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8 de março de 2017

Essas mulheres

Paula Queiroz Dutra
Universidade de Brasília

Imagem: Shiko


As flores com que me vestiram
eram só
para arder melhor.
Paula Tavares


Falar da literatura produzida por mulheres ainda é, infelizmente, falar de silêncios. Não o silêncio de quem não tem nada a dizer e se conforma em apenas ouvir os discursos hegemônicos. Pelo contrário, é um silêncio forçado, que há muito tenta apagar as histórias, os gritos, a dor, a voz e, acima de tudo, a força dessas mulheres que ousam escrever, que sabem ter algo importante a dizer. Mas esse silenciamento disfarçado de ‘silêncio’ – tão opressor como outras formas de violência – talvez até possa enganar quem está mais desatento, mas já não engana grande parte da população, principalmente essa nova geração de mulheres que está querendo ler mais escritoras e que têm contestado a ausência de livros publicados por mulheres pelas grandes editoras (e, consequentemente, sua presença nas principais livrarias), assim como sua ausência nas listas dos grandes prêmios literários.
Esse cenário já foi comprovado pela academia, pelo menos no contexto brasileiro, com pesquisas estatísticas como as que foram coordenadas pela professora Regina Dalcastagnè na Universidade de Brasília, que analisou centenas de romances publicados pelas principais editoras brasileiras durante um período de 15 anos (de 1990 a 2004) e constatou que o espaço destinado às mulheres, seja como autoras, seja como personagens de romances, ainda é muito pequeno, quando não estereotipado. Dos 165 autores catalogados pela pesquisa, 120 eram homens, ou seja, 72,7%. Além disso, do total de autores, 93,9% eram brancos. O mesmo foi observado nos principais prêmios literários brasileiros e, mais recentemente, ficou mais do que evidente em uma das principais feiras literárias do país. Segundo Regina Dalcastagnè, em Literatura brasileira contemporânea: um território contestado, entre os anos 2006 e 2011, foram premiados 29 autores homens e apenas uma mulher (na categoria estreante, do Prêmio São Paulo de Literatura).
No entanto, a mobilização através das redes sociais e da possibilidade de diálogo promovida pela internet ganha força com o surgimento de clubes de leitura em todo o Brasil, como o Leia Mulheres, que tem estimulado a leitura e a descoberta de escritoras até então desconhecidas por grande parte das leitoras que, apesar de serem maioria, ainda não tinham se dado conta de sua força e da pluralidade da produção das autoras.
Há quase cem anos, Virginia Woolf, em seu ensaio intitulado Um teto todo seu, refletia sobre a desigualdade de acesso ao conhecimento entre homens e mulheres na sociedade inglesa da época, denunciando de que forma isso impedia que as mulheres conseguissem escrever e produzir literatura. Para Woolf, para que as mulheres pudessem se tornar escritoras, elas precisavam ganhar quinhentas libras por ano e ter um teto todo seu, de preferência, com tranca na porta. Apesar da importância desse ensaio de Woolf, muito atual ainda nos dias de hoje, uma questão importante não foi observada pela escritora. Mesmo tendo um teto todo seu e sendo capaz de produzir bons textos literários, as escritoras negras ainda tem que se confrontar com a indiferença ainda mais perversa do mercado editorial. Em um país racista como o Brasil, pode-se imaginar como isso é doloroso e difícil. As narrativas são, sim, espaços de disputa, como nos mostra Regina Dalcastagnè.
Quando pensamos em escritoras que não conseguem a visibilidade que merecem no cenário editorial, a lista é imensa. Cada leitora ou leitor de uma parte do país certamente poderia citar muitos nomes de autoras cujos livros não conseguem circular nas principais livrarias. Já que falamos de um teto todo seu, o primeiro nome que vem à cabeça é Carolina Maria de Jesus e seu Quarto de despejo, uma prova de que a norma culta é mesmo muitas vezes usada como fator de exclusão. Mas a beleza do texto de Carolina, que com muita coragem dizia “Sou poeta”, permanece. Contudo, é sempre estranho pensar que é mais fácil adquirir um exemplar dos livros de Carolina Maria de Jesus em língua estrangeira, já que é uma das escritoras brasileiras mais estudadas no exterior, do que conseguir encontrar um exemplar de seus livros em uma livraria de qualquer cidade brasileira. Mais recentemente, a escritora Martha Batalha, nascida em Recife, só conseguiu ter seu livro A vida invisível de Eurídice Gusmão publicado no Brasil, após várias recusas, depois de se tornar um sucesso no exterior, com traduções para dez idiomas. Ainda esperamos que o mesmo aconteça com Carolina Maria de Jesus por aqui.
Ponciá Vicêncio e Becos da Memória, de Conceição Evaristo, são nomes que vem à mente logo em seguida, por trazerem outras vozes tão indispensáveis para que a literatura brasileira seja mais rica e mais plural, assim como Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, que revela parte importante da história brasileira, quase nunca contada sob a perspectiva de quem também tem o direito de contá-la. De Brasília à Bahia, poetas como Cristiane Sobral e Lívia Natália contam as dores e os amores das mulheres negras em poemas que nos arrastam feito correntezas por histórias que falam de luta, de força, de afeto. Não vou mais lavar os pratos, é o que elas dizem com a sua poesia visceral.
Ainda falando em poesia, lembro-me da delicadeza dos poemas de Ana Martins Marques ou da irreverência da poeta mineira Ana Elisa Ribeiro, e também de Angélica Freitas que nos lembra de que Um útero é do tamanho de um punho. Entre tantos nomes que despontaram há pouco tempo, em grande parte por finalmente serem vencedoras de importantes premiações literárias, é mais do que necessário lembrar aquelas que trazem o sertão de volta para a literatura, como Maria Valéria Rezende, Socorro Acioli e Marília Arnaud, ou que inovam ao falar de amor, com sensibilidade e leveza, para além das fronteiras de gênero, como a amora de Natália Borges Polesso. Outros cantos, no entanto, requerem outros formatos, e acabam por encontrar outros caminhos para escrever suas histórias, como tem acontecido nas periferias das cidades, nos saraus e slams, quando o poema existe para ser recitado, proclamado, ou cantado ao som do rap e do hip-hop. O que importa mesmo é que essas incríveis mulheres, de diferentes idades, raças, etnias, gerações, classes sociais e cidades seguem lutando pelo seu espaço, para serem ouvidas. Não há dúvidas de que elas têm muito a dizer. Cabe a você, leitora/leitor, neste dia 8 de março, substituir aquelas flores, já que alguns presentes podem ser amargos como os frutos (como bem fala a poeta angolana Paula Tavares), por um livro de uma escritora que você nunca leu, mas – tenho certeza – vai adorar ler. As opções são infinitas e bem maiores do que este ou qualquer outro texto podem conter. Divirta-se na companhia delas. Beijo, boa sorte.

*Algumas autoras que você deveria conhecer foram citadas ao longo deste texto em negrito. Grande parte dos títulos aparece aqui e ali em itálico, espero que você consiga encontrá-los.


15 de agosto de 2015

A violência contra a mulher e a literatura

Paula Q. Dutra


Imagem: Cindy Sherman
Our silence will not protect us.
Audre Lorde

Em 2006, a escritora norte-americana Alice Walker trabalhou para a organização Women for Women International e teve a chance de visitar Ruanda e o Congo depois do genocídio ocorrido na região. Mais tarde, convidada pelo grupo antiguerra CODEPINK, Walker viajou para a Palestina/Israel três anos após a devastação ocorrida na faixa de Gaza. Overcoming speechlessness (2010, Rompendo o silêncio, tradução minha) resulta dessa experiência. O livro é um relato de caráter mais pessoal sobre o que a autora presenciou e sentiu durante (e também após) essa visita a um cenário devastado pela violência. Diante de tanto sofrimento, Walker afirma ter retornado ao seu país carregando o peso das histórias contadas pelas sobreviventes. Após o período de choque inicial pelas histórias que falavam de uma dor para a qual parecia não haver palavras, a autora busca nesses relatos a força para recontá-las, ciente de que é necessário romper o silêncio para lutar contra a violência.
Compreender o mundo moderno e sua relação com a violência é, para muitos, um dos desafios da chamada modernidade. Susan Sontag, no livro Diante da dor dos outros (2003), afirma que ser um espectador de calamidades é uma experiência moderna essencial, o que nos leva a pensar sobre o fenômeno da violência como um todo e sobre o que essa exposição tão excessiva, que por vezes vulgariza e torna banal o sofrimento do outro, provoca em nós e na sociedade em que vivemos. Para Jean Franco, em Cruel modernity (2013), nem a crueldade nem a exploração da crueldade seriam algo novo, mas a aceitação e a justificação de atos de crueldade é o que se tornou uma característica da modernidade.
O relato de Alice Walker sobre esse encontro com as mulheres que sobreviveram a violências físicas, sexuais e psicológicas brutais nos contextos de guerra coloca em pauta a importância de se discutir a violência contra a mulher nos dias de hoje. Se diariamente somos soterrados por notícias sobre crimes, conflitos armados, tragédias no simples ato de folhear um jornal ou ligar a televisão, a violência cotidiana vivenciada pelas mulheres em todo o mundo ainda tem sido banalizada e aceita como algo “normal”, ainda que as estatísticas mundiais continuem alarmantes.
Um dos problemas ao tratar da questão da violência são os seus muitos significados, que por vezes impedem ou dificultam o reconhecimento, por parte das próprias vítimas, da situação de violência a que estão submetidas. Esse não reconhecimento de ações violentas como violência ocorre tanto por parte das vítimas como por parte dos agressores, o que demonstra a gravidade do problema da naturalização da violência como um sério empecilho à sua erradicação.
Só recentemente, devido a alguns avanços na legislação brasileira, a violência contra a mulher tem sido colocada em pauta no Brasil. Mas, se a violência urbana que assombra as grandes cidades é um tema recorrente nos romances brasileiros, a violência contra a mulher, em suas várias formas, ainda é pouco problematizada, mesmo por escritoras, conforme apontam as pesquisas de Regina Dalcastagnè em Deslocamentos de gênero na narrativa brasileira Contemporânea (2010). O que esse silêncio pode nos dizer?
Podemos acreditar que a literatura é capaz de fazer algo contra a violência, uma vez que é um discurso que produz conhecimento sobre o mundo, e pode tanto reproduzir e disseminar estereótipos quanto contribuir com a criação de novas imagens e novas ideias. Como afirma Jaime Ginzburg no livro Violência e melancolia (2012), a convivência com a literatura nos permite entrar em contato com novas imagens, ideias, relatos e exemplos que contribuem para construir uma nova orientação ética, tanto individual quanto coletiva. Faz-se necessário ter em mente, contudo, que as representações de violência na literatura, no cinema e nas artes em geral também podem suscitar reações opostas, e o que inicialmente pretendia ser uma denúncia pode terminar por ser interpretado como algo banal ou, até mesmo, inevitável.  
Considerando a possibilidade e a legitimidade das representações, é importante pensarmos até que ponto e de que maneira as várias formas de violência contra a mulher, em todas as suas nuances e complexidade, podem ser representadas na literatura sem reiterar os estereótipos tradicionais de submissão, silenciamento e dissociação associado às mulheres. De que forma essas representações podem contribuir para a criação de um novo discurso sobre a mulher vítima de violência, sem tornar ambígua a sua dor, o seu sofrimento?
Do ponto de vista da literatura, espaço onde circulam ideias e discursos, é importante que novas perspectivas sejam retratadas abordando a situação das violências vivenciadas pelas mulheres de forma a contestar algumas visões de mundo que favorecem as exclusões e reforçam estereótipos negativos.
Para isso, no entanto, é necessário que a literatura de fato dê voz a essas mulheres, sem minimizar ou desconsiderar o seu sofrimento, oferecendo-lhes uma oportunidade digna de resistir e sobreviver sem violência.