cinema, música, literatura e arte de qualidade; fazendo pesquisa, tornando-se mestres(as) e doutores(as); saindo do quintal e ocupando a sala de visitas. Os de agora, como os da sua época, também não pensam nos nossos filhos. Quando bradam, vestidos de verde-amarelo, abraçados na bandeira do país ou dançando ao redor de um pato, em um domingo sangrento qualquer, que o que estão fazendo é pela família, estão falando apenas de suas próprias famílias, não das nossas. Eles estão, de certa forma, zombando de nosso sofrimento enquanto perguntam, covardemente: “E daí” se os seus filhos, avós, netos, pais, mãe, irmãos, irmãs estão morrendo? E daí, Bitita? O que eles têm a ver com isso, não é? Embora nos sepultem todos os dias, eles não são coveiros. Para eles basta que sigamos trabalhando, mantendo a engrenagem da economia funcionado. Quando um é engolido por ela, basta colocar outro no lugar e tudo segue igual, como se nada tivesse acontecido.

Embora tenha escolhido este tempo-espaço despetalado para iniciar a nossa conversa, esta carta não é para dizer que tudo está perdido, Bitita. Recolha a desilusão e a tristeza que as minhas palavras podem ter trazido. Quando eu digo que aqueles(as) muitos que fugiam ao vê-la ainda estão por aqui não é para que você entenda que nada mudou, é para que você compreenda que eles estão tentando nos silenciar porque a mudança aconteceu. É para que você saiba que, embora não plena nem por muito tempo, os pretos deste país já conheceram a felicidade e não vão abdicar dela tão facilmente. É para te dizer que muitas mulheres pretas do meu tempo, as que, como aconteceu contigo, são tolhidas pelo preconceito e o racismo, estão escrevendo, estão ocupando espaços socialmente privilegiados, estão levando outras consigo, não vão voltar atrás. É para que entenda que os pretos do meu tempo viram o sol, sabem de sua força, e que, embora estejam murchando nestes dias de escuridão, não vão se deixar ser sobreterrados. É para falar a você que, usando aqui as palavras de Conceição Evaristo, uma mulher preta que se inspira na sua escrita, “eles escolheram nos matar, mas nós escolhemos não morrer”.

Há um poema seu no qual você diz “quantas coisas eu quis fazer, fui tolhida pelo preconceito. Se eu extinguir, quero renascer num país em que predomina o preto. Adeus! Adeus, eu vou partir! Morrer! E deixo esses versos ao meu país. Se é que temos o direito de renascer, quero um lugar onde o preto é feliz”. É partindo dele que te pergunto, Bitita: e daí que eles dizem que não podemos renascer? E daí que eles não querem que os pretos sejam felizes? E daí que eles nos vejam como estatísticas e não seres humanos? E daí que eles pensam que nos mataram? E daí que eles foram assim antes, durante e depois do tempo de sua escrita? E daí? Apesar de tudo isso, a sua escrita alcançou o meu tempo, significou e ressignificou-se, floresceu em outras escritas e vidas. Nós somos sementes, Carolina. Os versos e as palavras que você deixou continuam germinando em outras vozes e escritas pretas. Nós florescemos umas nas outras, alimentadas por uma raiz que atravessou oceanos. As suas palavras, sua escrita, o poder dos teus versos, ecoados por vozes de outras mulheres no meu tempo, seguem a juntar as folhas espalhadas pelo vento, pela escravidão. Então, sigamos, Bitita! Enquanto eles menosprezam as nossas vidas ao gritarem “e daí?”, nós, resistentes como sempre, florescemos e seguimos rompendo os burburinhos lá fora com a nossa escrita, com a nossa voz.


Com carinho,


Rosângela Lopes da Silva.


1 de maio de 2020

A grande insônia de Macondo

Renata Queiroz Dutra


Arte de Dragan Bibin

Estar em quarentena não apenas nos impõe restrições, mas também pequenos alentos: o meu foi reler Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez. Sempre costumo achar muitas repostas e analogias na narrativa fantástica de Márquez. Dessa vez, me chamou atenção que Macondo também foi acometida por uma epidemia altamente contagiosa, cujo principal sintoma era colocar os seus habitantes permanentemente despertos.

Diferente das insônias comuns, a insônia de Macondo não deixava esgotados seus habitantes; pelo contrário, ficavam cada vez mais dispostos e produtivos. Entretanto, não dormir os fazia, aos poucos, esquecer. Das palavras, dos sentidos. Então começaram a usar a astuta estratégia de etiquetar as coisas, para que não esquecessem seus nomes. Mas em pouco tempo já não bastava etiquetar os objetos com os nomes, porque logo em seguida se esqueciam de sua utilidade, daí as etiquetas precisavam crescer, para indicar o nome e a função de cada coisa. Por sorte, a insônia dava a eles o tempo necessário para produzir tais defesas contra a perda da memória.

No Brasil hoje padecemos de duas doenças igualmente contagiosas: a pandemia do Covid-19, que assola o mundo e aqui caminha aceleradamente em razão do nosso desgoverno, e uma outra epidemia, cujo nome desconheço, mas que também é marcada pelo esquecimento. Assim como em Macondo, esse esquecimento envolve objetos e suas funções. Por exemplo, temos a sorte de ter nas nossas constituições impressas um título estampado na capa, o que não nos assegura que lembremos para que serve uma constituição ou então que soe inadmissível que o presidente se considere a constituição.

Também temos tido dificuldades com palavras com sentidos e possibilidades de uso múltiplos, que demandam não apenas o esforço de lê-las, mas também de interpretá-las (às vezes por mais que 20 páginas): decoro, impeachment, crime de responsabilidade, impessoalidade, estado de direito, dignidade, democracia.
Outros esquecimentos podem alcançar comportamentos, formas de agir diante da dor, da morte, da tragédia, por exemplo. Formas de agir diante de um crime televisionado em rede nacional igualmente. As regras de conduta parecem mais difíceis de serem lembradas: diante do desconcerto da reação indevida por aquele que esqueceu, às vezes sobrevêm risos, mais inadequados ainda: tipo, um sujeito faz piada com a morte e o outro gargalha, constrangedoramente. É muito esquecimento de uma única vez.

O esquecimento alcança até atitudes supostamente inatas ou instintivas, de autopreservação, como evitar a morte, não se aglomerar em meio a uma pandemia quando se pertence ao grupo de risco e o vírus é transmissível pelo ar. O sujeito esquece que é mortal, esquece a advertência sanitária, esquece porque a advertência sanitária advinda de cientistas deve ser creditada, esquece a diferença entre a ciência e a opinião de um imbecil.

O esquecimento atinge significados profundos em uma dimensão coletiva: leva a esquecer a história e suas infinitas possibilidades de repetição. É tanto esquecimento, como sintoma e como norma, que até foi vetada integralmente a lei que reconhecia a profissão de historiador. Justo quando vivemos um momento histórico de grandes proporções, somos convidados, patologicamente, a esquecer.
Em Macondo a epidemia acabou quando o velho cigano Melquíades chegou ao povoado com uma poção que curou a todos da insônia. Na sutileza da narrativa de García Márquez, ao voltar a dormir (e a sonhar) os habitantes de Macondo também voltam a lembrar.

Se tivesse a sorte de ser uma Buendía e, assim, poder ver o velho Melquíades, pediria umas 30 milhões de doses dessa poção. E pediria – sem querer abusar, mas aproveitando a oportunidade – um elixir que trouxesse aos doentes daqui um pouco de vergonha por terem participado da gênese dessa epidemia, por ação ou omissão, ou por continuarem participando. Pediria também algum antídoto contra a ganância dos que persistem vendo queda dos lucros enquanto empilhamos corpos e que, fingindo esquecer das vidas dos outros, assumem o risco de perdê-las para que o comércio reabra. Pediria, sobretudo, uma pílula contra indiferença, que não permitisse nem ao pior dos brasileiros, diante da confirmação devastadora de 5.000 mortes, responder, em rede nacional: “e daí?”


*Renata Dutra é professora de Direito do Trabalho na UnB.

1 de abril de 2020

Literatura numa hora dessas?


 Bruna Kalil Othero[1]


Homem chorando no colo de Carlos Drummond de Andrade. Foto: divulgação.


Há algumas noites, sonhei que uma pessoa muito querida negava que meu trabalho – literatura e arte – tivesse alguma utilidade ou função no mundo. Desesperada, passei o sonho todo tentando convencê-la do valor inestimável da arte para a humanidade. Mais que uma forma do inconsciente me mostrar as minhas preocupações, o sonho me pareceu uma metáfora para o Brasil hoje, essa ficção distópica na qual falamos obviedades a quem se recusa a ouvir pela racionalidade. Em tempos de crise, as preocupações da sociedade recaem em assuntos mais “essenciais”, e essa curadoria, frequentemente, não inclui a arte e a cultura. É comum que nós, artistas – hoje quase criminalizados socialmente, acusados de viver na “mamata” como “vagabundos” – ouçamos: arte numa hora dessas? No entanto, a produção artística e cultural é um dos pilares imprescindíveis para a vida humana. Este ensaio, portanto, pretende explorar os argumentos que usei no meu sonho, de forma a expandi-los e desenvolvê-los.
Para estruturar esses argumentos, me inspiro em Italo Calvino, que apresentou suas quatorze razões para ler os clássicos, e trago treze motivos pelos quais a literatura, a arte e a cultura são vitais para a humanidade existir e continuar respirando. Nesse contexto, a palavra que utilizarei para me referir ao assunto será “literatura”, como representante de toda e qualquer produção ficcional de um povo, aproveitando sua definição dada por Antonio Candido, no célebre ensaio “O direito à literatura”, que será constantemente citado:
Chamarei de literatura, da maneira mais ampla possível, todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura, desde o que chamamos de folclore, lenda, chiste, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações.

            “Vista deste modo”, continua Candido, “a literatura aparece claramente como manifestação universal de todos os homens em todos os tempos. Não há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fabulação.” A partir dessa consideração belíssima de um dos nossos mais poderosos ensaístas, passo a trazer alguns motivos pelos quais a ficção e a cultura são pilares essenciais para a construção do mundo e da sociedade.

  1. Em tempos de crise, a ficção nos salva da vida.

Livraria móvel com soldados leitores. Foto: divulgação.


Quando, como sociedade, não estivemos em crise? Quando não houve injustiças, violência, barbárie? A arte é luxo em tempos de crise, como andam dizendo? Pelo contrário – é ela quem nos salva do desespero absoluto. O Grande Gatsby (1925), de Fitzgerald, por exemplo, se tornou best-seller, entre outras razões, por ser intensamente lido por soldados nas frentes da Segunda Guerra Mundial – naquelas páginas, eles encontravam um oásis ficcional, um respiro em meio a tanto horror. Pessoalmente, só sobrevivi a 2018 porque me lembrava, constantemente: este é o país de João Gilberto, Conceição Evaristo, Fernanda Montenegro. Em meio a tanto ódio e aflição, ler obras-primas é o que nos mantém firmes na vida, restaurando, nos instantes de leitura, nossa esperança na humanidade – ou nos lembrando que a beleza existe, apesar de tudo.

  1. A literatura é um exercício de empatia.

A ficção é, entre várias coisas, a expansão dos horizontes de visão. Entrar em contato com as aventuras de um personagem é uma maneira de, no momento da leitura, o eu se colocar no lugar do outro. Ler um livro ou ver um filme é prazeroso pois nos descolamos de nós mesmos por alguns instantes e temos a possibilidade de ver o mundo pelos olhos de pessoas diferentes. É uma maneira de nos fazer reconhecer nossos privilégios e nos ajudar a compreender, afetiva e emocionalmente, as dores e as sensações dos outros. É o que acontece, por exemplo, na leitura de Carolina Maria de Jesus no potente Quarto de despejo (1960). Mesmo que o leitor, como indivíduo, não tenha passado fome e não faça ideia dessa sensação desesperadora no seu corpo, o texto apresenta, nos instantes da leitura atenta, esses sentimentos e essas reflexões. Assim, quando se fecha o livro, se abre uma nova perspectiva de ver o mundo e as pessoas ao redor: dificilmente, saímos ilesos de narrativas tão impactantes. Isso influencia a nossa maneira de se relacionar, de observar as diversas situações e de nos posicionar politicamente.
O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo, e nas crianças.

Ler um trecho como esse nos faz contestar absolutamente tudo: a importância vital da comida para o corpo humano (coisa que quem tem acesso irrestrito à alimentação quase não pensa, já que está sempre disponível), a ausência de comida como educação social, a própria definição de política como algo relacionado à empatia, as crianças como representação máxima da alteridade e da vulnerabilidade, etc. A literatura, portanto, é uma mudança radical de perspectiva: uma maneira de sair do nosso próprio corpo pelo exercício constante da empatia.

  1. Compreender um texto literário é compreender a linguagem.

A linguagem está relacionada à comunicação. Quando nos tornamos leitores – de livros, de músicas, de produções audiovisuais, de ditados populares –, aprendemos a apurar a nossa capacidade de nos comunicar com o outro. Isso é uma habilidade importantíssima para a vida em sociedade, seja para arrumar um emprego, para convencer alguém da nossa opinião ou para nos declararmos ao ser amado. Tudo na vida humana passa pela linguagem – e dominá-la é tomar as rédeas das nossas relações e da nossa posição no mundo.

  1. Quando compreendemos a linguagem, compreendemos o discurso.

Compreender a linguagem é um passo importante para compreender os discursos – das pessoas e das instituições. Assim, aprendemos que o hábito de reclamação de alguém, por exemplo, faz parte, de forma consciente ou inconsciente, do discurso social daquela pessoa, sendo um componente da sua personalidade e da sua existência no mundo. Porém, mais do que em nível individual, essa habilidade é essencial para entender e criticar as instituições: a família, a mídia, a escola. Dominar a linguagem é conseguir se desprender da visão limitada dos discursos prontos, e compreender o que, realmente, significam os símbolos familiares, midiáticos ou educacionais.
Quando entendemos isso, conseguimos encarar, a certa distância, os discursos mais tradicionais, a exemplo: 1) para uma mulher ser feliz, é preciso casamento e filhos (discurso familiar patriarcal); 2) para ser feliz, é preciso ser magro/a e ter o celular mais avançado (discurso da indústria cultural); 3) para ser validado intelectualmente, é preciso acertar um número determinado de questões em uma prova, valorizando mais a quantidade que a qualidade do conhecimento (discurso da escola e do vestibular). Tudo isso são discursos passados socialmente, e validados simplesmente pela sua repetição ao longo do tempo. Compreender isso é também compreender que eles não são verdades absolutas, e ter a consciência de escolha: posso seguir esse discurso, mas só se eu quiser, não preciso, necessariamente, tomá-lo como definitivo.

  1. Quando compreendemos o discurso, compreendemos a política.

Com o entendimento do poder dos discursos, o discurso mais importante a ser compreendido é o discurso político. Entendemos, a princípio, a sua estrutura: uma pessoa em um palanque, com sua voz amplificada pelo microfone, proferindo crenças e valores – argumentos – com o objetivo de convencer o povo que a sua visão é a certa. Analisamos, também, as estratégias argumentativas utilizadas pelos candidatos: seja o que se veste de “profissões comuns” para se aproximar do povo; seja o que cria bordões de modo a se fixar melhor na cabeça dos eleitores. Todas essas táticas fazem parte do grande discurso político, no qual a busca pelo poder é o motor basal – e é dela que vêm as corrupções e manipulações. Compreender o discurso político é, logo, uma maneira de nos tornarmos cidadãos mais críticos e conscientes – e o auge dessa compreensão é, além da capacidade de criticar os políticos da oposição, conseguir fazer a autocrítica entre os representantes da sua própria vertente ideológica. Isto é, se distanciar o suficiente para entender que mesmo o candidato que gostamos também faz uso de estratégias argumentativas para convencer a massa. Contudo, o entendimento discursivo da política e dos políticos não é incentivado num país como o Brasil, no qual, segundo Darcy Ribeiro, a crise na educação não é uma crise, mas um projeto. Claro: é mais fácil dominar e controlar ignorantes homogêneos, e não uma população pensante.

  1. O poder de registro da literatura é o que nos salva da morte pela história.

Uma produção escrita ou gravada não é só uma obra a ser contemplada através dos milênios – os humanos morrem, seus textos permanecem –, mas também um poderoso registro do passado. Entrar em contato com produções feitas na ditadura militar, como o quadro O Herói (1966), de Anna Maria Maiolino, nos ajuda a compreender, em nível subjetivo, estético e emocional, as reivindicações e sentimentos daquele momento – informação que falta aos livros de história, por exemplo.

O Herói (1966), de Anna Maria Maiolino. Foto: MASP.


Olhar o passado através da literatura é uma maneira importantíssima de entender o que veio antes de nós de forma a evitar erros já feitos e sedimentar melhor as estradas do futuro. Seguindo esse mesmo pensamento, a literatura também nos possibilita rever o passado mais criticamente, buscando entender, por exemplo, absurdos e violências naturalizados em determinado momento histórico, mas que hoje devem ser repensados. É o que faz MC Carol na canção “Não foi Cabral”:
Professora me desculpe
Mas agora vou falar
Esse ano na escola
As coisas vão mudar
Nada contra ti
Não me leve a mal
Quem descobriu o Brasil
Não foi Cabral

Esse texto poderoso já se inicia com uma mudança de epistemologia de pensamento: negando a visão tradicional repassada pelas instituições de ensino, o eu-lírico rejeita o mito do “descobrimento” do Brasil de modo a revê-lo criticamente.
Pedro Álvares Cabral
Chegou 22 de abril
Depois colonizou
Chamando de Pau-Brasil
Ninguém trouxe família
Muito menos filho
Porque já sabia
Que ia matar vários índios
Treze Caravelas
Trouxe muita morte
Um milhão de índio
Morreu de tuberculose

A revisão histórica e estética feita aqui, portanto, pretende compreender a formação do Brasil colonial como um processo violento e eurocêntrico, voltado ao extermínio físico e cultural dos povos nativos. A metáfora utilizada pela autora traz a caravela – símbolo das grandes navegações – como o meio pelo qual as doenças europeias chegaram e devastaram os indígenas brasileiros.
Falando de sofrimento
Dos tupis e guaranis
Lembrei do guerreiro
Quilombo Zumbi
Zumbi dos Palmares
Vítima de uma emboscada
Se não fosse a Dandara
Eu levava chicotada

Por fim, o eu-lírico termina o texto com uma compreensão lúcida e simultânea do ontem e do agora: ao relembrar a resistência dos povos quilombolas, liderados por Dandara e Zumbi, conclui que “se não fosse a Dandara / eu levava chicotada”. Esses dois versos, aparentemente simples, trazem consigo um entendimento muito profundo da história racista do Brasil, pautada em séculos de pensamento escravocrata, demonstrando que a situação presente é resultado direto das injustiças e das lutas do passado.

  1. A literatura nos humaniza.

Segundo Candido, há
conflito entre a ideia convencional de uma literatura que eleva e edifica (segundo os padrões oficiais) e a sua poderosa força indiscriminada de iniciação na vida, com uma variada complexidade nem sempre desejada pelos educadores. Ela não corrompe nem edifica, portanto; mas trazendo livremente em si o que chamamos o bem e o que chamamos o mal, humaniza em sentido profundo, porque faz viver.

Assim, a partir da apresentação do bem e do mal, a literatura nos coloca frente às feridas e complexidades humanas, alargando a nossa compreensão da experiência de estar vivo e viver em sociedade. Ler os romances de Machado de Assis, por exemplo, nos ensina que o “bem” e o “mal” existem em cada um de nós, e que essa contradição essencial faz parte da condição humana, é um dos motores que movem a nossa existência. Machado nos lembra que, mais que as certezas, devemos nos atentar às dúvidas – afinal, a única certeza absoluta é a morte, e é preciso conviver com ela. A literatura nos humaniza, portanto, expandindo o nosso entendimento do que é ser humano, por meio da convivência com personagens – parecidos ou diferentes de nós.

  1. A representação ficcional é importante para a construção da nossa própria identidade.

Representatividade é o fenômeno de ver-se representado em algum personagem e, através dessa representação fabulada, constituir e entender melhor a nossa identidade pessoal. Isso acontece tanto em escala universal como em nível particular: por meio da literatura, universalmente, primeiro nos entendemos como seres humanos, depois como o nosso gênero, nossa etnia, nossa nacionalidade. Já de modo particular, vamos nos constituindo como indivíduos a partir das imagens que recebemos nas diversas narrativas do cotidiano. Se me for permitido, dou como exemplo uma anedota pessoal. Quando criança, fiquei alucinada pelo filme Branca de Neve e os sete anões (1937), assistindo-o repetidamente. Hoje entendo que essa fascinação veio, entre outros fatores, da minha semelhança física com a personagem: uma menina branca de cabelos pretos curtos e maçãs do rosto vermelhas. Ver Branca de Neve me ajudou, na infância, a constituir minha autoimagem – e, com isso, vieram coisas boas (autopercepção e identificação) mas também coisas ruins. Afinal, o filme de 1937 propaga valores patriarcais – é necessário sempre aguardar o príncipe – e isso foi, por muito tempo, uma crença que levei para a minha vida e meus relacionamentos, tornando-me uma moça que acreditava ser obrigatório esperar a iniciativa dos homens em vez de correr atrás dos próprios desejos. Claro, isso não aconteceu de forma consciente, além de contar com inúmeros fatores externos, como os constantes discursos machistas propagados pelas instituições sociais. Mas esse pensamento só mudou, também, devido à literatura: passei a refletir melhor sobre o assunto após ter contato com outros textos, filmes, músicas, que me mostraram outras narrativas e possibilidades de existir no mundo como mulher.


Uma pequena Bruna no seu aniversário de 2 anos. Foto: acervo pessoal.


  1. A literatura é um exercício constante de sensibilidade e de escuta.

Carlos Drummond de Andrade começa o conto “Flor, telefone, moça” (em Contos de Aprendiz) assim: Não, não é conto. Sou apenas um sujeito que escuta algumas vezes, que outras não escuta, e vai passando.
Essa é uma das definições mais precisas (e despretensiosas) do exercício ficcional. Ouvir o outro, estar sensível às dores e delícias do outro, e convocá-lo, também, à escuta. Hilda Hilst explica, no primeiro texto da série “Dez chamamentos ao amigo”:
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo.
Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

            Este poema, um dos mais belos escritos em língua portuguesa, fala do jogo amoroso entre amantes, lembrando no seu título as cantigas de amigo medievais[2], mas outra interpretação possível é que seja um poema sobre a própria literatura. Há, na série, um chamamento constante a esse amigo, que pode se referir, além da pessoa amada, a nós, os leitores. Por ser o primeiro que abre a obra Júbilo, memória, noviciado da paixão (1974), é um texto que também diz sobre o próprio livro. Nessa leitura, o eu-lírico/a poeta insiste para que a olhemos com dedicação, embora ela pareça noturna e imperfeita, embora tenhamos diferenças essenciais: terra versus água, eu versus outro, pastor versus nauta. Olhei-me a mim como se tu me olhasses, eis aí outra definição precisa da ficção: sair de si, experimentar o olhar do outro para ver o mundo – e a si mesmo. Propondo a troca de perspectiva entre o eu e o outro, este poema propõe também um olhar atento ao próprio livro, à própria poesia; não à toa, circular, termina repetindo o clamor inicial com mais intensidade: Olha-me de novo. Com menos altivez. / E mais atento. Não compreendeu este poema, este livro, na primeira leitura? Sem problemas. Leia de novo. Com menos altivez – saindo de si, deixando o eu um pouco de lado – e mais atenção. Hilda Hilst nos lembra que ler poesia é reler: e ouvir.

  1. Precisamos dos poetas para dar coerência aos sonhos OU a literatura é o oposto de solidão.

Essa primeira frase é dita por um personagem de Pirandello na peça Os Gigantes da Montanha, que assisti em montagem do Grupo Galpão e Gabriel Villela, em 2013. Desde então, guardei-a fundo no peito: precisamos dos poetas para dar coerência aos sonhos. A literatura, essa sala imensamente povoada, nos dá uma maior compreensão sobre nós mesmos, nossos desejos, nossos sonhos. Se não consigo organizar em linguagem o que sinto, algum artista já fez isso antes. A arte nos dá uma noção de pertencimento, um alívio de fazer parte da raça humana, da nação brasileira, de determinado gênero ou etnia, etc. Ler é fugir da solidão. Manuel Bandeira, no “Poemeto Erótico”, nos ajuda a fazer declarações a quem amamos pois descreve, pela organização concisa do sentimento no ritmo da redondilha maior (sete sílabas poéticas), o desejo por uma única pessoa:
Teu corpo claro e perfeito,
– Teu corpo de maravilha,
Quero possuí-lo no leito
Estreito da redondilha…
[...]
A todo o momento o vejo...
Teu corpo... a única ilha
No oceano do meu desejo...

Da mesma forma, a música “Largado às Traças”, composição de Pancadinha, André Vox e Victor Hugo, cantada por Zé Neto e Cristiano, expressa a saudade que sentimos da pessoa amada por meio de versos alexandrinos (com doze sílabas poéticas):
Afogando a saudade num querosene
Vou beijando esse copo, abraçando as garrafas
Solidão é companheira nesse risca faca
[...]
A falta de você bebida não ameniza
Tô tentando apagar fogo com gasolina

Quem nos explica porque isso é importante é, de novo, Antonio Candido, quando comenta alguns versos de Tomás Antônio Gonzaga:
[...] na experiência de cada um de nós esses sentimentos e evocações são geralmente vagos, informulados, e não têm consistência que os torne exemplares. Exprimindo-os no enquadramento de um estilo literário, usando rigorosamente os versos de dez sílabas [no caso de Gonzaga], explorando certas sonoridades, combinando as palavras com perícia, o poeta transforma o informal ou o inexpresso em estrutura organizada, que se põe acima do tempo e serve para cada um representar mentalmente as situações amorosas deste tipo. [...] [Os recursos rítmicos e sonoros] criaram uma ordem definida que serve de padrão para todos e, deste modo, a todos humaniza, isto é, permite que os sentimentos passem do estado de mera emoção para o da forma construída, que assegura a generalidade e permanência.

Ou seja, quando o eu-lírico de Bandeira afirma querer possuir o ser amado no leito / estreito da redondilha, faz uma autoreferência à estrutura rítmica do poema (redondilha maior), abrangendo, ao mesmo tempo, o corpo do texto (de forma metalinguística) e o corpo sexual (como declaração amorosa). Ele resume o sentimento universal do tesão criando a imagem do desejo como um oceano, e do corpo amado como a única ilha presente nesse vasto espaço. De maneira similar, os versos de “Largado às Traças” trazem, organizados em alexandrinos, a metáfora do álcool, primeiro como entorpecente para esquecer as desventuras, depois como o querosene e a gasolina que inflamam, num típico paradoxo amoroso (tô tentando apagar fogo com gasolina), a ardência da saudade e do desejo. Nesse texto, a solidão é companheira – e na literatura, também. O artista organiza em linguagem os nossos sentimentos, nossas emoções. E, por causa disso, nos sentimos menos sozinhos.

  1. Enquanto vive um poeta, o homem está vivo.

Ezra Pound, em ABC da literatura, afirma que o poeta é a antena da raça, numa referência aos órgãos sensitivos dos insetos, responsáveis pelo seu sistema sensorial. A metáfora dá a entender que os poetas são capazes de sentir por toda a raça humana e expressar esse sentimento através da linguagem. Hilda Hilst, em um poema da série “Poemas aos homens do nosso tempo”, também em Júbilo, memória, noviciado da paixão, resume a importância do artista para que a humanidade exista:
Tudo vive em mim. Tudo se entranha
Na minha tumultuada vida. E porisso
Não te enganas, homem, meu irmão,
Quando dizes na noite que só a mim me vejo.
Vendo-me a mim, a ti. E a esses que passam
Nas manhãs, carregados de medo, de pobreza,
O olhar aguado, todos eles em mim,
Porque o poeta é irmão do escondido das gentes
Descobre além da aparência, é antes de tudo
Livre, e porisso conhece. Quando o poeta fala
Fala do seu quarto, não fala do palanque,
Não está no comício, não deseja riqueza
Não barganha, sabe que o ouro é sangue
Tem os olhos no espírito do homem
No possível infinito. Sabe de cada um
A própria fome. E porque é assim, eu te peço:
Escuta-me. Olha-me. Enquanto vive um poeta
O homem está vivo.

O eu-lírico desse poema, identificado como poeta, diz que tudo vive em mim, ou seja, seu eu não é individual, mas coletivo: Vendo-me a mim, a ti. E a esses que passam / Nas manhãs, carregados de medo, de pobreza, / O olhar aguado, todos eles em mim. Assim como a antena da raça de Pound, o poeta de Hilst não é só um sujeito, mas carrega na sua subjetividade as sensações universais de cada ser humano, sabendo de cada um / A própria fome. Justamente porque o poeta é irmão do escondido das gentes, está sempre ao lado do oprimido e nunca do opressor, é antes de tudo / Livre, e porisso conhece. A liberdade, oposto essencial da censura, é condição essencial para a criação literária: é preciso ser livre para conhecer a experiência humana por completo. E a fala do poeta não é generalista no palanque, como a dos políticos, mas íntima e intensa – ele fala do seu quarto, com os olhos no espírito do homem. E o que o poeta pede em troca de tudo isso? Hilst repete aqui seu famoso chamamento: Escuta-me. Olha-me. É só isso o que a literatura deseja: uma escuta profunda, feita com atenção e afeto. Pois enquanto respirar um poeta, um artista, a humanidade continuará vivendo, pulsando no seu peito, no seu texto, resistindo ao esquecimento da história.

  1. A literatura é uma forma de amor.

            Em 1998, quando foi perguntada pelos Cadernos de Literatura Brasileira se a literatura melhora as pessoas, Lygia Fagundes Telles respondeu:
Pode melhorar, sim. Pode desviar do vício, da loucura. Pode estancar a loucura através do sonho. Eu tenho um impulso, que talvez seja um impulso cristão, pelo próximo. Eu tenho vontade de servir ao próximo, verdadeiramente. E a literatura me proporciona isso. E o que eu faço, acredito, com o máximo da competência que me é possível e com amor, com paixão, acaba chegando, de algum modo, no outro. Nunca vou me esquecer de um jovem que ligou pra mim, isso na década de 70, dizendo que estava lendo meus livros e, por causa deles, não queria mais se matar. Eu comecei a chorar no telefone, perguntei o que ele tinha lido para pensar assim, em que texto ele sentiu que não queria mais morrer, e tal, eu estava muito nervosa, e o rapaz, muito emocionado também, respondeu que não sabia, só sabia que não queria mais se matar. Eu perguntei: "O que é que eu posso fazer por você?" Ele respondeu: "A sra. já fez". E desligou o telefone. Nunca mais ligou, mas eu tenho certeza que ele está por aí, em algum lugar. Esse episódio me comove até hoje. Eu fico relendo às vezes meus textos, procurando, procurando, qual a palavra, meu Deus, qual a palavra que foi capaz daquilo? Nunca vou saber. Mas essa certeza de que posso servir ao próximo, essa esperança, não vai desaparecer enquanto eu for viva. É uma forma de amor. Acho que é isso. No fundo, a literatura é uma forma de amor.

            Não é preciso dizer mais.

  1. Pra que serve a literatura? Não serve pra nada.

            Por fim, o último motivo é: para nada. Sem literatura vamos morrer, como morremos sem oxigênio, sem comida? Não. Mas sem ela morremos de outras formas. Leminski resume:
A poesia é o inutensílio. A única razão de ser da poesia é que ela faz parte daquelas coisas inúteis da vida que não precisam de justificativa. Porque elas são a própria razão de ser da vida. Querer que a poesia tenha um porquê, querer que a poesia esteja a serviço de alguma coisa é a mesma coisa que querer que o orgasmo tenha um porquê, que a amizade e o afeto tenham um porquê. A poesia faz parte daquelas coisas que não precisam de um porquê.

            A literatura é tão poderosa justamente porque a sua essencialidade não é utilitarista. Ela não serve a nenhum fim específico, e por isso serve a todos os fins. Ela não pactua com nada, não se alia a nada, e também não precisa de nada. Um texto que está no coração de um leitor, no corpo de um performer, na parede de algum grafiteiro, não precisa do livro para existir. Para que serve a literatura? Ela não serve a nada, a ninguém. É o oposto absoluto de servidão.

Para encerrar, retomo Italo Calvino, evocado no início desse ensaio. Assim ele termina a introdução de Por que ler os clássicos:
A única razão que se pode apresentar é que ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos. E se alguém objetar que não vale a pena tanto esforço, citarei Cioran [...]: "Enquanto era preparada a cicuta, Sócrates estava aprendendo uma ária com a flauta. 'Para que lhe servirá?', perguntaram-lhe. 'Para aprender esta ária antes de morrer' " .

            Falando com Calvino e expandindo para além dos clássicos, ler é melhor do que não ler. Ouvir uma música é melhor que não ouvir. Assistir a um filme, uma novela, uma série, é melhor do que não assistir. Para quê? Para ler, ouvir e assistir esses textos – ter esse prazer – antes de morrer. Simples assim.
A literatura, a arte, a cultura, são o motor da existência humana. Sem elas, não existimos. Se expulsarem os poetas da república, como queria Platão, não haverá mais república, país, nação. Não haverá nada. Sem a arte e a literatura não somos seres humanos: somos uma massa orgânica que nasce e morre. Não há “hora”, portanto, para a literatura. A sua hora é ontem, hoje, agora: sempre.





[1] Escritora, pesquisadora e mestranda na UFMG.
[2] Textos poéticos comuns na Idade Média nos quais um eu-lírico feminino declara o seu amor e sua fidelidade ao homem amado.