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27 de fevereiro de 2026

Para que serve a literatura, afinal? Notas a partir de Paris

 Larissa Dantas e Mariana Moura

Grupo de participantes do GELBC reunidos em Paris. Fevereiro de 2026


Durante dois dias de inverno em Paris, 2 e 3 de fevereiro de 2026, a pergunta que atravessou salas, corredores e conversas informais na Université Sorbonne Nouvelle parecia simples, mas insistia em se desdobrar: para que serve a literatura, afinal?

Nós, as autoras deste texto, estivemos por lá, às voltas com essa questão, em um movimento que faz parte de nosso retorno à academia, depois de mais de 10 anos. Começamos como jovens pesquisadoras de iniciação científica, parte da grande equipe que ajudou a desenvolver a pesquisa “A personagem do romance brasileiro contemporâneo”, em 2005. Sob coordenação da professora Regina Dalcastagnè, naquela época experimentamos pela primeira vez não só a rotina de uma pesquisa científica de grande porte, mas também uma viagem de campo, rumo ao Rio de Janeiro e à Biblioteca Nacional. Ali, a pergunta do parágrafo anterior se materializou em resposta posteriormente como experiência e escolha profissional. Uma de nós hoje é professora de literatura. A outra, editora, tradutora e revisora. 

Nosso retorno simultâneo à academia, sem que houvéssemos combinado, virou parceria e, novamente, viagem. Desta vez, para acompanhar o colóquio do grupo de pesquisa que nos formou e para partilhar nossas pesquisas de doutorado, ouvindo e aprendendo com colegas, professores e estudantes do Brasil e do exterior. E, talvez, o mais interessante não tenha sido buscar uma resposta ao questionamento proposto, mas perceber como a própria formulação da pergunta nos desloca.

Em um tempo em que tudo parece demandar utilidade imediata, mensurável, justificável em termos de produtividade, reunir pesquisadoras e pesquisadores de diferentes lugares para sustentar um debate como esse já é, por si, um gesto significativo.

O X Colóquio Internacional sobre Literatura Brasileira Contemporânea, organizado pelo GELBC em parceria com o Centre de recherches sur le pays lusophones, o CREPAL, não ofereceu respostas fechadas. Em vez disso, abriu um campo de escuta e abertura para a questão. Ao longo das mesas, a literatura apareceu menos como um objeto estabilizado e mais como um espaço de tensão, entre linguagem e política, entre memória e esquecimento, entre experiência estética e as formas pelas quais tentamos compreender o mundo e a nós mesmos.

Porém, havia algo de muito concreto nessas discussões, ainda que tratassem, muitas vezes, do que escapa à materialidade imediata. Falou-se de crise da linguagem, de novas formas de sensibilidade, de narrativas atravessadas por deslocamentos, violências e reinvenções. Mas também se falou, e isso é central, da leitura como prática situada, histórica, aberta à experiência e à interpretação.


Em diferentes momentos do colóquio, tornou-se evidente que a literatura permanece necessária justamente naquilo que não se deixa domesticar. A fala de Regina Dalcastagnè, coordenadora do grupo, foi particularmente contundente ao afirmar a importância da literatura como um espaço que escapa às tentativas de controle, inclusive às formas implícitas, sutis e, até mesmo, bem intencionadas de censura. A literatura como prática cultural e como objeto de pesquisa, nesse sentido, permite pensar a sociedade e as relações humanas de maneira livre e crítica.

Também se destacou a fala do professor Leonardo Tonus sobre o esgotamento das palavras em face às catástrofes. Sua reflexão chamou a atenção para os limites da linguagem diante de experiências extremas, ao mesmo tempo que reafirmou a urgência de criar formas de expressão para aqueles que, muitas vezes, são privados da possibilidade de dizer. Ao abordar as crises migratórias e os deslocamentos forçados em direção à Europa, Tonus evidenciou a dimensão desumana desses processos e a necessidade de que a literatura se constitua como espaço de escuta e elaboração, capaz de dar visibilidade, voz e densidade às experiências de sujeitos historicamente silenciados, como os imigrantes.

A literatura insiste em abrir brechas. Essa ideia reverberou ao longo dos debates. Ao passo que há discursos que procuram organizar, simplificar ou restringir o que pode ser dito e pensado, a narrativa literária de ficção, a poesia, o ensaio cismam em mostrar a instabilidade, a dúvida, a dor, o caos. Acolhem vozes dissonantes, sustentam ambiguidades, expõem conflitos. Mais do que oferecer respostas, criam condições para que perguntas incômodas possam existir.

O segundo dia do colóquio ampliou essas questões ao trazer para o centro as dimensões pedagógicas, éticas e políticas da leitura. Discutiu-se a formação de leitores, a circulação internacional da literatura brasileira, os processos de criação e tradução literária, bem como as mediações que atravessam o encontro entre texto e leitor. No Fórum dos Estudantes, pesquisas em andamento, como as nossas, revelaram um campo vivo, em movimento, atento tanto às heranças quanto às urgências do presente.

Mas, para além das mesas e dos temas, o que mais permaneceu, talvez, tenha sido a experiência do encontro. Em um cenário marcado por fragmentação e aceleração, parar para ouvir, ler, discutir e sustentar uma pergunta comum produz uma forma de comunidade, uma comunidade que se fortalece a cada encontro.

Aliás, não é nada desprezível que tenha sido o décimo colóquio internacional de um grupo de pesquisa que está prestes a completar 30 anos. Ainda que atravessada por diferentes olhares, essa comunidade se constitui em torno de algo que não se deixa reduzir: a leitura de literatura.

Para nós duas, alguns anos separam as duas viagens que marcaram nossa trajetória acadêmica, entre Rio de Janeiro e Paris. Há muito o que falar sobre o entrelaçamento entre a literatura e nossas jornadas pessoais e profissionais, mas entre lá e cá não podemos deixar de destacar a importância do financiamento público de pesquisa, que viabilizou ambas as viagens (agradecemos atualmente o apoio da FAP/DF). Em tempos de cortes de gastos e sucateamento do ensino superior, nossa participação nesse evento acadêmicosimp é também fôlego, um gesto de resistência de uma ciência da literatura que insiste em se manter viva nas novas gerações.

Ao final, a pergunta permanece. Para que serve a literatura?

Longe de ter a obrigação de ser útil, a literatura, no entanto, encontra seu propósito na medida em que engaja, mobiliza, provoca o leitor. Talvez ela sirva, precisamente, para manter aberto aquilo que outras formas de discurso tentam fechar. Para sustentar a complexidade das relações humanas. Para permitir que imaginemos outras formas de vida em comum. Para pensar com liberdade aquilo que sem ela talvez não pudesse, sequer, ser dito.

E isso, hoje, não é pouco.


12 de dezembro de 2015

A contemporaneidade de Caio Fernando Abreu

(sobre Sexualidades em questionamento: uma abordagem queer sobre Caio Fernando Abreu, de Mariana de Moura Coelho)


Fernanda Borges

Caio Fernando Abreu
Caio Fernando Abreu é um autor que encanta e surpreende os leitores, os quais, muitas vezes, tornam-se seguidores, fãs e discípulos fiéis de seus textos e de suas ideias. O autor gaúcho, falecido em 1996, conta ainda hoje com uma legião de leitores, o que atesta a contemporaneidade de sua literatura. Seu acervo pessoal, composto por cartas, manuscritos e datiloscritos, fotografias e mapas astrais, entre outros objetos, encontra-se no Delfos –Espaço de Documentação e Memória Cultural da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). A obra de Caio também conta com significativa fortuna crítica acadêmica por apresentar temas extremamente relevantes neste momento social que vivemos no Brasil, como a discussão desenvolvida na dissertação de Mariana de Moura Coelho, intitulada Sexualidades em questionamento: uma abordagem queer sobre Caio Fernando Abreu
Igualdade de gênero, homoafetividade, casamento gay e homofobia são questões discutidas diariamente não só na sociedade brasileira, mas em contexto mundial. Como bem afirma Mariana Coelho, Caio Fernando Abreu é um autor reconhecido também por tratar desses tópicos em seus textos ficcionais, mesmo que a maioria de suas personagens não sejam identificadas nas narrativas como gays, homo ou bissexuais: “Caio Fernando Abreu é, sem dúvida, um dos principais nomes da temática homoerótica na literatura brasileira. Ainda assim, (…) aqueles tidos como claramente homossexuais não representam a maioria de seus personagens. Caio nunca esteve interessado em levantar bandeiras: em sua literatura existencial, da solidão, da busca do amor, sua preocupação maior sempre esteve em descrever experiências amorosas, sejam entre quem fosse, ainda que isso não significasse igualá-las todas ou negligenciar suas particularidades. Mesmo assim, ele se destacou pela homotextualidade e certamente figura na lista dos mais importantes escritores brasileiros da segunda metade do século XX”.
Apesar de ter se destacado sobretudo como contista, os textos de Caio analisados no trabalho não são os contos, mas a novela “Pela noite”, publicada em Triângulo das águas, de 1983, e o romance Onde andará Dulce Veiga?, de 1990. As personagens Pérsio e Santiago, de “Pela noite”, apresentam perspectivas opostas no modo de encarem e vivenciarem sua orientação sexual. Pérsio, por ter enfrentado diversos casos de preconceito, encarna a culpa na realização de sua sexualidade, ao contrário de Santiago, que não concebe o seu desejo como anormal, conforme certos discursos querem forçá-lo a pensar. Dessa forma, Caio Fernando Abreu problematiza tais questões identitárias já na década de 1980, refletindo claramente ainda acerca da AIDS e da clandestinidade sexual e afetiva enfrentada pelas personagens. Já em Onde andará Dulce Veiga?, Mariana Coelho discute a diversidade sexual das personagens do romance, o qual não as define ou rotula de modo a incluí-las em categorias específicas e fechadas. A liberdade quanto à representação das identidades e das orientações sexuais é uma das características mais interessantes dessa obra, que se mostra fundamental na literatura contemporânea para que não se adote posturas excessivamente classificatórias e, consequentemente, estanques e infrutíferas na escritura literária e na posterior análise crítica.
A dissertação Sexualidades em questionamento: uma abordagem queer sobre Caio Fernando Abreu, defendida na UnB, toca em importantes aspectos da literatura de Caio F. e esclarece diversos conceitos da teoria queer, muitas vezes mencionados aleatoriamente ou desvinculados de sua postura política e filosófica. Em um momento em que tanto se fala de igualdade de direitos, de intolerância e de respeito, as questões trazidas pelo texto de Mariana Coelho reforçam nossa argumentação contra discursos preconceituosos e homofóbicos e, acima de tudo, relembram-nos da delicadeza e da força da literatura de Caio Fernando Abreu.

Confira o conteúdo completo da dissertação de Mariana de Moura Coelho, Sexualidades em questionamento: uma abordagem queer sobre Caio Fernando Abreu (2010, Universidade de Brasília) no site do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea. Veja o trabalho completo aqui.