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24 de março de 2026

Entrevista com Regina Dalcastagnè sobre "Uma história da literatura brasileira contemporânea"

A professora Regina Dalcastagnè lança no dia 25/3 seu mais novo livro. "Uma história da literatura brasileira contemporânea" (Todavia) faz um panorama da ficção brasileira mais recente usando uma divisão temática que permite cruzamentos fascinantes entre autores de diferentes períodos. 

Em entrevista exclusiva feita por Bruno Bucis ao Blog do GELBC, Dalcastagnè comenta o seu processo de pesquisa para a obra e curiosidades que ela encontrou em seu percusso investigativo. "Essa ambição de formar um grande panorama gera uma perspectiva diferente [para o livro]", afirma ela. Leia a entrevista completa abaixo.

O lançamento com sessão de autógrafos ocorre no dia 25/3 (quarta) no restaurante Dona Lenha a partir das 18h. No dia 27/3 (sexta), 14h, no Auditório da Faculdade de Direito da UnB haverá um debate aberto ao público para discutir a obra.

Até o momento da publicação desta entrevista, além do lançamento em Brasília, já estavam agendados eventos em Porto Alegre, no dia 30/3 (segunda), na PUCRS, e no dia 31/3 (terça), na UFRGS. As sessões de autógrafos e debates ocorrem também em Florianópolis, na UFSC, no dia 6/4 (segunda); e em Salvador, na Uneb, no dia 15/4 (quarta) e na UFBA (quinta) no dia 16/4.

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1) A senhora é autora de vários livros sobre a literatura brasileira contemporânea, mas já afirmou anteriormente que talvez este seja um de seus projetos mais ambiciosos. O que o torna tão especial? É uma questão de fôlego pelo volume da obra, da ampla série de temas que ela toca ou um pouco de tudo isso?
O livro organiza, em um grande mosaico, o que antes era tratado de forma mais fragmentária. Com isso, foi possível identificar pontes entre temáticas e diálogos entre obras e autores, que antes não eram perceptíveis. A necessidade de cobrir da forma mais abrangente possível a narrativa brasileira das últimas décadas também me levou a trabalhar com produções que antes não tinham sido objeto de estudos meus. Enfim, embora haja obviamente uma continuidade com meus trabalhos anteriores, o fato de ter essa ambição de formar um grande panorama gera uma perspectiva diferente.

2) Depois de tantos anos pesquisando a literatura brasileira contemporânea e escrevendo sobre ela, quem admira seu trabalho acredita que a senhora já sabe tudo o que há para saber da produção literária recente do nosso país. Há algo, porém, que descobriu durante o processo de composição deste livro que talvez tivesse escapado de suas vistas anteriormente? Que novas leituras essa obra te permitiu que até então não haviam sido tema de sua investigação?
Na verdade, eu encontrei muitas obras que tinham ficado fora do meu radar – na preparação tanto do livro quanto do projeto que coordenei em paralelo, o Praça Clóvis, um portal de literatura brasileira contemporânea. E, fazendo a leitura do conjunto, foi possível identificar com clareza as transformações na narrativa. Claro que é um corpus plural, diversificado, mas há tendências que avançam ou refluem de acordo com o tema. Elas se manifestam quanto a temáticas e também quanto ao tratamento dos temas,
refletindo e refratando mudanças na sociedade brasileira. Por exemplo, o tratamento das relações familiares e das relações de trabalho. Há tendências que são perceptíveis também na forma, como a menor intensidade do experimentalismo e mesmo a presença muito forte de um certo tom didático na produção mais recente.

3) A senhora trabalha há alguns anos com a urbanização brasileira, intensificada a partir de 1970, como marco da literatura brasileira contemporânea, mas chega a se dedicar também a algumas obras anteriores a isso. Nesse intervalo de 56 anos, claro, o mundo mudou bastante. A senhora pensou em rever este marco temporal enquanto produzia seu novo livro? O que esses livros que estão completando meio século ainda têm a revelar a nós sobre nosso presente?
Escolhi 1970 como marco geral por ser o momento em que a literatura começa a refletir mais um país que se urbanizou e também a lidar com o trauma do golpe e da ditadura empresarial-militar. Mas é isso, um marco geral, com certo grau de fluidez. Seria mais fácil adotar um corte arbitrário, escolher um ano e simplesmente dizer que tudo que ficava para trás seria deixado de lado, mas com isso eu perderia a chance de investigar um pouco a dinâmica da construção do contemporâneo na nossa literatura (e sua
vinculação com as mudanças na sociedade brasileira). Por isso, inclui obras anteriores, mas que são pontos de partida para filões da literatura que vêm depois, como os Contos do imigrante, de Samuel Rawet, publicados também em 1956, que inauguram a temática urbana e se valem de uma linguagem mais direta, sem rebuscamentos, que está presente em boa parte da produção das décadas seguintes; o Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, de 1960, marco da reivindicação pela voz popular na produção literária, que continua ecoando até hoje; ou Malagueta, Perus e Bacanaço, de João
Antonio, de 1963, que modernizou a representação dos marginalizados urbanos. São, tanto quanto as obras escritas nas décadas de 1970 e 1980, obras que falam de questões que continuam vivas no Brasil de hoje: a exploração, a desigualdade, o racismo, a violência. Que relatam dramas humanos que  ontinuam falando à nossa sensibilidade. E que ajudam a entender o percurso que nos trouxe aqui, ao Brasil de hoje.