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27 de janeiro de 2026

Com a palavra, o autor

 Graziele Frederico

As entrevistas são acompanhadas por ilustrações dos autores realizadas por Francisco Dalcastagnè Miguel. Da esquerda para direita: Giovanni Ricciardi, Lygia Fagundes Telles, Antônio Torres, Rachel de Queiroz.

Em uma de suas crônicas no Jornal do Brasil, respondendo a um leitor de Cabo Frio sobre como ela via o ofício de escritora, Clarice Lispector respondeu que, “lado a lado com o desejo de defender a própria intimidade, há o desejo imenso de me confessar em público e não a um padre”. Corria o ano de 1968. Uma década mais tarde, como Carmen Villarino Pardo registrou no artigo “Encontros de escritores nos finais da década de 1970”, muitos autores buscaram expor a própria trajetória como meio de aproximação com o público e atração de mais leitores para a própria obra. Em tempos de inteligência artificial que recombina informações para gerar produtos discursivos, um novo projeto do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea busca trabalhar justamente com a materialidade da escrita sob o ponto de vista do fazedor de textos literários, o escritor.

O Mapeamento crítico da autoria brasileira contemporânea nasce a partir da doação de um vasto acervo de entrevistas com escritoras e escritores brasileiros realizadas entre 1986 e 1992. O pesquisador, professor e brasilianista italiano Giovanni Ricciardi, cedeu ao grupo 105 entrevistas que realizou com autores brasileiros sobreviventes e recém-saídos da ditadura militar. Os escritores foram chamados a responder um questionário baseado em três eixos principais: formação, ato da escrita e recepção dos textos publicados; por fim, eram convocados a traçar um autorretrato. 

Se num primeiro momento, o projeto está organizando o material que será disponibilizado na plataforma Praça Clóvis; em seguida faremos um novo levantamento para seleção de autores a serem entrevistados e uma busca por outros arquivos e materiais produzidos no Brasil e no exterior com entrevistas que possam complementar essa cartografia crítica.

Seguindo a tradição das pesquisas e levantamentos realizados pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea ao longo das últimas décadas, mapear como se dá e quais são os elementos que compõem a perspectiva social e visão de mundo dos autores se apresenta como instrumentos adicionais nas discussões sobre representação e representatividade do campo literário, sem determinar que expliquem textos e obras dos autores. 

Antonio Callado, por exemplo, contou em entrevista a Ricciardi, que escreveu Quarup para explicar o Brasil a si mesmo e, se possível, aos outros. Antonio Torres respondeu que para ele a escrita é “como um serviço, uma coisa socialmente útil”. Na sua visão, justamente num país com índices de analfabetismo “alarmantes”, a escrita é um valor, porque ele se lembrava da emoção da população de Junco ao vê-lo recitar poesia quando criança, ou quando o chamavam para escrever e ler as cartas que chegavam, ou ler o livro de rezas durante um funeral. “Eu sempre quis sair daquele mundo para servir um pouco melhor àquele mundo. O Brasil está cheio de mundos em volta.” 

Caio Fernando Abreu disse que escrevia para ter uma ilusão, “reorganizar o universo, alguma coisa assim, inteiramente pessoal”. No entanto, quando questionado sobre a literatura brasileira da época, ele também aponta para a escrita em seu âmbito social: “[com algumas exceções] a literatura é muito comportada. Está ainda preocupada com as tias, há muitas tias na ficção brasileira, tem muito casarão, tem muito amor impossível, tem muito pouca carne, pouca sexualidade, pouca rua. Eu sinto ela meio dissociada da vida real do brasileiro.” 

Recuperar e mapear as entrevistas de Giovanni Ricciardi nos permite uma sistematização dos imaginários coletivos que permeavam o campo literário numa época bem específica: os anos iniciais da redemocratização do país. É importante destacar que dos 105 entrevistados, apenas 34 permanecem vivos, o que nos coloca diante de uma memória literária preservada e da restituição de reflexões e posicionamentos de diversos autores daquele período. Um elemento em comum para a formação de quase todos os escritores, que em muitos casos representou também um tema para as obras, foi o êxodo da periferia para o centro. Em seus estudos, a partir das respostas que recebeu, Ricciardi chega a comparar à mudança para as capitais do país e especialmente para Rio de Janeiro e São Paulo, com o papel que a corte exerceu em boa parte dos autores europeus no século XIX. O deslocamento para os centros culturais foi determinante na construção de inúmeras carreiras.

Ele dividiu os entrevistados em três gerações: os nascidos de 1906 até 1927, entre eles, Cyro dos Anjos, Antonio Callado, Jorge Amado, João Cabral de Melo Neto, José J. Veiga, Mário Quintana, Lêdo Ivo, Salim Miguel e outros. A segunda geração contou com aqueles que nasceram entre 1928 e 1948, compondo o grupo mais numeroso de entrevistados e que para o pesquisador, representavam boa parte dos protagonistas da literatura dos anos 1970 e 1980: Ferreira Gullar, Ivan Ângelo, João Antônio, Ignácio de Loyola Brandão, Antônio Torres, Roberto Drummond, Sérgio Sant’Anna, Lya Luft, Augusto de Campos, Adélia Prado, Moacyr Scliar, Luiz Antônio de Assis Brasil, João Ubaldo Ribeiro, Márcio Sousa, Silviano Santiago, Nélida Piñon, Carlos Nejar, mas não só. Por fim, o último grupo seriam os nascidos após 1949. Entre eles estavam Chacal, Domingos Pellegrini, Deonísio da Silva, Caio Fernando Abreu, etc. 

Um elemento de mudança nas respostas entre as gerações foram as profissões exercidas pelos pais. Ricciardi explica que a partir da segunda geração, “começa a aparecer algum pai operário, lavrador, barbeiro, quitandeiro, a mãe antes dona do lar, agora aparece também como comerciante, professora, advogada, dentista, operária, cabeleireira, costureira”. Se João Ubaldo Ribeiro afirmou que na sua época havia apenas três opções para os cursos universitários: Direito, Engenharia ou Medicina, com o tempo os autores começaram a optar também pelos cursos de Letras, Comunicação, Farmácia e Filologia. Muitos trabalhavam como jornalistas. Uma constante nas respostas foi a necessidade de uma segunda profissão para o próprio sustento e a liberdade que boa parte adquiriu quando conseguiu a aposentadoria por outro trabalho e pôde se dedicar à literatura, sem necessariamente contar com uma renda a partir do que escrevia.

É interessante notar a preocupação do brasilianista na busca por escritores e escritoras que representassem o campo literário nacional, tentando equilibrar ou tensionar a questão da representatividade geográfica. Nos sete volumes em que reuniu as entrevistas – Biografia e criação literária -  o primeiro foi dedicado aos autores que compunham a Academia Brasileira de Letras na época. Em seguida, tivemos as entrevistas com escritores de São Paulo, o terceiro volume contou com a série de autores mineiros, o quarto com representantes de Goiás, o quinto trouxe os escritores do Rio de Janeiro, o sexto, as conversas com autores do Norte e Nordeste, finalizando a coleção com 19 entrevistas de escritores do Sul do país. 

Se a preocupação com questões raciais não foram colocadas neste trabalho, o pesquisador decidiu dedicar duas perguntas para as mulheres: “A profissão de escrever ajudou ou ajuda na descoberta de si própria como mulher?” e “Existe no país a escrita, enquanto texto, feminina?”.

 No total dos 105 entrevistados, Ricciardi conversou com 17 mulheres: Adélia Prado, Anna Maria Martins, Edla van Steen, Helena Parente Cunha, Julieta Godoy, Lya Luft, Lygia Fagundes Telles, Márcia Denser, Maria Alice Barroso, Marina Colasanti, Myriam Fraga, Nélida Piñon, Olga Savary, Patrícia Bins, Rachel de Queiroz, Sônia Coutinho e Tânia Jamardo Faillace. Rachel de Queiroz respondeu que com o surgimento de grandes nomes da literatura brasileira, como Lygia Fagundes Telles e Cecília Meireles, havia uma literatura escrita por mulheres que era sólida e séria e por isso, “nem podia mais ser chamada de literatura feminina, mas apenas de literatura”. Lygia Fagundes Telles explicou que não dividia a literatura em masculina ou feminina, mas reconhecia que talvez as mulheres pudessem trazer características diferentes na escrita, o que de algum modo esteve também presente na resposta de Tânia Jamardo Faillace. Segundo ela, “ser mulher e fazer qualquer outra coisa que não seja cuidar do lar é muito difícil em países como o Brasil. Até hoje me sinto discriminada. Os livros das mulheres são menos divulgados e vendidos que os dos homens. Muitos cursos de Letras, inclusive em Porto Alegre, ignoram a literatura feita por mulheres. Eu mesma já fui barrada em participar de jornadas com estudantes na década de 60, por não ser casada”.

Da esquerda para direita: Antonio Callado, Adélia Prado, Caio Fernando Abreu, Salim Miguel. Ilustrações de Francisco Dalcastagnè Miguel.

Considerando que a entrevista é o principal gênero discursivo do projeto, é interessante recuperar o clássico livro de Cremilda Araújo Medina, Entrevista: o diálogo possível, publicado em 1986, para recordar algumas premissas importantes. Como explica Medina, nas suas diferentes aplicações nas Ciências Humanas, a entrevista é uma “técnica de interação social, de interpenetração informativa, quebrando isolamentos grupais, indivíduos sociais” e sendo ela uma interação simbólica que se dá através da linguagem, é impossível omitir a perspectiva social do próprio entrevistador, especialmente quando este é um especialista, como é o caso desse projeto. Mesmo assim, como destaca Medina, isso não impede que o entrevistado seja tratado como um outro e não “como isto”. 

Um exemplo interessante é o relato que Ricciardi faz sobre a surpresa que teve com os resultados de suas entrevistas para a questão: “Houve em sua vida uma encruzilhada que o marcou determinadamente?”. A fórmula da pergunta foi uma versão delicada da questão que ele pretendia fazer sobre como o golpe de 1964 tinha atingido a vida dos autores. Dos 105 entrevistados, dois deixaram de responder, Adélia Prado disse que não poderia dizer, 11 negaram ter vivido qualquer encruzilhada e 48 responderam citando momentos íntimos e eventos pessoais: doenças, perdas de um ente querido, viagens ao exterior, mudança de cidade, filiação a um partido político, a publicação do primeiro livro, conversão religiosa, o abandono da música pela literatura, casar e descasar. Ricciardi confessou que, “estava convencido, talvez por gostar muito de Gramsci, que todos responderiam: o golpe de 1964!”. Apesar de não representarem a maioria, 40 autores consideraram a ditadura um marco profundo.

No geral, as entrevistas trouxeram muitos autores preocupados com as desigualdades sociais no país e no continente latino-americano. Em muitas respostas, viu-se também um movimento de ponderação aos projetos mais marcadamente ideológicos. Alguns inclusive, como Manuel de Barros, mas não só ele, apresentam uma reflexão sobre um certo fracasso das literaturas forçadamente engajadas. Para Ricciardi, tantas obras têm resistido no tempo e ao tempo porque o autor desobedeceu – ainda que involuntariamente – à própria ideologia. Salim Miguel, quando convocado a traçar um autorretrato, afirmou que para ele, “o escritor, por mais que pareça estar mexendo e tratando de temas bastante diversificados, reelabora sempre os seus mesmos fantasmas”. Se autoras e autores são de fato um unicum, com suas inúmeras particularidades, temas e linguagens, o brasilianista destaca que a diferença entre escritores e escreventes é o modo como articulam as palavras em uma espécie de inspiração, que ele próprio, estudioso, dizia não ter. 

Então, recuperar e mapear entrevistas com escritores da literatura brasileira contemporânea é insistir em reafirmar as digitais humanas nessa produção discursiva. Lembrando que, apesar do indiscutível protagonismo do texto literário no exercício da crítica, “a literatura não se faz in vitro”, como há muitas décadas ensinava a brasilianista e professora da Universidade La Sapienza di Roma, Luciana Stegagno Picchio.

3 de dezembro de 2025

Praça Clóvis: um lugar de encontro com a literatura brasileira contemporânea

Regina Dalcastagnè 

Ilustração de capa do portal Praça Clóvis, de Francisco Dalcastagnè Miguel

Ilustração de capa do portal Praça Clóvis, de Francisco Dalcastagnè Miguel



A pesquisa e a crítica literária costumam ser entendidas como atividades solitárias. Fazemos a leitura do livro e em seguida o analisamos, dialogando apenas com outras obras, teóricas ou ficcionais, mas todas já prontas, sem espaço para questionamentos diretos ou dúvidas. Não é exatamente assim que as coisas acontecem, é claro, especialmente no meio acadêmico, onde a crítica nasce, muitas vezes, do debate em sala de aula, com enfrentamentos que passam por uma multiplicidade de interpretações, acolhendo diferentes perspectivas sociais e abordagens teóricas. 

De qualquer forma, volta-se, ao final, para a escrita. É na escrita que concretizamos o conhecimento e ela é uma atividade solitária, especialmente se não houver um retorno. 

"Se uma árvore cai na floresta e ninguém está perto para ouvir, ela fez barulho?", se perguntavam os filósofos. Mas, "se eu faço uma pesquisa, publico um texto e ninguém lê, foi produzido conhecimento?" Talvez seja essa nossa principal aflição. O que fazer para que nossas pesquisas atinjam um público maior e adquiram relevância? Para que elas cumpram sua função? Mesmo que seja a de não permitir que um determinado autor, uma determinada língua, se perca na terrível máquina picotadora da História. 

Penso que é possível ampliar o interesse em nossas pesquisas tanto dentro do meio acadêmico quanto em suas cercanias. Mas é necessário estabelecer estratégias diferentes para isso. Talvez incorporar aos nossos estudos outras produções literárias sobre as quais costumamos ter preconceitos. Mas também podemos ir para além do livro e incluir a reflexão sobre o próprio campo literário, em um debate aberto com os seus agentes – livreiros, bibliotecários, editores, tradutores, booktubers, os próprios autores. Com isso, as possibilidades de trabalho também se expandem, exigindo novas metodologias e permitindo aproximações inesperadas. 

Ilustração de Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, por Ruben Zacarias.



EXPERIÊNCIA 


Apresento, então, a experiência da construção do portal Praça Clóvis: mapeamento crítico da literatura brasileira contemporânea, um projeto que parte da ideia de que não temos que trabalhar sozinhos, que somos muito melhores quando somamos nossas forças, quando ousamos olhar juntos o mundo ao redor e imaginar novas perguntas e outras respostas possíveis, quando entendemos que nosso objeto de estudo cresce quando juntamos nossas habilidades, nossas ferramentas, para compreendê-lo. 

O Praça Clóvis é um site que pretende mapear o que se produziu de mais significativo em termos literários no Brasil dos anos 1970 aos dias de hoje, livros e autores muitas vezes esquecidos, uma vez que os estudiosos da literatura contemporânea costumam ser impelidos em direção à obra mais recente, à próxima obra-prima, esquecendo escritores que passaram 20, 30, 40 anos pensando o Brasil e ampliando os recursos estéticos para falar sobre ele. 

Visite nossa praça: https://pracaclovis.com/ 

Ilustração de As mulheres de Tijucopapo, de Marilene Felinto, por Carolina Vigna.



METODOLOGIA 


O site é um projeto colaborativo, mais de trezentas pessoas estão envolvidas, até o momento, em sua montagem e disponibilização. É um trabalho imenso, que envolve não só a busca por informações, mas também um compromisso social e político, seja com a universidade pública brasileira, a partir do empenho na formação de novos pesquisadores, seja com os diferentes agentes do campo literário do país, que, informados de suas escolhas e seus vieses, podem buscar soluções que julguem necessárias. 

Em sua primeira etapa, disponibilizada em maio deste ano, o site reuniu 230 resenhas críticas de romances, sempre acompanhadas de ilustrações feitas especialmente para elas por artistas de todo o país e do exterior. A ideia era chamar a atenção para um grande conjunto de obras que estão deixando de ser lidas, seja porque não são reeditadas, seja porque o volume de novas publicações lança uma sombra sobre elas, seja porque o esquecimento é uma marca dominante na cultura nacional. O que não significa que esses livros e autores/as não tenham ainda muito a nos dizer. 

Não há a intenção de abarcar toda a produção do período, mas atuar na seleção e reflexão sobre nossa literatura. Buscando escapar das ausências que notamos nos dados dos levantamentos anteriores realizados pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, estabelecemos uma série de critérios para a seleção dos livros. 

Um deles é a representatividade das obras dentro de determinadas correntes estilísticas, temáticas e mesmo políticas. Outro, é o critério que envolve a representatividade regional, de períodos e de autoria. Por uma série de indicadores, sabemos que a literatura brasileira está muito concentrada no Sudeste – em especial, no Rio de Janeiro e em São Paulo. A pesquisa tem a preocupação de reduzir este efeito, abrangendo obras importantes das diferentes regiões e unidades da federação. 

Também buscamos observar um equilíbrio entre os diferentes períodos de publicação, evitando, por exemplo, um volume maior de resenhas sobre livros publicados nos últimos anos. E, em relação à autoria, está sendo dada uma atenção especial à produção de grupos minorizados, que costumam ter menor espaço de divulgação, como os negros, indígenas, LGBTs, moradores de periferia. 

Um critério adicional é a repercussão dos livros escolhidos junto a críticos, leitores e outros produtores literários. Não são critérios infalíveis, é claro. Mas não pretendemos criar um corpus canônico para a literatura brasileira contemporânea, apenas abrir caminho para uma sistematização possível. 

Ilustração de A ocupação, de Julián Fuks, por Léo Tavares.



EXPANSÃO 


Em sua segunda fase, que já está em andamento e será disponibilizada em breve, o projeto visa ampliar a abrangência do mapeamento, logo do portal, incluindo outros romances, outros gêneros literários, como o conto, a poesia, a dramaturgia, as memórias, além de entrevistas com escritores do período (a partir do acervo disponibilizado pelo pesquisador italiano Giovanni Ricciardi de uma centena de entrevistas realizadas por ele nos últimos anos do século XX com os principais autores brasileiros da época). 

Haverá ainda levantamentos sobre o funcionamento do campo literário brasileiro (passando por uma reflexão sobre o mercado editorial, as livrarias, a crítica, as feiras literárias etc.) e discussões sobre a tradução, edição e recepção da literatura brasileira contemporânea no exterior – inicialmente, serão trabalhados Itália, França, Reino Unido, Alemanha, República Tcheca, Japão, Estados Unidos e Argentina. Junto a isto, estamos disponibilizando traduções das resenhas para diferentes línguas, incentivando, assim o estudo da língua portuguesa e de nossa literatura no exterior. 

Também estamos abrindo um espaço para os professores, buscando o necessário diálogo entre a universidade e as escolas. Há um formulário, aqui, que pode ser usado para sugestões e outras conversas. 

É comum compreender as praças como dispositivos que tornam o espaço das cidades muito mais acolhedor. O acesso às praças também costuma ser reconhecido como a materialização do direito humano à cidade, enquanto espaço livre de inclusão social. A praça é um espaço público de circulação, de lazer, de encontro e convívio para os usuários que por ela passam. Com o tempo, seus frequentadores reconhecem nela um espaço de pertencimento, um lugar que permite a construção de uma memória coletiva. De forma análoga, e considerando a literatura como um direito humano, o projeto Praça Clóvis – nome que homenageia também uma canção de Paulo Vanzolini – pretende reproduzir esse espaço comum no ambiente virtual. 

Ilustração de Ikamiabas, de Regina Melo, por Espírito Objeto.



Em função dos próprios critérios estabelecidos para a seleção das obras e dos assuntos a serem discutidos, esse projeto tem um caráter inclusivo. Busca-se tensionar o cânone, evitando os mecanismos que naturalizam obras e autores como pretensamente representativos, ao passo que produzem o apagamento de toda uma literatura produzida à margem, que não se beneficia dessa dinâmica.

Estamos, assim, intervindo em uma discussão que não é de hoje sobre a distorção de perspectiva que faz com que muito do que se pensa e se produz seja apagado do retrato convencional da literatura brasileira (e não só dela). Em 1904, Euclides da Cunha escrevia ao seu pai desde Manaus, capital do Amazonas: “a mais consoladora surpresa do sulista está no perceber que este nosso Brasil é verdadeiramente grande porque ainda chega até cá. Realmente, cada vez mais me convenço de que esta deplorável Rua do Ouvidor é o pior prisma por onde toda a gente vê a nossa terra”. 

A crítica mordaz do autor apontava o risco de se reduzir a percepção sobre a realidade do país a essa perspectiva tão estreita – o Rio de Janeiro dos intelectuais do início do século XX (somando-se à elite da São Paulo dos dias de hoje, acrescentaríamos). Dizer que o Brasil chega muito mais longe do que costumamos imaginar é pouco se não nos esforçarmos para ir até lá. 

O site Praça Clóvis apresenta, assim, um convite para aprofundar a reflexão coletiva sobre a literatura brasileira contemporânea, com a disponibilização pública de um acervo ampliado de informações e de leituras sobre a produção do período, reforçando o vínculo entre escrita, crítica, mercado e campo literários – e com a sociedade brasileira. 

O projeto mantém ainda um perfil no Instagram (@pracaclovis), um podcast no Spotify e uma newsletter no Substack.

Ilustração de Dois irmãos, de Milton Hatoum, por Kléber Sales.