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27 de janeiro de 2026

Com a palavra, o autor

 Graziele Frederico

As entrevistas são acompanhadas por ilustrações dos autores realizadas por Francisco Dalcastagnè Miguel. Da esquerda para direita: Giovanni Ricciardi, Lygia Fagundes Telles, Antônio Torres, Rachel de Queiroz.

Em uma de suas crônicas no Jornal do Brasil, respondendo a um leitor de Cabo Frio sobre como ela via o ofício de escritora, Clarice Lispector respondeu que, “lado a lado com o desejo de defender a própria intimidade, há o desejo imenso de me confessar em público e não a um padre”. Corria o ano de 1968. Uma década mais tarde, como Carmen Villarino Pardo registrou no artigo “Encontros de escritores nos finais da década de 1970”, muitos autores buscaram expor a própria trajetória como meio de aproximação com o público e atração de mais leitores para a própria obra. Em tempos de inteligência artificial que recombina informações para gerar produtos discursivos, um novo projeto do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea busca trabalhar justamente com a materialidade da escrita sob o ponto de vista do fazedor de textos literários, o escritor.

O Mapeamento crítico da autoria brasileira contemporânea nasce a partir da doação de um vasto acervo de entrevistas com escritoras e escritores brasileiros realizadas entre 1986 e 1992. O pesquisador, professor e brasilianista italiano Giovanni Ricciardi, cedeu ao grupo 105 entrevistas que realizou com autores brasileiros sobreviventes e recém-saídos da ditadura militar. Os escritores foram chamados a responder um questionário baseado em três eixos principais: formação, ato da escrita e recepção dos textos publicados; por fim, eram convocados a traçar um autorretrato. 

Se num primeiro momento, o projeto está organizando o material que será disponibilizado na plataforma Praça Clóvis; em seguida faremos um novo levantamento para seleção de autores a serem entrevistados e uma busca por outros arquivos e materiais produzidos no Brasil e no exterior com entrevistas que possam complementar essa cartografia crítica.

Seguindo a tradição das pesquisas e levantamentos realizados pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea ao longo das últimas décadas, mapear como se dá e quais são os elementos que compõem a perspectiva social e visão de mundo dos autores se apresenta como instrumentos adicionais nas discussões sobre representação e representatividade do campo literário, sem determinar que expliquem textos e obras dos autores. 

Antonio Callado, por exemplo, contou em entrevista a Ricciardi, que escreveu Quarup para explicar o Brasil a si mesmo e, se possível, aos outros. Antonio Torres respondeu que para ele a escrita é “como um serviço, uma coisa socialmente útil”. Na sua visão, justamente num país com índices de analfabetismo “alarmantes”, a escrita é um valor, porque ele se lembrava da emoção da população de Junco ao vê-lo recitar poesia quando criança, ou quando o chamavam para escrever e ler as cartas que chegavam, ou ler o livro de rezas durante um funeral. “Eu sempre quis sair daquele mundo para servir um pouco melhor àquele mundo. O Brasil está cheio de mundos em volta.” 

Caio Fernando Abreu disse que escrevia para ter uma ilusão, “reorganizar o universo, alguma coisa assim, inteiramente pessoal”. No entanto, quando questionado sobre a literatura brasileira da época, ele também aponta para a escrita em seu âmbito social: “[com algumas exceções] a literatura é muito comportada. Está ainda preocupada com as tias, há muitas tias na ficção brasileira, tem muito casarão, tem muito amor impossível, tem muito pouca carne, pouca sexualidade, pouca rua. Eu sinto ela meio dissociada da vida real do brasileiro.” 

Recuperar e mapear as entrevistas de Giovanni Ricciardi nos permite uma sistematização dos imaginários coletivos que permeavam o campo literário numa época bem específica: os anos iniciais da redemocratização do país. É importante destacar que dos 105 entrevistados, apenas 34 permanecem vivos, o que nos coloca diante de uma memória literária preservada e da restituição de reflexões e posicionamentos de diversos autores daquele período. Um elemento em comum para a formação de quase todos os escritores, que em muitos casos representou também um tema para as obras, foi o êxodo da periferia para o centro. Em seus estudos, a partir das respostas que recebeu, Ricciardi chega a comparar à mudança para as capitais do país e especialmente para Rio de Janeiro e São Paulo, com o papel que a corte exerceu em boa parte dos autores europeus no século XIX. O deslocamento para os centros culturais foi determinante na construção de inúmeras carreiras.

Ele dividiu os entrevistados em três gerações: os nascidos de 1906 até 1927, entre eles, Cyro dos Anjos, Antonio Callado, Jorge Amado, João Cabral de Melo Neto, José J. Veiga, Mário Quintana, Lêdo Ivo, Salim Miguel e outros. A segunda geração contou com aqueles que nasceram entre 1928 e 1948, compondo o grupo mais numeroso de entrevistados e que para o pesquisador, representavam boa parte dos protagonistas da literatura dos anos 1970 e 1980: Ferreira Gullar, Ivan Ângelo, João Antônio, Ignácio de Loyola Brandão, Antônio Torres, Roberto Drummond, Sérgio Sant’Anna, Lya Luft, Augusto de Campos, Adélia Prado, Moacyr Scliar, Luiz Antônio de Assis Brasil, João Ubaldo Ribeiro, Márcio Sousa, Silviano Santiago, Nélida Piñon, Carlos Nejar, mas não só. Por fim, o último grupo seriam os nascidos após 1949. Entre eles estavam Chacal, Domingos Pellegrini, Deonísio da Silva, Caio Fernando Abreu, etc. 

Um elemento de mudança nas respostas entre as gerações foram as profissões exercidas pelos pais. Ricciardi explica que a partir da segunda geração, “começa a aparecer algum pai operário, lavrador, barbeiro, quitandeiro, a mãe antes dona do lar, agora aparece também como comerciante, professora, advogada, dentista, operária, cabeleireira, costureira”. Se João Ubaldo Ribeiro afirmou que na sua época havia apenas três opções para os cursos universitários: Direito, Engenharia ou Medicina, com o tempo os autores começaram a optar também pelos cursos de Letras, Comunicação, Farmácia e Filologia. Muitos trabalhavam como jornalistas. Uma constante nas respostas foi a necessidade de uma segunda profissão para o próprio sustento e a liberdade que boa parte adquiriu quando conseguiu a aposentadoria por outro trabalho e pôde se dedicar à literatura, sem necessariamente contar com uma renda a partir do que escrevia.

É interessante notar a preocupação do brasilianista na busca por escritores e escritoras que representassem o campo literário nacional, tentando equilibrar ou tensionar a questão da representatividade geográfica. Nos sete volumes em que reuniu as entrevistas – Biografia e criação literária -  o primeiro foi dedicado aos autores que compunham a Academia Brasileira de Letras na época. Em seguida, tivemos as entrevistas com escritores de São Paulo, o terceiro volume contou com a série de autores mineiros, o quarto com representantes de Goiás, o quinto trouxe os escritores do Rio de Janeiro, o sexto, as conversas com autores do Norte e Nordeste, finalizando a coleção com 19 entrevistas de escritores do Sul do país. 

Se a preocupação com questões raciais não foram colocadas neste trabalho, o pesquisador decidiu dedicar duas perguntas para as mulheres: “A profissão de escrever ajudou ou ajuda na descoberta de si própria como mulher?” e “Existe no país a escrita, enquanto texto, feminina?”.

 No total dos 105 entrevistados, Ricciardi conversou com 17 mulheres: Adélia Prado, Anna Maria Martins, Edla van Steen, Helena Parente Cunha, Julieta Godoy, Lya Luft, Lygia Fagundes Telles, Márcia Denser, Maria Alice Barroso, Marina Colasanti, Myriam Fraga, Nélida Piñon, Olga Savary, Patrícia Bins, Rachel de Queiroz, Sônia Coutinho e Tânia Jamardo Faillace. Rachel de Queiroz respondeu que com o surgimento de grandes nomes da literatura brasileira, como Lygia Fagundes Telles e Cecília Meireles, havia uma literatura escrita por mulheres que era sólida e séria e por isso, “nem podia mais ser chamada de literatura feminina, mas apenas de literatura”. Lygia Fagundes Telles explicou que não dividia a literatura em masculina ou feminina, mas reconhecia que talvez as mulheres pudessem trazer características diferentes na escrita, o que de algum modo esteve também presente na resposta de Tânia Jamardo Faillace. Segundo ela, “ser mulher e fazer qualquer outra coisa que não seja cuidar do lar é muito difícil em países como o Brasil. Até hoje me sinto discriminada. Os livros das mulheres são menos divulgados e vendidos que os dos homens. Muitos cursos de Letras, inclusive em Porto Alegre, ignoram a literatura feita por mulheres. Eu mesma já fui barrada em participar de jornadas com estudantes na década de 60, por não ser casada”.

Da esquerda para direita: Antonio Callado, Adélia Prado, Caio Fernando Abreu, Salim Miguel. Ilustrações de Francisco Dalcastagnè Miguel.

Considerando que a entrevista é o principal gênero discursivo do projeto, é interessante recuperar o clássico livro de Cremilda Araújo Medina, Entrevista: o diálogo possível, publicado em 1986, para recordar algumas premissas importantes. Como explica Medina, nas suas diferentes aplicações nas Ciências Humanas, a entrevista é uma “técnica de interação social, de interpenetração informativa, quebrando isolamentos grupais, indivíduos sociais” e sendo ela uma interação simbólica que se dá através da linguagem, é impossível omitir a perspectiva social do próprio entrevistador, especialmente quando este é um especialista, como é o caso desse projeto. Mesmo assim, como destaca Medina, isso não impede que o entrevistado seja tratado como um outro e não “como isto”. 

Um exemplo interessante é o relato que Ricciardi faz sobre a surpresa que teve com os resultados de suas entrevistas para a questão: “Houve em sua vida uma encruzilhada que o marcou determinadamente?”. A fórmula da pergunta foi uma versão delicada da questão que ele pretendia fazer sobre como o golpe de 1964 tinha atingido a vida dos autores. Dos 105 entrevistados, dois deixaram de responder, Adélia Prado disse que não poderia dizer, 11 negaram ter vivido qualquer encruzilhada e 48 responderam citando momentos íntimos e eventos pessoais: doenças, perdas de um ente querido, viagens ao exterior, mudança de cidade, filiação a um partido político, a publicação do primeiro livro, conversão religiosa, o abandono da música pela literatura, casar e descasar. Ricciardi confessou que, “estava convencido, talvez por gostar muito de Gramsci, que todos responderiam: o golpe de 1964!”. Apesar de não representarem a maioria, 40 autores consideraram a ditadura um marco profundo.

No geral, as entrevistas trouxeram muitos autores preocupados com as desigualdades sociais no país e no continente latino-americano. Em muitas respostas, viu-se também um movimento de ponderação aos projetos mais marcadamente ideológicos. Alguns inclusive, como Manuel de Barros, mas não só ele, apresentam uma reflexão sobre um certo fracasso das literaturas forçadamente engajadas. Para Ricciardi, tantas obras têm resistido no tempo e ao tempo porque o autor desobedeceu – ainda que involuntariamente – à própria ideologia. Salim Miguel, quando convocado a traçar um autorretrato, afirmou que para ele, “o escritor, por mais que pareça estar mexendo e tratando de temas bastante diversificados, reelabora sempre os seus mesmos fantasmas”. Se autoras e autores são de fato um unicum, com suas inúmeras particularidades, temas e linguagens, o brasilianista destaca que a diferença entre escritores e escreventes é o modo como articulam as palavras em uma espécie de inspiração, que ele próprio, estudioso, dizia não ter. 

Então, recuperar e mapear entrevistas com escritores da literatura brasileira contemporânea é insistir em reafirmar as digitais humanas nessa produção discursiva. Lembrando que, apesar do indiscutível protagonismo do texto literário no exercício da crítica, “a literatura não se faz in vitro”, como há muitas décadas ensinava a brasilianista e professora da Universidade La Sapienza di Roma, Luciana Stegagno Picchio.

14 de novembro de 2015

Entrada proibida

Graziele Frederico


                                                          Dagmawy Yimer. Foto de Laura Daudén

Alguns morreram, outros se perderam pelo caminho, mas nós estávamos ali. Os europeus fazem um jogo maquiavélico com os imigrantes. A impressão que eu tenho é como se tudo fosse um teste para que na Europa entrem apenas os mais fortes, aqueles que conseguiram ultrapassar todas as fases.
 Dagmawy Yimer


Em março de 2009, preparando um livro sobre imigrantes africanos na Itália, conheci a história de Dagmawy Yimer. Ele é um etíope alto, esguio, fala um italiano fluente e ainda mantém a retórica desenvolvida no curso de Direito que não chegou a completar. Ele não era pobre em seu país e, apesar das dificuldades na Europa, também não viveu a situação de miséria. Fome, frio e desespero ele viveu pela primeira vez durante a viagem de Adis Abeba até Lampedusa.

“Quando me perguntam qual a minha etnia ou minha religião, insisto sempre em dizer que sou só um homem e basta. Eu nunca esperei ganhar muito dinheiro e, por isso mesmo, nunca tinha pensado em sair do meu país.” Yimer saiu da Etiópia no final de 2005, depois de ter participado de manifestações políticas contra o governo. Primeiro foi até a capital do Sudão e, em território estrangeiro, conseguiu reencontrar seus amigos e organizar a fuga para Europa. A África poderia ser uma alternativa, mas nos países vizinhos a situação política da qual estavam fugindo não era muito diferente. A Eritréia vivia sob o poder de Isaías de Afewerki, desde 1993, a Somália sofria uma guerra civil, o Dijibuti elegeu o presidente Guelleh com suspeitas de eleições forjadas, o Quênia elegeu um presidente pela primeira vez em 2002 e o Sudão vivia sob a ditadura de Omar Hasan Ahmad al-Bashir desde 1989.

Yimer estudava Direito na universidade de Adis Abeba quando o país, em maio de 2005, realizou as primeiras eleições pluripartidárias, desde a proclamação da República Federal Democrata. Há dez anos o primeiro ministro Meles Zenawi estava no poder. Devido às pressões das Nações Unidas, o governo liberou todos os partidos a se candidatarem e manifestarem livremente suas propostas. A Etiópia ganhou movimentação política e os universitários participaram ativamente da efervescência que o país viveu durante os cinco primeiros meses daquele ano. A Coalizão para a Unidade Democrática (CUD) e a Forças Democráticas Unidas da Etiópia (EUDF) tinham como pontos fortes no programa de oposição o combate ao desemprego, a implantação de medidas preventivas à contaminação do HIV e tratamento para esses pacientes, os quais compunham 10% da população adulta do país, e, por fim, a melhor distribuição das terras.

Uma semana antes do tão esperado domingo, 15 de maio, quando seria escolhido o novo parlamento etíope, foi publicado um relatório da organização Human Rights Watch denunciando a violação dos direitos humanos e a repressão política na região de Oromo, onde está situada a capital Adis Abeba. O documento registrava que dirigentes locais prenderam manifestantes da oposição. Alguns dos amigos de Yimer também foram torturados. Mesmo assim, o jovem demorou um pouco para acreditar no que estava acontecendo e pensar em fugir.

Apesar da barbárie documentada pela organização internacional, 90% dos 73 milhões de habitantes foram às urnas. Preparando-se para o que poderia acontecer no país depois da divulgação dos resultados falsos, na noite de 15 de maio, Zenawi retomou o controle da imprensa e proibiu qualquer manifestação de cunho político durante um mês. A vitória de Zenawi e da Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope (EPRDF) foi avassaladora, deixando a oposição com menos de um terço das cadeiras no Parlamento. Com esse resultado, os outros dois partidos contrários à EPRDF não poderiam propor a agenda de debates, nem vetar as leis elaboradas pela maioria parlamentar.

Em novembro, a revolta pela fraude nas eleições e o autoritarismo da maioria parlamentar levaram os cidadãos de Adis Abeba a desobedecerem as ordens do primeiro-ministro. Mais de 500 pessoas saíram às ruas para protestar. Elas queriam mostrar ao mundo o que estava acontecendo no país. Outros jovens como Yimer gritavam o nome dos líderes da oposição que haviam sido presos, por terem contestado o novo Parlamento. A Anistia Internacional denunciou que, apesar das manifestação pacífica realizada por estudantes, professores, jornalistas, parlamentares e advogados, os policiais agiram com violência. Duzentas pessoas foram feridas e, 64, mortas. Meles Zenawi declarou, na mesma semana, a pena de morte de 58 cidadãos considerados traidores da pátria.

Yimer entendeu o recado do primeiro ministro: “Tomei a decisão num impulso, como os outros jovens. Nós sabíamos que um dia, de repente, um soldado entraria na nossa casa e acabaria com a nossa vida. E, pior, você estaria morrendo por uma manifestação que não mudou nada, já que não podemos fazer mudanças. É nesse momento que você decide seguir em frente e enfrentar a viagem.”
A viagem deveria ser organizada às pressas. Os estudantes de Adis Abeba eram um grupo visado pela polícia. O primeiro passo de Yimer foi trocar por dólares as economias que tinha para pagar a Universidade de Direito. O dinheiro foi costurado dentro de uma calça jeans, como haviam recomendado outros imigrantes. Ninguém pode deixar à mostra a quantia que leva, caso contrário, a chance de ser roubado ou extorquido é muito maior. As viagens atravessando o Saara até a costa do Mediterrâneo custam, em média, de US$ 1,5 a US$ 3 mil, dependendo do ponto de início, de quantos policiais se encontrem pelo caminho e de quantas vezes você seria preso pelos líbios.

O grupo de partida não poderia ser formado em Adis Abeba. Algum soldado ou funcionário do governo poderia perceber a movimentação e desconfiar que se organizava, ali, a fuga. O ponto de encontro foi a capital sudanesa, Cartum. Este é um dos mais importantes centros comerciais do Sahel – região do extremo sul do Saara, que vai do Senegal ao Sudão ligando os agricultores dos campos meridionais aos nômades do deserto, ao norte. A cidade conta com 2,7 milhões de habitantes, de maioria árabe e muçulmana. A semelhança cultural, étnica e religiosa contribui para que os sudaneses consigam negociar o tráfico de imigrantes, criando a rota de entrada na Líbia pelo deserto.

Yimer descreve essa etapa da viagem com tranquilidade. Era apenas o início, nenhum deles sabia ao certo o que encontrariam no caminho. Eles ainda tinham comida e água suficiente para o percurso. Já estavam mais longe de casa e, não corriam perigo de serem presos pelos homens de Zelawi. Os traficantes sudaneses que fazem a travessia não pertencem na sua maioria a grandes redes ou organizações. São imigrantes que tentaram esse caminho outras vezes e, por motivos diversos, ou não conseguiram chegar à Europa ou foram deportados para a África. Nesse complexo sistema formado ao longo das rotas de imigração, criou-se uma variedade de atividade profissionais que vão de conselheiro para preparação da viagem até vendedor de documentos falsos e agenciador de casas-dormitórios para imigrantes.

O grupo dos 22 etíopes passou um mês no Sudão, à espera da chegada de todos para se organizarem e encontrarem um traficante. O contrato com o contrabandista previa que ele os entregaria nas mãos dos líbios por US$ 200 cada um. A partir daquela fronteira os etíopes deveriam pagar mais US$ 300 por pessoa aos intermediários para atravessarem o Saara. O destino final seria a costa do país, nas cidades de Bengasi ou Trípoli – os dois polos mais importantes da Líbia.

Os etíopes conheciam apenas uma parte dos riscos da viagem. Yimer enfatiza que devido à perseguição política, tudo foi decidido num impulso. Nenhum deles calculou ou planejou os perigos. Um cineasta italiano que o jovem conheceu em Roma anos mais tarde dizia que antes que você viva alguma coisa, você nunca acredita direito naquilo. E depois, quando a única possibilidade é aquela, ninguém pensa muito no que poderá acontecer. Há anos, o documentarista Andrea Segres trabalha com as questões dos imigrantes e refugiados e, por muitas vezes, ouviu histórias repetidas sobre o sonho de fugir da pobreza, da guerra e buscar uma vida melhor.

Quando o traficante encheu sua camionete com 32 pessoas, incluindo Yimer e os outros etíopes, começou para eles o percurso no deserto. O espaço no carro era pequeno e nenhum dos passageiros podia se mexer. Ninguém conseguia fazer com que o motorista parasse porque estava se sentindo mal, quisesse comer ou precisasse ir ao banheiro. A condição das “estradas” no Saara fazia com que o carro balançasse muito, sendo difícil manter o equilíbrio, principalmente porque viajavam com mais do que o dobro da capacidade ideal da Ranger. Muitas pessoas caiam durante o caminho e os passageiros imploravam a tal ponto que o motorista se via obrigado a parar para que pudessem subir novamente.

Faltando 154 quilômetros para chegarem a cidade de Bengasi, o carro parou e o traficante disse que não poderia prosseguir a viagem. Ele os deixaria nas mãos dos policiais que faziam a ronda na cidade de Agedabia. Seria a primeira extorsão oficial dos líbios. Todos ficaram muito assustados e o terror tomou conta do grupo. Apesar de serem uma autoridade local e terem sido designados para bloquear a imigração no pais, os policiais também trabalham com o tráfico de imigrantes. Quando passaram às mãos dos novos intermediários, os jovens refugiados ficaram sabendo que deveriam pagar mais US$ 300 se quisessem prosseguir com a viagem. “A primeira coisa que fiz foi dizer que não tinha esse dinheiro porque comecei a entender que se pagasse sempre eu não chegaria nunca”, lembra revoltado Yimer.

Em Agedabia, passadas algumas horas de negociação pouco cordial com os policiais, o acordo foi que cada um pagaria US$ 100 e todos seriam levados para Bengasi. Sorte ou não, na mesma noite foi mandado um táxi até o local que conduziu todos à costa líbia. Os intermediários não disseram mais nada e o taxista não falou para onde estavam indo. Antes de chegar ao destino final, o motorista deu algumas voltas em torno da cidade, para que os imigrantes não percebessem qual o caminho que haviam percorrido. Mais tarde, descobririam que estavam tão perto de Bengasi, que a viagem de táxi até ali custa normalmente dez dinares ou oito dólares.

O taxista os deixou em uma pensão já conhecida pelos traficantes em Bengasi. Naquela semana estavam lá muitos eritreus, à espera de uma oportunidade para chegar à Trípoli e de lá a Lampedusa, na Europa. Durante uma semana, os jovens etíopes se instalaram no local, pagando US$ 2 por noite para dormirem no chão, enquanto esperavam a vinda de outros intermediários. Depois de sete dias foram para a casa do novo contrabandista responsável por eles.

Yimer pediu a seu pai e irmãos que lhes mandassem os US$ 300 exigidos pelo novo intermediário, para ser levado de Bengasi até Trípoli. A transferência é feita em nome dos contrabandistas. A única segurança oferecida é um código passado ao imigrante para que o dinheiro possa ser retirado. A senha chegou um dia depois que o depósito foi efetuado. Durante a noite os imigrantes passaram ao líbio os números que davam acesso aos dólares vindos da Etiópia. Antes do amanhecer a polícia fez uma blitz na casa onde estavam hospedados e levou todos os jovens presos.

A polícia líbia começou a reforçar o controle da imigração a partir do ano 2000. Centenas de africanos foram presos e, desde aquele ano, a Itália começou a patrocinar oficialmente, através de acordos de cooperação, a vigilância nas fronteiras do país. Apesar da represália contra os estrangeiros, a história líbia deixa claro como a presença de imigrantes vem desde a década de 60 e teve um papel importante no seu desenvolvimento econômico. As polícias imigratórias da União Europeia também interferiram na segurança e bloqueio das rotas. Marrocos, Tunísia e Líbia receberam recursos de países europeus para intensificarem a vigilância de suas fronteiras.

Yimer foi preso pela polícia de Bengasi em casa e, revoltado, conta que “foram pessoas comuns que nos impediram de fugir. Eles passavam rasteiras na gente só porque éramos estrangeiros. Os motoristas abriam as portas dos carros para trancar nosso caminho. Umas senhoras colocaram todo tipo de objeto para dificultar nossa passagem. Eram nossos vizinhos. Foi pior do que ver a polícia nos caçando.”

A experiência dos cárceres líbios é para os refugiados um dos maiores traumas da viagem. Muitos não conseguem exprimir em palavras a experiência, outros contam o que se passou em flashes, é difícil reviver mentalmente aqueles momentos. Yimer tentou ser prático ao narrar esta etapa da viagem, mas assim como quase todos os imigrantes, não conseguiu. A primeira lembrança foi de que, apesar de tudo, teve sorte na prisão de Bengasi. Por lá passou apenas uma noite. Logo em seguida, o olhar do etíope fixou-se sob um ponto longínquo e tocando em algo que deixou marcas profundas disse que do presídio de Bengasi foi levado dentro de um container para o cárcere de Kufra, no meio do deserto. Ele dividiu a viagem sufocante de retorno ao Saara com Adam, um menino de apenas quatro anos.

Antes de partir para o deserto, Yimer pediu para pegar seus pertences e a resposta dos policiais foi violenta. O jovem foi espancado. Ninguém poderia levar uma peça de roupa além daquela que estava usando. Sapatos também eram vetados. Os prisioneiros deveriam ficar descalços, porque uma das torturas praticadas é fazer com que o detento permaneça de pé, durante as horas mais quentes do dia, sobre as areias escaldantes do Saara.

Quando foram presos na casa do traficante, ninguém explicou aos imigrantes o que estava acontecendo. Eles não sabiam para onde estavam sendo levados e nem por quanto tempo ficariam detidos. Nos cárceres líbios, quando a quantidade de presos atinge um determinado número estipulado pelas autoridades, os imigrantes são mandados para as prisões situadas no Saara. Esta é uma medida para esvaziar as prisões e contribui também com o trabalho dos contrabandistas e policiais, uma vez que o ciclo da viagem recomeçaria e os imigrantes deveriam pagar novamente pela travessia do deserto. Em Bengasi o número limite de detentos era de 110. Quando os etíopes foram capturados, o cárcere já contava com outros 100 presos, isso explica porque Yimer ficou apenas uma noite na prisão.

Na manhã seguinte, os detentos foram enfileirados e obrigados a entrar no container. Quando olharam, os jovens não acreditaram. Como percorreriam o deserto totalmente fechados, enclausurados, por mais de 20 horas? O meio de transporte com que dessa vez atravessariam o Saara era muito pior que os caminhões dos traficantes. Yimer não consegue disfarçar o terror quando relembra das horas dentro do container. Eles não sabiam, mas seriam levados para o centro de detenção de Kufra, na fronteira da Líbia com o Sudão. Todo o caminho e as dificuldades enfrentadas até ali foram em vão. O dinheiro gasto na viagem até a costa líbia tinha sido jogado fora, porque agora estavam mais uma vez distantes do Mediterrâneo. Por um dia e meio, ficaram trancados sem comida nem água, viajando pelo deserto. Yimer conta que pior do que a fome, era o barulho enlouquecedor do choque entre os ferros do caminhão e as areias do Saara. “O calor e aquele zumbido constante davam a impressão de que já havia enlouquecido, já não era mais um ser humano”. Tudo isso, somada a falta de circulação de ar, fez com que quase todos os passageiros ficassem inconscientes por alguns períodos. Na mesma situação de Yimer estavam nove mulheres e Adam, o menino de 4 anos. “Por que a brutalidade de prender aquela criança? Que mal uma mulher com seu filho fez para a sociedade? Eu, quando olhava para Adam, não me lamentava de nada, seria egoísta demais. Não vou esquecer nunca os olhos daquele menino. Ele nem sabia para onde a mãe o estava levando, imagina o que vai pensar quando crescer?”

Os momentos de maior tensão eram quando o motorista muçulmano parava para fazer suas orações. O caminhão era deixado sob o sol, fazendo com que o calor e a falta de ar aumentassem. Todos se agitavam dentro do container e a primeira coisa que faziam era levar a criança do grupo o mais próximo possível de um pequeno buraco nas portas. Conforme o tempo passava, a situação piorava, porque alguns levantavam e aqueles que estavam no fundo do furgão começavam a gritar. O ar não chegava mais até eles.

No cárcere de Kufra, em pleno deserto do Saara, poderiam comer apenas uma vez por dia, geralmente um punhado de arroz para ser dividido entre três ou quatro detentos. O sistema de distribuição de água para os prisioneiros era feito em barris, que chegavam às celas através de mangueiras. Para Yimer era só mais uma das humilhações que sofriam. O banheiro ficava no meio da cela e não havia privacidade ou papel higiênico. Apesar disso, os presos tentaram se organizar. Cortaram uma garrafa de plástico ao meio e, em uma das partes, separavam a água para o asseio, a outra serviria como copo para beber a água das mangueiras. O refugiado contou que prefere nem imaginar quantas vezes teriam trocado as duas partes e, bebido água num copo que minutos antes poderia ter sido usado para a higiene de algum outro prisioneiro. Os imigrantes sentiam que a vontade dos militares era que eles se convencessem de que não mereciam ser tratados como seres humanos. Como não havia janelas nas celas, todos procuravam manter-se a maior parte do tempo em pé, próximos das saídas de ar. A sujeira também fazia com que ninguém quisesse se deitar no chão para descansar. Os imigrantes se encostavam pelas paredes e adormeciam como dava. A temporada de Kufra durou apenas uma semana para Yimer. Aquele era o período de comemorações pelo aniversário do líder do país, coronel Khadafi. Nas cidades pelas quais a comitiva de festa passaria não deveria haver vestígio da existência de imigrantes: todos deveriam ser presos. Com blitz policial nas casas, comércios e fábricas, rapidamente todos os cárceres estavam cheios, inclusive o de Kufra. Era também o momento em que os militares ganhavam algum dinheiro com os estrangeiros.

No final daquela semana, os policiais colocaram os prisioneiros em fila e os deixaram em exposição para os contrabandistas. Todos foram vendidos. “Os traficantes chegaram, contaram quantos éramos e ofereceram 30 dinares (18 euros) por cada um. Somos mercadorias, somos o lucro dos militares. Por isso toda essa coisa de nos levar para a cadeia e nos trazer de volta para o deserto”, concluiu Yimer. Os policiais mandaram todos de volta para celas e, durante a noite, carregaram as camionetes com os prisioneiros. A estratégia era fingir que aquela era uma missão de deportação. Ao invés disso, quando saíram da cidade os estrangeiros foram abandonados em algum ponto do deserto pré-estabelecido com o traficante.

O novo proprietário dos imigrantes chegou após algumas horas e esclareceu a situação: quem quisesse tentar novamente a viagem para a costa, em Trípoli ou Bengasi, deveria pagar US$ 300. Aos que não concordassem seriam necessários, no mínimo, US$ 50 para que fossem liberados. “Somos vendidos como escravos. É tudo um jogo, uma armadilha, porque você não pode voltar para trás, já que estamos no deserto e ninguém te levaria embora. Mesmo para os que escolhem voltar para casa, ninguém lhes dá essa oportunidade”, denuncia Yimer.

Havia quem tivesse enfrentado esse ciclo até por sete vezes: foram vendidos, pagaram a viagem, foram presos, devolvidos para o deserto em Kufra, vendidos novamente. Muitos refugiados contam que foram comprados por contrabandistas que os traíram outras vezes e se recusavam a viajar com eles. Quando isso acontecia, tinham que pagar o mínimo de US$ 50 para ganharem a liberdade. Yimer não foi enganado e chegou a Trípoli depois de alguns dias. Uma vez desembarcado na costa mediterrânea, o jovem e os poucos companheiros que ainda restaram do seu grupo procuraram o mais rápido possível embarcar para Lampedusa, a ilha italiana situada no outro lado do Mediterrâneo.

Quando os imigrantes entram em Trípoli a peregrinação até a Europa começa a se transformar numa sensação de euforia, de quem está quase chegando. O último desafio seria enfrentar o mar, depois disso já estariam em solo europeu. Atualmente, o mesmo Mediterrâneo vê conectadas suas duas pontas por um gasoduto que percorre, nas profundezas, o mesmo caminho que os barcos clandestinos. Tanto o gás e o petróleo, como os imigrantes, serviram de moeda de troca nas relações de Khadafi com os países europeus. A primeira assinatura do contrato de cooperação no combate ao terrorismo, tráfico de drogas e imigração ilegal da Líbia com a Itália foi em 2000 e levou Khadafi a romper relações com seu vizinho Sudão e fechar militarmente as fronteiras dos dois países, situadas no Saara. Dali em diante, os sudaneses que sempre procuraram trabalho temporário do outro lado do deserto teriam que se sujeitar aos postos de controle de imigrantes. A rota dos imigrantes subsaarianos passou a ser controlada e manipulada pelos homens de Khadafi. Em troca, foi iniciada a campanha italiana para que o embargo da ONU contra a Líbia chegasse ao fim. O que de fato aconteceu em 2004, as últimas sanções ao comércio e às relações diplomáticas com a Líbia caíram naquele ano. Entre outubro de 2004 a março de 2005, mais de 1500 imigrantes foram expulsos da Itália para os centros de detenção na Líbia.

Das pessoas que partem da Líbia e da Tunísia em direção à Sicília, 12% não chegam à Europa. Algumas caem no mar, outras são jogadas, há aquelas que morrem de fome e sede perdidas na rota pelo Mediterrâneo. Ao voltar para Trípoli a única coisa que Yimer buscava era fugir dali o quanto antes. O jovem ligou pedindo US$ 1.300 a seu pai para pagar o contrabandista que organizaria o embarque para Lampedusa. Foram 30 dias à espera.

Após os acordos assinados entre a Itália e a Tunísia para o controle da imigração ilegal, a rota do Mediterrâneo foi transferida para a Líbia e ali o tráfico de imigrantes ganhou traços de uma grande empresa. O número de passageiros por embarcações aumentou, uma vez que os contrabandistas contam com a proteção dos policiais e não precisam disfarçar a saída. Os intermediários procuram reunir o máximo de pessoas por viagem para ganharem mais, com os mesmos custos. As travessias podem ser feitas até por 300 imigrantes. Os barcos, porém, continuam sendo os mesmos que saiam das praias de Sfax, na Tunísia. A cidade é a segunda mais importante do país e tem sua economia baseada na pesca e na produção e exportação de óleo de oliva. Nos últimos anos os pescadores encontraram mais uma forma de sustento: os barcos e canoas fora de uso, por não estarem em condições seguras para enfrentar o mar, são vendidos aos traficantes líbios. Além disso, a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, de 1982, instituiu a obrigatoriedade das guardas costeiras prestarem socorro a qualquer vida em perigo nas águas territoriais. Os contrabandistas, sabendo disso, passaram a lançar em alto-mar embarcações sem condições de completar a viagem.

Enquanto os etíopes viajavam, a Caritas relatou que pelo menos 677 corpos estariam dispersos no fundo das águas mediterrâneas. Quando aparece ao longe, a ilha siciliana emociona os imigrantes. É para muitos o mito que perseguiram nos últimos meses. Desde que saíram de seus países, atravessaram o deserto e enfrentaram a Líbia, Lampedusa era vislumbrada como a única esperança. “Alguns morreram, outros se perderam pelo caminho, mas nós estávamos ali. Os europeus fazem um jogo maquiavélico com os imigrantes. A impressão que eu tenho é como se tudo fosse um teste para que na Europa entrem apenas os mais fortes, aqueles que conseguiram ultrapassar todas as fases”, conclui Yimer.

A situação na Líbia após a derrocada e o assassinato de Khadafi é ainda mais instável e os imigrantes continuam a mercê de contrabandistas e traficantes, agora não apenas do governo, mas também da oposição. O Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) estima que no final de 2014 eram cerca de 59,5 milhões o número de deslocados à força – desse total, 86% estão abrigados em países pobres e menos de 4% na Europa Ocidental. Da guerra civil na Síria, por exemplo, a Acnur aponta que antes de chegarem na Europa a maioria dos refugiados passa meses ou anos nos campos da Turquia ou do Líbano, ambos em situações cada vez mais difíceis. Ambos servindo de moeda de negociação política. Enquanto os países desenvolvidos ainda bloqueiam a chegada dos imigrantes e a política comum de acolhimento e gestão do fenômeno reflete em policiais atirando em crianças nas fronteiras, a violência para selecionar os refugiados que conseguirão passar por essas barreiras e conseguir o status humanitário na Europa é cada vez maior, com ou sem a demagogia xenófoba de cada país.

Este texto é uma versão modificada de trabalho publicado originalmente no livro Entrada proibida: uma história do combate à imigração africana na Itália. Rio de Janeiro: Multifoco, 2011.