Bruno Bucis
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Calçada com mosaico em homenagem a Evangelina Carreira e Daniel Hopen em Buenos Aires |
24 de março. 1º de abril. 1976. 1964. As ditaduras militares vividas na Argentina e no Brasil se entrelaçam de forma tão intrincada que por vezes parece mais lógico separar seus inícios em apenas uma semana, não em 12 anos.
Os aniversários destes dois regimes de terrorismo de estado foram lembrados no início deste mês. Meio século do golpe na Argentina. 62 anos no Brasil. Eles seguem, porém, sendo alvo de interpretações que mantêm o paralelo grotesco entre elas: tão afastadas e ao mesmo tempo tão sobrepostas entre si e em nosso presente.
Vivi por três anos em Buenos Aires para fazer meu mestrado em literatura pela Universidade de Buenos Aires. Morava em Almagro, bairro conhecido por ser o berço do tango portenho. Foi ali também que começou, em 2006, o projeto de colocar mosaicos nas calçadas revelando os pontos onde pessoas haviam sido sequestradas pela ditadura.
Na frente do prédio em que eu morava, todos os dias uma placa me lembrava do desaparecimento dos militantes Evangelina Carreira e Daniel Hopen em 17 de agosto de 1976. Quando vou à Universidade de Brasília, agora em meu doutorado, passo sempre em frente ao mosaico em homenagem ao estudante Honestino Guimarães, líder estudantil da UnB sequestrado pelo estado brasileiro em 1973.
A homenagem a Honestino é uma exceção, mas na Argentina muitas outras placas foram instaladas nas calçadas e não só de Buenos Aires, mas também as vi em Córdoba e La Plata. Elas começaram a tomar o país nos eventos em memória das três décadas do golpe que tirou Isabelita Perón do poder e que foi responsável por 30 mil mortes estimadas até 1983.
Neste ano, algumas delas foram pichadas. Para os 50 anos da ditadura argentina, não houve nenhuma ação para ocupar o espaço público em homenagem às vítimas. Na realidade, o contrário: o governo de Milei colocou em estado de equivalência a institucionalização de um maquinário de extermínio, por um lado, e as mortes de agentes em confrontos contra militantes, do outro. O mesmo movimento de falsa equivalência foi feito pelas forças armadas aqui quando Bolsonaro estava no poder, mais um entre os tantos paralelos.
O que esses casos revelam, além dos paralelismos, é que a narrativa que construímos sobre os impactos deste período segue sendo importante: a tentativa de apagar os registros, pichar as calçadas e criar falsas relações permanecem tentando apagar o que os mosaicos, museus e homenagens querem perpetuar.
A literatura, soberana das narrativas, portanto, é fundamental para reconstruir esse período, tanto no Brasil como na Argentina. Não nos faltariam exemplos de obras fundamentais para refletir sobre a ditadura em ambos os países, mas para não me alongar recomendo apenas as minhas preferidas.
Do lado de lá do rio, penso em Confesión, de Martín Kohan, que narra de forma fragmentada como a violência da ditadura atravessa a vida de uma mulher em diferentes períodos, ora como singela apoiadora, ora como vitima desesperada. Uma mesma personagem que era apaixonada por um jovem militar na adolescência é, na vida adulta, obrigada a recorrer a ele, ao "presidente" Videla, para preservar a vida do filho militante que ela, ingenuamente, denunciou.
Do lado de cá, penso em K.: relato de uma busca, de Bernardo Kucinski, um relato sentimental e cruel da busca do pai dele sobre pistas para o paradeiro de sua irmã, uma professora universitária desaparecida. Talvez em uma ponte entre os dois pontos abertos dessa ferida, A resistência, de Julián Fuks, sobre uma família que tenta construir a própria história ao migrar entre Argentina e Brasil e com suas omissões, com muita ficção, buscam dar uma aparência de normalidade aos traços que os unem.
Além do tema da ditadura, todas essas obras tem em comum terem sido escritas nos anos de 2010. A ditadura atravessa a literatura não só como tema, mas como tesoura. Ambos regimes institucionalizaram sistemas de censura que trataram de restringir tanto a liberdade criativa como o desenvolvimento acadêmico. Escrever sobre ele no calor do presente era perigoso e quase impossível.
O afastamento no tempo parece ter permitido não só aos escritores, mas também à sociedade, elaborar melhor seu trauma, deixar para a geração seguinte a tarefa de encontrar palavras que poderiam transmitir ao menos parte das dores do período.
Esses livros não pretendem encerrar o tema, acabar com as disputas ao redor do brutal legado do período de violência estatal que Brasil e Argentina enfrentaram. Primeiro, não deveria haver disputa entre a verdade e a mentira. Nem entre a verdade e a ficção. O espaço ficcional, porém, surge para permitir imaginar as realidades que o terrorismo de estado trabalhou —e ainda trabalha— por décadas tentando apagar.
A literatura está aqui justamente para impedir que as histórias sejam jogadas por baixo do tapete e ignoradas. Ela cria as calçadas por onde poderemos edificar novos mosaicos de memória. Quem sabe mais coloridos que a realidade gris, permitindo a presença de mais cores do que aquelas que as provas documentais, preto no branco, podem trazer. Com ela podemos imaginar outras vidas e devolver ao mundo como uma chuva que limpa as pichações da calçada, uma enxurrada de imaginação que preenche aquilo que, sem ela, era silêncio.

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