28 de julho de 2017

É agora como sempre

Nívia Maria Santos Silva


Imgem: Robert Rauschenberg, Untitled, Tate Modern

Recentemente, a editora Companhia das letras lançou uma antologia de poetas brasileiros contemporâneos, É agora como nunca (2017), organizada pela cantora e compositora Adriana Calcanhoto. O título é um verso tirado de um dos poemas finais da antologia, “Ponteiro”, de Laura Liuzzi, publicado originalmente no livro Desalinho (2014), lançado pela saudosa Cosac Naify. Em seu subtítulo a antologia se promete: “antologia incompleta da poesia contemporânea brasileira”. A orelha, por sua vez, fala dos riscos que corre Calcanhoto “Ao apresentar esta reunião de 41 poetas brasileiros contemporâneos, instantâneos, novos, novíssimos”. O compromisso que ela assume não é a de uma especialista, mas a de uma “leitora especial – diletante e delicada”.
Não vou entrar na linha dos que rechaçam o livro por ter sido escrito por uma cantora e compositora, penso que ela já pagou pedágios suficientes para tanto, nem vou fazer a vez dos ressentidos por não terem os seus escolhidos na reunião de poetas aí elencados. Antologiar é selecionar, é escolher e, consequentemente, excluir. Daí a incompletude ser essência e não circunstância das antologias. Diante disso, o subtítulo se mostra redundante uma vez que toda antologia é uma reunião que parte de escolhas, muitas vezes, carregadas de subjetividade. Por isso, me incomoda a quantidade de ressalvas presentes na capa, na orelha, na apresentação. É possível fazer uma antologia que seja completa?
Fica evidente que a insistência com que pede desculpas é uma estratégia para atenuar possíveis críticas e diminuir o impacto das ausências. A impressão que passa é a de que não se deve exigir tanto do livro, afinal ele não passa de um “livro de férias” escrito por uma cantora. Será? Esse discurso da modéstia, e até de certo desinteresse, é o que me preocupa na antologia, pois, por mais que queira passar o ar de ser um livro “pessoal, intransferível, autoral”, ele é um registro desse “instantâneo da poesia brasileira agora” e, enquanto registro, sublinha nomes e demarca geografias.
A despretensão que acompanha É agora como nunca não condiz com a força comercial da editora Companhia das Letras que o publica, lança e distribui nacionalmente, nem com a visibilidade que a artista Adriana Calcanhoto dá à obra, pois ela, não só por causa de produções como o excelente Fábrica de poemas (1994), tem um nome conhecido e reconhecido como ponto de intersecção entre o campo da música e o campo literário, dos quais é uma habitué e uma das responsáveis, na contemporaneidade, por misturar esse caldeirão da letra de música e do poema num diálogo e, por vezes, numa fusão tão homogênea que não se sabe mais o que é o ferro ou o que é o carbono.
O que quero dizer é que o fato de Calcanhoto não ser uma “especialista” não conta como algo negativo, e sim aumenta ainda mais o apelo comercial da obra e seu alcance, já que amplia o público alvo para além dos muros da academia. É quase certo que nenhum dos poetas eleitos por ela vendeu tantos livros quanto ela vendeu CDs ou até mesmo seu divertido livro de crônicas, Saga lusa (2008), que escreveu em Portugal. O discurso da despretensão não consegue apagar também o fato de que a Companhia das letras atua como uma instância reguladora do meio, nem a realidade de que as antologias, historicamente, são importantes não só por afirmar e divulgar a existência desses ou daqueles poetas, mas, sobretudo, por atribuir-lhes uma chancela.
Não podemos nos esquecer, por exemplo, da importância de antologias como 26 poetas hoje (1976) e Esses poetas (2001), da atuante professora e crítica literária Heloísa Buarque de Holanda, nas quais se publicaram nomes como Francisco Alvim, Antonio Carlos de Brito (Cacaso), Capinan, Waly Salomão, Ana Cristina Cesar, Antonio Cícero, Carlito Azevedo, Ricardo Aleixo. A editora Objetiva, que hoje faz parte do grupo Companhia das letras, também lançou antologias que viraram referência, como Os cem melhores contos brasileiros do século e Os cem melhores poemas brasileiros do século, ambas organizadas pelo professor, crítico e poeta Ítalo Moriconi e lançadas em 2001. Além de selecionar e divulgar, ainda traziam na capa um juízo de valor, aqueles ali elencados eram os melhores do século, no caso, do século xx.
Curioso que, no mesmo ano, a editora Geração editorial também se aventurou a fazer uma antologia que reunisse os melhores do século passado, mas em vez de apostar nos poemas, intitulou a obra de Os cem melhores poetas brasileiros do século (2001), organizada pelo jornalista e poeta José Nêumanne Pinto. Como toda antologia é relativa, há poetas considerados melhores do século por Nêumanne que não têm poemas na antologia de Moriconi, como Bruno Tolentino, Ildásio Tavares e Orides Fontela, assim como há autores de poemas considerados melhores do século por Moriconi que não figuram na lista de Nêumanne, como Torquato Neto, Gilka Machado e Zila Mamede.
Em comparação com essas e outras antologias, como a coleção Roteiro da poesia brasileira, da editora Global, uma das coisas que fazem falta em É agora como nunca é a existência de um ensaio introdutório ou pelo menos de um texto de apresentação de maior fôlego. Talvez essa falta apenas seja coerente com a proposta de ser apenas a listagem de uma leitora “não acadêmica ou crítica”. Cabe destaque ainda a notável semelhança entre as capas de É agora como nunca e Os cem melhores poemas brasileiros do século. Além de ambas terem passado a ser do mesmo grupo editorial, a disposição dos nomes dos autores eleitos na capa e as cores em amarelo e azul fazem com que o despretensioso “livro de férias” lançado em 2016 remeta à pretensiosa seleção dos melhores lançada em 2001, dando um ar de continuidade ou, pelo menos, de sequência. Só que, enquanto a antologia de Moriconi diz abertamente para o que veio, a de Calcanhoto, por trás do mea culpa, parece querer disfarçar a sua importância e abrangência.
O que quero acentuar é que, por mais que haja critérios técnicos ou não ou que o antologista seja ou não um “especialista”, toda antologia, uma vez publicada, ainda mais se for por uma editora de peso, não é apenas uma “lista de preferidos”, é a formação de uma referência e, nesse caso particular, uma referência para se ler a literatura contemporânea, o que tem como efeito direto ou indireto a hierarquização e a valoração daqueles que passam a existir por meio dela e a ressoar, em alguma medida, na formação de novos poetas. Antologias publicadas viram testemunhos de época. A tarefa do antologista é criar uma espécie de catálogo, guia, inventário, por mais que pareça querer, Calcanhoto não pode fugir dessa responsabilidade.
Ao falar de responsabilidades, não posso deixar de realçar que positivamente a antologia colocou muitas poetas em cena. Apesar do placar continuar pendendo para eles, 18 mulheres e 23 homens, isso é de se comemorar. Não digo com isso que o gênero seja ou deva ser critério de escolha, mas que ele, assim como a etnia, a orientação sexual e a naturalidade, não deve ser critério de exclusão.
Não posso deixar de destacar também o quanto é sintomático na antologia de Calcanhoto a quantidade de poetas vinculados a uma só editora, 7Letras, e como não me causa estranhamento que a maioria dos escolhidos seja de um mesmo local do Brasil, Rio de Janeiro. Isso mostra a força da editora carioca que começou suas atividades em 1990, chegou a ter uma influente revista literária, Inimigo Rumor (1997-2007), e vem acumulando reconhecimento de público e crítica, apresentando um catálogo dedicado à literatura, sobretudo aos livros de poesia, através dos quais investe em novos poetas.
Essa força do mercado pode explicar um dos porquês de o Rio de Janeiro ter feito tanto volume na antologia. Entretanto, perceber que a centralização em uma localidade do Sudeste não se atenuou é um tanto desapontador, ainda mais num momento histórico em que a poesia se expandiu para além do livro e a internet diminuiu distâncias, podendo ser uma ferramenta para uma seleção mais ampla daquilo que se propõe nacional, principalmente algo organizado por alguém que é apresentada como uma leitora que “acompanha com entusiasmo a produção poética brasileira de hoje”.
Não é como a antologia da FUNARTE, 41 poetas do Rio (1998), sob a organização de Moacyr Félix, que tinha por objetivo se circunscrever a poetas que residiam no Rio de Janeiro. É agora como nunca se apresenta como um recorte da poesia contemporânea brasileira. Talvez o problema esteja novamente no subtítulo da referida antologia, pois, se é óbvia ao se confessar incompleta, é inconsequente ao se presumir nacional.
Por isso me preocupa a sua suposta despretensão. Vendida como “livro de férias”, a antologia é um mapeamento da poesia contemporânea mais recente que vai para as salas de escolas e universidades, foi inclusive lançada em Portugal pela editora Cotovia, uma das parceiras da 7Letras na Inimigo Rumor. Não por ser algo particular, mas por ser algo que se tornou público, mesmo que o livro não queira entrar na seara do debate acadêmico, ele instiga diversas discussões que vão além do irrefletido “por que esse e não aquele poeta?” ou do preguiçoso julgamento “isso não é poesia!”.    
Algumas coisas continuam agora como sempre. Cabe a nós leitores problematizá-las. Este texto existe não para questionar a importância da antologia É agora como nunca, mas por perceber nela mais importância do que ela mesma se dispõe a oferecer. Afinal de contas, toda antologia é uma convocação à leitura.

REFERÊNCIAS

CALCANHOTO, Adriana. É agora como nunca: antologia incompleta da poesia contemporânea brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

HOLANDA, Heloísa Buarque. 26 poetas hoje. Rio de Janeiro: Editora Labor, 1976.

_____________. Esses poetas: uma antologia dos anos 90. Rio de Janeiro: Aeroplano Editora, 2001.  

MORICONI, Ítalo. Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

_____________. Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

Nêumanne Pinto, José. Os cem melhores contos brasileiros do século. São Paulo: Geração editorial, 2001. 

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