1 de março de 2021

PARA SEMPRE, CAIO F.

 

Nelson Barbosa



Passados 25 anos da morte do escritor Caio Fernando Abreu (1948-1996), de uma forma não tão usual entre a maioria dos escritores brasileiros, que infelizmente acabam caindo num incompreensível esquecimento, a obra e a persona de Caio F. ainda surpreendem por sua vivacidade e possibilitam um lugar de reflexão e encantamento não só no público jovem que o descobre, como também nos seus leitores de tempos em que suas obras iam sendo compostas e publicadas.

Não é aleatória essa relação entre a obra e a persona do seu autor, tampouco essa percepção está ligada a uma necessidade “antiga” de se associar autor e obra pelo vínculo do biografismo, que durante muito tempo pautou esses estudos literários envolvendo o autor e sua obra como determinantes um do outro, como se os dados factuais fossem então os causadores dessa obra produzida.

Decididamente, não é esse o caso de Caio e sua permanência na nossa literatura. Não é o caso, porque a obra de Caio, por mais que a crítica tradicional tenha tentado lê-la por esse prisma, procurando inclusive determiná-la como “literatura gay” porque o autor se declarara gay, rompeu o paradigma da representação literária tradicional para dar lugar à experiência como matéria literária. Não aleatoriamente, também, essa conjuntura da experiência veio abrir caminhos para que a literatura deixasse de ser uma escrita, digamos, de “gabinete” ou de assunto de classes dominantes, para se tornar efetivamente a expressão de liberdades e vivências antes sufocadas e desacreditadas até mesmo como passíveis de ficcionalização ou de pertencerem ao universo da literatura tout court: as escritas femininas/feministas, as escritas de segmentos segregados e de guetos, negros, gays, marginalizados em geral... Enfim, a grande abertura da literatura para existências que antes apenas apareciam, se quando, nos bastidores das obras literárias, jamais assumindo seu protagonismo como literatura.

E no caso específico de Caio F., reconhecemos em suas criações o caráter autoficcional, procedimento que coloca autor e leitor no cerne dessas construções literárias tanto “reais” quanto “ficcionais”, ora embreando ou desembreando dados documentais, ora embreando e desembreando criações ficcionais, alternando-os e amalgamando-os, produzindo um aproximar-se cada vez mais potente do leitor e da obra, e não gratuitamente, também do autor. É, portanto, nesse entrecruzamento de experiências, reais e ficcionais, que a obra de Caio se constrói e se apresenta como uma grande novidade no cenário das nossas letras, “novidade” que vai se perpetuando justamente por essa característica que a torna sempre à mão, como se diz, sobretudo nos tempos atuais de domínio das redes sociais e da internet. Claro que, por vezes, sofrendo o risco do esgotamento ou esvaziamento do excesso que se atribui a tudo que possa minimamente lembrar uma escrita de Caio, exatamente como acontece com sua madrinha literária, sua grande inspiração, Clarice Lispector.

Hoje esse assunto ou esse tema da autoficção nos estudos literários já corre facilmente por inúmeros estudos críticos, mas não era ainda o que se produzia em termos de crítica na época de Caio, o que certamente foi objeto de equívocos de leitura dessa obra que já se construía sobre novas bases de criação literária. É curioso pensar que a obra de Caio não surgiu, assim, intencionalmente dessas discussões em voga na França justamente nos anos 1970, quando Caio já tinha produzido um romance (Limite branco, 1970) e alguns contos nessa “pegada” autoficcional. Ou seja, avesso aos academicismos literários, o que lhe permitia até mesmo eleger Caetano Veloso e a Gilberto Gil como seus guias na escrita literária, Caio não acompanhava essas discussões que, ao fim e ao cabo, acabaram servindo como privilegiado rumo para depois se estudar a sua produção.

E nessa característica ímpar de sua obra reside, acreditamos, um dos primeiros elementos identificadores da empatia com gerações posteriores e, sobretudo, entre os jovens que hoje o encontram e se enredam com sua escrita, e se emocionam ou o escolhem como leitura privilegiada dentro de nossa literatura.

Nesse caso, borrando todo limite e fronteiras entre a escrita ficcional e sua persona, entram também nessa escolha de leituras suas cartas abundantemente publicadas, compondo com autor e obra esse amalgama de literatura e vida real e concreta que parece encantar os novos leitores. Na intersecção entre a ficção dos contos e a realidade das cartas, o gênero híbrido ao qual Caio passou a se dedicar com mais frequência nos últimos anos de vida, a crônica, cumpre um papel primordial realizando nelas, ainda mais sem amarras de gênero ou fronteiras, sua leitura mais completa do mundo que ainda nos chega como uma manhã a cada leitura.

Sempre angustiado com a vida concreta a ter que ganhar, como jornalista freelancer, revisor/preparador de livros e autor de resenhas (as “costuras para entregar”, como gostava de dizer retomando o universo do trabalhador “braçal”), em meio a despejos de apartamentos e dificuldades financeiras imensas, Caio se via por vezes descolado de sua realidade mais funda produzindo literatura em meio a esse caos pessoal, político e social de seu tempo (que curiosamente parece agora novamente ganhar força não por acaso por um projeto político de miséria e morte). Levava essas questões muito íntimas, desgastantes, ao psicanalista que o acompanhava, revelando-se cansado e insatisfeito com o que escrevia, sempre na busca de uma literatura que, esperava, pudesse ser cada vez mais concreta e tangível por sua experiência, que tocasse, pretendia, no que seria exatamente o sentimento das pessoas. Seu psicanalista, certa vez, ao ouvir essas questões para ele tão doloridas, procurou tranquilizá-lo quanto a isso dizendo que, na verdade, num tempo futuro, quando alguém quisesse de fato saber ou sentir o que acontecia em sua época, logo, em sua obra, não seria nos jornais que iria encontrar essa resposta mais claramente colocada, mas especificamente em sua obra literária em construção, em seus textos colhidos na convivência das redações, dos vários “bicos” de trabalho, dos bares noturnos, da rua, na sua incessante busca de amor, de prazer, em meio ao trânsito caótico, nos bares escuros, nas boates e nos amores rápidos que vivia, no centro nervoso das cidades de Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro por onde circulava em pleno coração de uma sempre improvável América do Sul. Foi por isso mesmo que seu psicanalista o definiu como “o biógrafo da emoção”, aquele que com sua escrita capturava as emoções das experiências então vividas. Vemos aqui que a “profecia” parece mesmo ter se consumado.

E, de fato, essa característica de sua obra percebida por seu psicanalista parece definidora na sobrevivência de sua escrita para muito além de sua época e vida. São esses mesmos ambientes, esses mesmos espaços, concretos ou psicológicos, escuros ou iluminados, dolorosos ou de uma alegria incontida, então inusitadamente frequentados na sua literatura, que hoje se revelam próprios a seus leitores mais jovens: o ambiente da busca, da escolha, da desesperança, da descoberta, ou mesmo da espera de um encontro determinante, revelador, na espera de uma “pequena epifania” que revelasse no positivo aquele sentimento que se construía no negativo de sua alma, num jogo de troca de sinais entre o positivo e o negativo como dele já falou José Castelo em Inventário das sombras.

Embora marcada por esses mergulhos em sua realidade, Caio jamais cedeu às armadilhas de tornar sua obra um grande panfleto, como, já dissemos, muitas vezes a crítica o viu. Não haveria por que se ocupar de um panfleto quando a criação literária e linguística o tomava por inteiro na escrita e audição de sua própria produção ficcional. Nem mesmo quando sua vida teve a “verossimilhança” atravessada pelo real ao se descobrir contaminado pelo HIV que já matara quase todos os seus amigos, Caio abriu mão de tratar também dessa sua experiência eminentemente nas linhas da literatura, construindo nela o caminho que se lhe abria em direção à morte. Nesse momento, como grande escritor que foi, até mesmo sua morte veio a ser “vivida” em sua obra, longe de se tornar um panfleto que o vitimasse por uma sentença tão extrema.

Há, equivocadamente, até mesmo entre alguns de seus contemporâneos, quem, embalado pela leitura redutora de sua produção, declare que Caio não teria tido o tempo necessário para seu amadurecimento como escritor, a ponto de vir a “superar” sua questão primordial da sexualidade sempre vista como determinante em sua obra. Isso é um tremendo equívoco de leitura, como se a pauta fosse sempre a “evolução” para uma sexualidade padrão determinada pela sexualidade heterossexual que assim o avalia. Esse equívoco nos levaria prontamente a perguntar se esses contemporâneos que sobreviveram a seu tempo acaso superaram em suas próprias obras as questões de sua sexualidade padrão heteronormativa sempre presente em seus contos e romances? Evidentemente que não se trata disso, e nem isso seria o marcador de um amadurecimento da produção literária de um autor que, ao que vemos, sempre teve plena consciência de construção de sua obra a cada novo livro lançado.

Caio se ocupava da literatura em toda a sua extensão, e por ela se fazia existir por sua experiência, confundindo-se com ela, livre de bandeiras identitárias ou outras quaisquer, como a da aids, o que consideramos ter sido o grande trunfo de sua obra.

Quem hoje se encontra com suas narrativas depara no seu cotidiano com realidades tão violentas quanto as situações contidas em seus contos “Creme de alface” (Ovelhas negras), “Garopaba mon amour” (Pedras de Calcutá) e “Terça-feira gorda” (Morangos mofados); em situações tão delicadas quanto as descobertas contidas em “Aqueles dois” (Morangos mofados); em reflexões tão profundas e tocantes como no delicado conto “Corujas” (Inventário do ir-remediável); em dúvida em relação à realidade política de um país perdido como em “Oásis” (O ovo apunhalado); em abandono e desorientação como em “Sem Ana Blues” (Os dragões não conhecem o paraíso)... São muitas e diversas as passagens de Caio que nos trazem sua experiência atrelada às nossas, de leitores deste século XXI, século que infeliz e estranhamente ele não conheceu, mas anteviu tão bem, porque sua literatura fala de nós, fala do humano em nós.