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23 de abril de 2026

Ditaduras em looping

 Bruno Bucis

Calçada com mosaico em homenagem a Evangelina Carreira e Daniel Hopen em Buenos Aires


24 de março. 1º de abril. 1976. 1964. As ditaduras militares vividas na Argentina e no Brasil se entrelaçam de forma tão intrincada que por vezes parece mais lógico separar seus inícios em apenas uma semana, não em 12 anos.

Os aniversários destes dois regimes de terrorismo de estado foram lembrados no início deste mês. Meio século do golpe na Argentina. 62 anos no Brasil. Eles seguem, porém, sendo alvo de interpretações que mantêm o paralelo grotesco entre elas: tão afastadas e ao mesmo tempo tão sobrepostas entre si e em nosso presente. 

Vivi por três anos em Buenos Aires para fazer meu mestrado em literatura pela Universidade de Buenos Aires. Morava em Almagro, bairro conhecido por ser o berço do tango portenho. Foi ali também que começou, em 2006, o projeto de colocar mosaicos nas calçadas revelando os pontos onde pessoas haviam sido sequestradas pela ditadura. 

Na frente do prédio em que eu morava, todos os dias uma placa me lembrava do desaparecimento dos militantes Evangelina Carreira e Daniel Hopen em 17 de agosto de 1976. Quando vou à Universidade de Brasília, agora em meu doutorado, passo sempre em frente ao mosaico em homenagem ao estudante Honestino Guimarães, líder estudantil da UnB sequestrado pelo estado brasileiro em 1973.

A homenagem a Honestino é uma exceção, mas na Argentina muitas outras placas foram instaladas nas calçadas e não só de Buenos Aires, mas também as vi em Córdoba e La Plata. Elas começaram a tomar o país nos eventos em memória das três décadas do golpe que tirou Isabelita Perón do poder e que foi responsável por 30 mil mortes estimadas até 1983.

Neste ano, algumas delas foram pichadas. Para os 50 anos da ditadura argentina, não houve nenhuma ação para ocupar o espaço público em homenagem às vítimas. Na realidade, o contrário: o governo de Milei colocou em estado de equivalência a institucionalização de um maquinário de extermínio, por um lado, e as mortes de agentes em confrontos contra militantes, do outro. O mesmo movimento de falsa equivalência foi feito pelas forças armadas aqui quando Bolsonaro estava no poder, mais um entre os tantos paralelos.

O que esses casos revelam, além dos paralelismos, é que a narrativa que construímos sobre os impactos deste período segue sendo importante: a tentativa de apagar os registros, pichar as calçadas e criar falsas relações permanecem tentando apagar o que os mosaicos, museus e homenagens querem perpetuar.

A literatura, soberana das narrativas, portanto, é fundamental para reconstruir esse período, tanto no Brasil como na Argentina. Não nos faltariam exemplos de obras fundamentais para refletir sobre a ditadura em ambos os países, mas para não me alongar recomendo apenas as minhas preferidas.

Do lado de lá do rio, penso em Confesión, de Martín Kohan, que narra de forma fragmentada como a violência da ditadura atravessa a vida de uma mulher em diferentes períodos, ora como singela apoiadora, ora como vitima desesperada. Uma mesma personagem que era apaixonada por um jovem militar na adolescência é, na vida adulta, obrigada a recorrer a ele, ao "presidente" Videla, para preservar a vida do filho militante que ela, ingenuamente, denunciou.

Do lado de cá, penso em K.: relato de uma busca, de Bernardo Kucinski, um relato sentimental e cruel da busca do pai dele sobre pistas para o paradeiro de sua irmã, uma professora universitária desaparecida. Talvez em uma ponte entre os dois pontos abertos dessa ferida, A resistência, de Julián Fuks, sobre uma família que tenta construir a própria história ao migrar entre Argentina e Brasil e com suas omissões, com muita ficção, buscam dar uma aparência de normalidade aos traços que os unem.

Além do tema da ditadura, todas essas obras tem em comum terem sido escritas nos anos de 2010. A ditadura atravessa a literatura não só como tema, mas como tesoura. Ambos regimes institucionalizaram sistemas de censura que trataram de restringir tanto a liberdade criativa como o desenvolvimento acadêmico. Escrever sobre ele no calor do presente era perigoso e quase impossível.

O afastamento no tempo parece ter permitido não só aos escritores, mas também à sociedade, elaborar melhor seu trauma, deixar para a geração seguinte a tarefa de encontrar palavras que poderiam transmitir ao menos parte das dores do período. 

Esses livros não pretendem encerrar o tema, acabar com as disputas ao redor do brutal legado do período de violência estatal que Brasil e Argentina enfrentaram. Primeiro, não deveria haver disputa entre a verdade e a mentira. Nem entre a verdade e a ficção. O espaço ficcional, porém, surge para permitir imaginar as realidades que o terrorismo de estado trabalhou —e ainda trabalha— por décadas tentando apagar. 

A literatura está aqui justamente para impedir que as histórias sejam jogadas por baixo do tapete e ignoradas. Ela cria as calçadas por onde poderemos edificar novos mosaicos de memória. Quem sabe mais coloridos que a realidade gris, permitindo a presença de mais cores do que aquelas que as provas documentais, preto no branco, podem trazer. Com ela podemos imaginar outras vidas e devolver ao mundo como uma chuva que limpa as pichações da calçada, uma enxurrada de imaginação que preenche aquilo que, sem ela, era silêncio.



24 de março de 2026

Entrevista com Regina Dalcastagnè sobre "Uma história da literatura brasileira contemporânea"

A professora Regina Dalcastagnè lança no dia 25/3 seu mais novo livro. "Uma história da literatura brasileira contemporânea" (Todavia) faz um panorama da ficção brasileira mais recente usando uma divisão temática que permite cruzamentos fascinantes entre autores de diferentes períodos. 

Em entrevista exclusiva feita por Bruno Bucis ao Blog do GELBC, Dalcastagnè comenta o seu processo de pesquisa para a obra e curiosidades que ela encontrou em seu percusso investigativo. "Essa ambição de formar um grande panorama gera uma perspectiva diferente [para o livro]", afirma ela. Leia a entrevista completa abaixo.

O lançamento com sessão de autógrafos ocorre no dia 25/3 (quarta) no restaurante Dona Lenha a partir das 18h. No dia 27/3 (sexta), 14h, no Auditório da Faculdade de Direito da UnB haverá um debate aberto ao público para discutir a obra.

Até o momento da publicação desta entrevista, além do lançamento em Brasília, já estavam agendados eventos em Porto Alegre, no dia 30/3 (segunda), na PUCRS, e no dia 31/3 (terça), na UFRGS. As sessões de autógrafos e debates ocorrem também em Florianópolis, na UFSC, no dia 6/4 (segunda); e em Salvador, na Uneb, no dia 15/4 (quarta) e na UFBA (quinta) no dia 16/4.

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1) A senhora é autora de vários livros sobre a literatura brasileira contemporânea, mas já afirmou anteriormente que talvez este seja um de seus projetos mais ambiciosos. O que o torna tão especial? É uma questão de fôlego pelo volume da obra, da ampla série de temas que ela toca ou um pouco de tudo isso?
O livro organiza, em um grande mosaico, o que antes era tratado de forma mais fragmentária. Com isso, foi possível identificar pontes entre temáticas e diálogos entre obras e autores, que antes não eram perceptíveis. A necessidade de cobrir da forma mais abrangente possível a narrativa brasileira das últimas décadas também me levou a trabalhar com produções que antes não tinham sido objeto de estudos meus. Enfim, embora haja obviamente uma continuidade com meus trabalhos anteriores, o fato de ter essa ambição de formar um grande panorama gera uma perspectiva diferente.

2) Depois de tantos anos pesquisando a literatura brasileira contemporânea e escrevendo sobre ela, quem admira seu trabalho acredita que a senhora já sabe tudo o que há para saber da produção literária recente do nosso país. Há algo, porém, que descobriu durante o processo de composição deste livro que talvez tivesse escapado de suas vistas anteriormente? Que novas leituras essa obra te permitiu que até então não haviam sido tema de sua investigação?
Na verdade, eu encontrei muitas obras que tinham ficado fora do meu radar – na preparação tanto do livro quanto do projeto que coordenei em paralelo, o Praça Clóvis, um portal de literatura brasileira contemporânea. E, fazendo a leitura do conjunto, foi possível identificar com clareza as transformações na narrativa. Claro que é um corpus plural, diversificado, mas há tendências que avançam ou refluem de acordo com o tema. Elas se manifestam quanto a temáticas e também quanto ao tratamento dos temas,
refletindo e refratando mudanças na sociedade brasileira. Por exemplo, o tratamento das relações familiares e das relações de trabalho. Há tendências que são perceptíveis também na forma, como a menor intensidade do experimentalismo e mesmo a presença muito forte de um certo tom didático na produção mais recente.

3) A senhora trabalha há alguns anos com a urbanização brasileira, intensificada a partir de 1970, como marco da literatura brasileira contemporânea, mas chega a se dedicar também a algumas obras anteriores a isso. Nesse intervalo de 56 anos, claro, o mundo mudou bastante. A senhora pensou em rever este marco temporal enquanto produzia seu novo livro? O que esses livros que estão completando meio século ainda têm a revelar a nós sobre nosso presente?
Escolhi 1970 como marco geral por ser o momento em que a literatura começa a refletir mais um país que se urbanizou e também a lidar com o trauma do golpe e da ditadura empresarial-militar. Mas é isso, um marco geral, com certo grau de fluidez. Seria mais fácil adotar um corte arbitrário, escolher um ano e simplesmente dizer que tudo que ficava para trás seria deixado de lado, mas com isso eu perderia a chance de investigar um pouco a dinâmica da construção do contemporâneo na nossa literatura (e sua
vinculação com as mudanças na sociedade brasileira). Por isso, inclui obras anteriores, mas que são pontos de partida para filões da literatura que vêm depois, como os Contos do imigrante, de Samuel Rawet, publicados também em 1956, que inauguram a temática urbana e se valem de uma linguagem mais direta, sem rebuscamentos, que está presente em boa parte da produção das décadas seguintes; o Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, de 1960, marco da reivindicação pela voz popular na produção literária, que continua ecoando até hoje; ou Malagueta, Perus e Bacanaço, de João
Antonio, de 1963, que modernizou a representação dos marginalizados urbanos. São, tanto quanto as obras escritas nas décadas de 1970 e 1980, obras que falam de questões que continuam vivas no Brasil de hoje: a exploração, a desigualdade, o racismo, a violência. Que relatam dramas humanos que  continuam falando à nossa sensibilidade. E que ajudam a entender o percurso que nos trouxe aqui, ao Brasil de hoje.

27 de fevereiro de 2026

Para que serve a literatura, afinal? Notas a partir de Paris

 Larissa Dantas e Mariana Moura

Grupo de participantes do GELBC reunidos em Paris. Fevereiro de 2026


Durante dois dias de inverno em Paris, 2 e 3 de fevereiro de 2026, a pergunta que atravessou salas, corredores e conversas informais na Université Sorbonne Nouvelle parecia simples, mas insistia em se desdobrar: para que serve a literatura, afinal?

Nós, as autoras deste texto, estivemos por lá, às voltas com essa questão, em um movimento que faz parte de nosso retorno à academia, depois de mais de 10 anos. Começamos como jovens pesquisadoras de iniciação científica, parte da grande equipe que ajudou a desenvolver a pesquisa “A personagem do romance brasileiro contemporâneo”, em 2005. Sob coordenação da professora Regina Dalcastagnè, naquela época experimentamos pela primeira vez não só a rotina de uma pesquisa científica de grande porte, mas também uma viagem de campo, rumo ao Rio de Janeiro e à Biblioteca Nacional. Ali, a pergunta do parágrafo anterior se materializou em resposta posteriormente como experiência e escolha profissional. Uma de nós hoje é professora de literatura. A outra, editora, tradutora e revisora. 

Nosso retorno simultâneo à academia, sem que houvéssemos combinado, virou parceria e, novamente, viagem. Desta vez, para acompanhar o colóquio do grupo de pesquisa que nos formou e para partilhar nossas pesquisas de doutorado, ouvindo e aprendendo com colegas, professores e estudantes do Brasil e do exterior. E, talvez, o mais interessante não tenha sido buscar uma resposta ao questionamento proposto, mas perceber como a própria formulação da pergunta nos desloca.

Em um tempo em que tudo parece demandar utilidade imediata, mensurável, justificável em termos de produtividade, reunir pesquisadoras e pesquisadores de diferentes lugares para sustentar um debate como esse já é, por si, um gesto significativo.

O X Colóquio Internacional sobre Literatura Brasileira Contemporânea, organizado pelo GELBC em parceria com o Centre de recherches sur le pays lusophones, o CREPAL, não ofereceu respostas fechadas. Em vez disso, abriu um campo de escuta e abertura para a questão. Ao longo das mesas, a literatura apareceu menos como um objeto estabilizado e mais como um espaço de tensão, entre linguagem e política, entre memória e esquecimento, entre experiência estética e as formas pelas quais tentamos compreender o mundo e a nós mesmos.

Porém, havia algo de muito concreto nessas discussões, ainda que tratassem, muitas vezes, do que escapa à materialidade imediata. Falou-se de crise da linguagem, de novas formas de sensibilidade, de narrativas atravessadas por deslocamentos, violências e reinvenções. Mas também se falou, e isso é central, da leitura como prática situada, histórica, aberta à experiência e à interpretação.


Em diferentes momentos do colóquio, tornou-se evidente que a literatura permanece necessária justamente naquilo que não se deixa domesticar. A fala de Regina Dalcastagnè, coordenadora do grupo, foi particularmente contundente ao afirmar a importância da literatura como um espaço que escapa às tentativas de controle, inclusive às formas implícitas, sutis e, até mesmo, bem intencionadas de censura. A literatura como prática cultural e como objeto de pesquisa, nesse sentido, permite pensar a sociedade e as relações humanas de maneira livre e crítica.

Também se destacou a fala do professor Leonardo Tonus sobre o esgotamento das palavras em face às catástrofes. Sua reflexão chamou a atenção para os limites da linguagem diante de experiências extremas, ao mesmo tempo que reafirmou a urgência de criar formas de expressão para aqueles que, muitas vezes, são privados da possibilidade de dizer. Ao abordar as crises migratórias e os deslocamentos forçados em direção à Europa, Tonus evidenciou a dimensão desumana desses processos e a necessidade de que a literatura se constitua como espaço de escuta e elaboração, capaz de dar visibilidade, voz e densidade às experiências de sujeitos historicamente silenciados, como os imigrantes.

A literatura insiste em abrir brechas. Essa ideia reverberou ao longo dos debates. Ao passo que há discursos que procuram organizar, simplificar ou restringir o que pode ser dito e pensado, a narrativa literária de ficção, a poesia, o ensaio cismam em mostrar a instabilidade, a dúvida, a dor, o caos. Acolhem vozes dissonantes, sustentam ambiguidades, expõem conflitos. Mais do que oferecer respostas, criam condições para que perguntas incômodas possam existir.

O segundo dia do colóquio ampliou essas questões ao trazer para o centro as dimensões pedagógicas, éticas e políticas da leitura. Discutiu-se a formação de leitores, a circulação internacional da literatura brasileira, os processos de criação e tradução literária, bem como as mediações que atravessam o encontro entre texto e leitor. No Fórum dos Estudantes, pesquisas em andamento, como as nossas, revelaram um campo vivo, em movimento, atento tanto às heranças quanto às urgências do presente.

Mas, para além das mesas e dos temas, o que mais permaneceu, talvez, tenha sido a experiência do encontro. Em um cenário marcado por fragmentação e aceleração, parar para ouvir, ler, discutir e sustentar uma pergunta comum produz uma forma de comunidade, uma comunidade que se fortalece a cada encontro.

Aliás, não é nada desprezível que tenha sido o décimo colóquio internacional de um grupo de pesquisa que está prestes a completar 30 anos. Ainda que atravessada por diferentes olhares, essa comunidade se constitui em torno de algo que não se deixa reduzir: a leitura de literatura.

Para nós duas, alguns anos separam as duas viagens que marcaram nossa trajetória acadêmica, entre Rio de Janeiro e Paris. Há muito o que falar sobre o entrelaçamento entre a literatura e nossas jornadas pessoais e profissionais, mas entre lá e cá não podemos deixar de destacar a importância do financiamento público de pesquisa, que viabilizou ambas as viagens (agradecemos atualmente o apoio da FAP/DF). Em tempos de cortes de gastos e sucateamento do ensino superior, nossa participação nesse evento acadêmicosimp é também fôlego, um gesto de resistência de uma ciência da literatura que insiste em se manter viva nas novas gerações.

Ao final, a pergunta permanece. Para que serve a literatura?

Longe de ter a obrigação de ser útil, a literatura, no entanto, encontra seu propósito na medida em que engaja, mobiliza, provoca o leitor. Talvez ela sirva, precisamente, para manter aberto aquilo que outras formas de discurso tentam fechar. Para sustentar a complexidade das relações humanas. Para permitir que imaginemos outras formas de vida em comum. Para pensar com liberdade aquilo que sem ela talvez não pudesse, sequer, ser dito.

E isso, hoje, não é pouco.


27 de janeiro de 2026

Com a palavra, o autor

 Graziele Frederico

As entrevistas são acompanhadas por ilustrações dos autores realizadas por Francisco Dalcastagnè Miguel. Da esquerda para direita: Giovanni Ricciardi, Lygia Fagundes Telles, Antônio Torres, Rachel de Queiroz.

Em uma de suas crônicas no Jornal do Brasil, respondendo a um leitor de Cabo Frio sobre como ela via o ofício de escritora, Clarice Lispector respondeu que, “lado a lado com o desejo de defender a própria intimidade, há o desejo imenso de me confessar em público e não a um padre”. Corria o ano de 1968. Uma década mais tarde, como Carmen Villarino Pardo registrou no artigo “Encontros de escritores nos finais da década de 1970”, muitos autores buscaram expor a própria trajetória como meio de aproximação com o público e atração de mais leitores para a própria obra. Em tempos de inteligência artificial que recombina informações para gerar produtos discursivos, um novo projeto do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea busca trabalhar justamente com a materialidade da escrita sob o ponto de vista do fazedor de textos literários, o escritor.

O Mapeamento crítico da autoria brasileira contemporânea nasce a partir da doação de um vasto acervo de entrevistas com escritoras e escritores brasileiros realizadas entre 1986 e 1992. O pesquisador, professor e brasilianista italiano Giovanni Ricciardi, cedeu ao grupo 105 entrevistas que realizou com autores brasileiros sobreviventes e recém-saídos da ditadura militar. Os escritores foram chamados a responder um questionário baseado em três eixos principais: formação, ato da escrita e recepção dos textos publicados; por fim, eram convocados a traçar um autorretrato. 

Se num primeiro momento, o projeto está organizando o material que será disponibilizado na plataforma Praça Clóvis; em seguida faremos um novo levantamento para seleção de autores a serem entrevistados e uma busca por outros arquivos e materiais produzidos no Brasil e no exterior com entrevistas que possam complementar essa cartografia crítica.

Seguindo a tradição das pesquisas e levantamentos realizados pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea ao longo das últimas décadas, mapear como se dá e quais são os elementos que compõem a perspectiva social e visão de mundo dos autores se apresenta como instrumentos adicionais nas discussões sobre representação e representatividade do campo literário, sem determinar que expliquem textos e obras dos autores. 

Antonio Callado, por exemplo, contou em entrevista a Ricciardi, que escreveu Quarup para explicar o Brasil a si mesmo e, se possível, aos outros. Antonio Torres respondeu que para ele a escrita é “como um serviço, uma coisa socialmente útil”. Na sua visão, justamente num país com índices de analfabetismo “alarmantes”, a escrita é um valor, porque ele se lembrava da emoção da população de Junco ao vê-lo recitar poesia quando criança, ou quando o chamavam para escrever e ler as cartas que chegavam, ou ler o livro de rezas durante um funeral. “Eu sempre quis sair daquele mundo para servir um pouco melhor àquele mundo. O Brasil está cheio de mundos em volta.” 

Caio Fernando Abreu disse que escrevia para ter uma ilusão, “reorganizar o universo, alguma coisa assim, inteiramente pessoal”. No entanto, quando questionado sobre a literatura brasileira da época, ele também aponta para a escrita em seu âmbito social: “[com algumas exceções] a literatura é muito comportada. Está ainda preocupada com as tias, há muitas tias na ficção brasileira, tem muito casarão, tem muito amor impossível, tem muito pouca carne, pouca sexualidade, pouca rua. Eu sinto ela meio dissociada da vida real do brasileiro.” 

Recuperar e mapear as entrevistas de Giovanni Ricciardi nos permite uma sistematização dos imaginários coletivos que permeavam o campo literário numa época bem específica: os anos iniciais da redemocratização do país. É importante destacar que dos 105 entrevistados, apenas 34 permanecem vivos, o que nos coloca diante de uma memória literária preservada e da restituição de reflexões e posicionamentos de diversos autores daquele período. Um elemento em comum para a formação de quase todos os escritores, que em muitos casos representou também um tema para as obras, foi o êxodo da periferia para o centro. Em seus estudos, a partir das respostas que recebeu, Ricciardi chega a comparar à mudança para as capitais do país e especialmente para Rio de Janeiro e São Paulo, com o papel que a corte exerceu em boa parte dos autores europeus no século XIX. O deslocamento para os centros culturais foi determinante na construção de inúmeras carreiras.

Ele dividiu os entrevistados em três gerações: os nascidos de 1906 até 1927, entre eles, Cyro dos Anjos, Antonio Callado, Jorge Amado, João Cabral de Melo Neto, José J. Veiga, Mário Quintana, Lêdo Ivo, Salim Miguel e outros. A segunda geração contou com aqueles que nasceram entre 1928 e 1948, compondo o grupo mais numeroso de entrevistados e que para o pesquisador, representavam boa parte dos protagonistas da literatura dos anos 1970 e 1980: Ferreira Gullar, Ivan Ângelo, João Antônio, Ignácio de Loyola Brandão, Antônio Torres, Roberto Drummond, Sérgio Sant’Anna, Lya Luft, Augusto de Campos, Adélia Prado, Moacyr Scliar, Luiz Antônio de Assis Brasil, João Ubaldo Ribeiro, Márcio Sousa, Silviano Santiago, Nélida Piñon, Carlos Nejar, mas não só. Por fim, o último grupo seriam os nascidos após 1949. Entre eles estavam Chacal, Domingos Pellegrini, Deonísio da Silva, Caio Fernando Abreu, etc. 

Um elemento de mudança nas respostas entre as gerações foram as profissões exercidas pelos pais. Ricciardi explica que a partir da segunda geração, “começa a aparecer algum pai operário, lavrador, barbeiro, quitandeiro, a mãe antes dona do lar, agora aparece também como comerciante, professora, advogada, dentista, operária, cabeleireira, costureira”. Se João Ubaldo Ribeiro afirmou que na sua época havia apenas três opções para os cursos universitários: Direito, Engenharia ou Medicina, com o tempo os autores começaram a optar também pelos cursos de Letras, Comunicação, Farmácia e Filologia. Muitos trabalhavam como jornalistas. Uma constante nas respostas foi a necessidade de uma segunda profissão para o próprio sustento e a liberdade que boa parte adquiriu quando conseguiu a aposentadoria por outro trabalho e pôde se dedicar à literatura, sem necessariamente contar com uma renda a partir do que escrevia.

É interessante notar a preocupação do brasilianista na busca por escritores e escritoras que representassem o campo literário nacional, tentando equilibrar ou tensionar a questão da representatividade geográfica. Nos sete volumes em que reuniu as entrevistas – Biografia e criação literária -  o primeiro foi dedicado aos autores que compunham a Academia Brasileira de Letras na época. Em seguida, tivemos as entrevistas com escritores de São Paulo, o terceiro volume contou com a série de autores mineiros, o quarto com representantes de Goiás, o quinto trouxe os escritores do Rio de Janeiro, o sexto, as conversas com autores do Norte e Nordeste, finalizando a coleção com 19 entrevistas de escritores do Sul do país. 

Se a preocupação com questões raciais não foram colocadas neste trabalho, o pesquisador decidiu dedicar duas perguntas para as mulheres: “A profissão de escrever ajudou ou ajuda na descoberta de si própria como mulher?” e “Existe no país a escrita, enquanto texto, feminina?”.

 No total dos 105 entrevistados, Ricciardi conversou com 17 mulheres: Adélia Prado, Anna Maria Martins, Edla van Steen, Helena Parente Cunha, Julieta Godoy, Lya Luft, Lygia Fagundes Telles, Márcia Denser, Maria Alice Barroso, Marina Colasanti, Myriam Fraga, Nélida Piñon, Olga Savary, Patrícia Bins, Rachel de Queiroz, Sônia Coutinho e Tânia Jamardo Faillace. Rachel de Queiroz respondeu que com o surgimento de grandes nomes da literatura brasileira, como Lygia Fagundes Telles e Cecília Meireles, havia uma literatura escrita por mulheres que era sólida e séria e por isso, “nem podia mais ser chamada de literatura feminina, mas apenas de literatura”. Lygia Fagundes Telles explicou que não dividia a literatura em masculina ou feminina, mas reconhecia que talvez as mulheres pudessem trazer características diferentes na escrita, o que de algum modo esteve também presente na resposta de Tânia Jamardo Faillace. Segundo ela, “ser mulher e fazer qualquer outra coisa que não seja cuidar do lar é muito difícil em países como o Brasil. Até hoje me sinto discriminada. Os livros das mulheres são menos divulgados e vendidos que os dos homens. Muitos cursos de Letras, inclusive em Porto Alegre, ignoram a literatura feita por mulheres. Eu mesma já fui barrada em participar de jornadas com estudantes na década de 60, por não ser casada”.

Da esquerda para direita: Antonio Callado, Adélia Prado, Caio Fernando Abreu, Salim Miguel. Ilustrações de Francisco Dalcastagnè Miguel.

Considerando que a entrevista é o principal gênero discursivo do projeto, é interessante recuperar o clássico livro de Cremilda Araújo Medina, Entrevista: o diálogo possível, publicado em 1986, para recordar algumas premissas importantes. Como explica Medina, nas suas diferentes aplicações nas Ciências Humanas, a entrevista é uma “técnica de interação social, de interpenetração informativa, quebrando isolamentos grupais, indivíduos sociais” e sendo ela uma interação simbólica que se dá através da linguagem, é impossível omitir a perspectiva social do próprio entrevistador, especialmente quando este é um especialista, como é o caso desse projeto. Mesmo assim, como destaca Medina, isso não impede que o entrevistado seja tratado como um outro e não “como isto”. 

Um exemplo interessante é o relato que Ricciardi faz sobre a surpresa que teve com os resultados de suas entrevistas para a questão: “Houve em sua vida uma encruzilhada que o marcou determinadamente?”. A fórmula da pergunta foi uma versão delicada da questão que ele pretendia fazer sobre como o golpe de 1964 tinha atingido a vida dos autores. Dos 105 entrevistados, dois deixaram de responder, Adélia Prado disse que não poderia dizer, 11 negaram ter vivido qualquer encruzilhada e 48 responderam citando momentos íntimos e eventos pessoais: doenças, perdas de um ente querido, viagens ao exterior, mudança de cidade, filiação a um partido político, a publicação do primeiro livro, conversão religiosa, o abandono da música pela literatura, casar e descasar. Ricciardi confessou que, “estava convencido, talvez por gostar muito de Gramsci, que todos responderiam: o golpe de 1964!”. Apesar de não representarem a maioria, 40 autores consideraram a ditadura um marco profundo.

No geral, as entrevistas trouxeram muitos autores preocupados com as desigualdades sociais no país e no continente latino-americano. Em muitas respostas, viu-se também um movimento de ponderação aos projetos mais marcadamente ideológicos. Alguns inclusive, como Manuel de Barros, mas não só ele, apresentam uma reflexão sobre um certo fracasso das literaturas forçadamente engajadas. Para Ricciardi, tantas obras têm resistido no tempo e ao tempo porque o autor desobedeceu – ainda que involuntariamente – à própria ideologia. Salim Miguel, quando convocado a traçar um autorretrato, afirmou que para ele, “o escritor, por mais que pareça estar mexendo e tratando de temas bastante diversificados, reelabora sempre os seus mesmos fantasmas”. Se autoras e autores são de fato um unicum, com suas inúmeras particularidades, temas e linguagens, o brasilianista destaca que a diferença entre escritores e escreventes é o modo como articulam as palavras em uma espécie de inspiração, que ele próprio, estudioso, dizia não ter. 

Então, recuperar e mapear entrevistas com escritores da literatura brasileira contemporânea é insistir em reafirmar as digitais humanas nessa produção discursiva. Lembrando que, apesar do indiscutível protagonismo do texto literário no exercício da crítica, “a literatura não se faz in vitro”, como há muitas décadas ensinava a brasilianista e professora da Universidade La Sapienza di Roma, Luciana Stegagno Picchio.

3 de dezembro de 2025

Praça Clóvis: um lugar de encontro com a literatura brasileira contemporânea

Regina Dalcastagnè 

Ilustração de capa do portal Praça Clóvis, de Francisco Dalcastagnè Miguel

Ilustração de capa do portal Praça Clóvis, de Francisco Dalcastagnè Miguel



A pesquisa e a crítica literária costumam ser entendidas como atividades solitárias. Fazemos a leitura do livro e em seguida o analisamos, dialogando apenas com outras obras, teóricas ou ficcionais, mas todas já prontas, sem espaço para questionamentos diretos ou dúvidas. Não é exatamente assim que as coisas acontecem, é claro, especialmente no meio acadêmico, onde a crítica nasce, muitas vezes, do debate em sala de aula, com enfrentamentos que passam por uma multiplicidade de interpretações, acolhendo diferentes perspectivas sociais e abordagens teóricas. 

De qualquer forma, volta-se, ao final, para a escrita. É na escrita que concretizamos o conhecimento e ela é uma atividade solitária, especialmente se não houver um retorno. 

"Se uma árvore cai na floresta e ninguém está perto para ouvir, ela fez barulho?", se perguntavam os filósofos. Mas, "se eu faço uma pesquisa, publico um texto e ninguém lê, foi produzido conhecimento?" Talvez seja essa nossa principal aflição. O que fazer para que nossas pesquisas atinjam um público maior e adquiram relevância? Para que elas cumpram sua função? Mesmo que seja a de não permitir que um determinado autor, uma determinada língua, se perca na terrível máquina picotadora da História. 

Penso que é possível ampliar o interesse em nossas pesquisas tanto dentro do meio acadêmico quanto em suas cercanias. Mas é necessário estabelecer estratégias diferentes para isso. Talvez incorporar aos nossos estudos outras produções literárias sobre as quais costumamos ter preconceitos. Mas também podemos ir para além do livro e incluir a reflexão sobre o próprio campo literário, em um debate aberto com os seus agentes – livreiros, bibliotecários, editores, tradutores, booktubers, os próprios autores. Com isso, as possibilidades de trabalho também se expandem, exigindo novas metodologias e permitindo aproximações inesperadas. 

Ilustração de Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, por Ruben Zacarias.



EXPERIÊNCIA 


Apresento, então, a experiência da construção do portal Praça Clóvis: mapeamento crítico da literatura brasileira contemporânea, um projeto que parte da ideia de que não temos que trabalhar sozinhos, que somos muito melhores quando somamos nossas forças, quando ousamos olhar juntos o mundo ao redor e imaginar novas perguntas e outras respostas possíveis, quando entendemos que nosso objeto de estudo cresce quando juntamos nossas habilidades, nossas ferramentas, para compreendê-lo. 

O Praça Clóvis é um site que pretende mapear o que se produziu de mais significativo em termos literários no Brasil dos anos 1970 aos dias de hoje, livros e autores muitas vezes esquecidos, uma vez que os estudiosos da literatura contemporânea costumam ser impelidos em direção à obra mais recente, à próxima obra-prima, esquecendo escritores que passaram 20, 30, 40 anos pensando o Brasil e ampliando os recursos estéticos para falar sobre ele. 

Visite nossa praça: https://pracaclovis.com/ 

Ilustração de As mulheres de Tijucopapo, de Marilene Felinto, por Carolina Vigna.



METODOLOGIA 


O site é um projeto colaborativo, mais de trezentas pessoas estão envolvidas, até o momento, em sua montagem e disponibilização. É um trabalho imenso, que envolve não só a busca por informações, mas também um compromisso social e político, seja com a universidade pública brasileira, a partir do empenho na formação de novos pesquisadores, seja com os diferentes agentes do campo literário do país, que, informados de suas escolhas e seus vieses, podem buscar soluções que julguem necessárias. 

Em sua primeira etapa, disponibilizada em maio deste ano, o site reuniu 230 resenhas críticas de romances, sempre acompanhadas de ilustrações feitas especialmente para elas por artistas de todo o país e do exterior. A ideia era chamar a atenção para um grande conjunto de obras que estão deixando de ser lidas, seja porque não são reeditadas, seja porque o volume de novas publicações lança uma sombra sobre elas, seja porque o esquecimento é uma marca dominante na cultura nacional. O que não significa que esses livros e autores/as não tenham ainda muito a nos dizer. 

Não há a intenção de abarcar toda a produção do período, mas atuar na seleção e reflexão sobre nossa literatura. Buscando escapar das ausências que notamos nos dados dos levantamentos anteriores realizados pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, estabelecemos uma série de critérios para a seleção dos livros. 

Um deles é a representatividade das obras dentro de determinadas correntes estilísticas, temáticas e mesmo políticas. Outro, é o critério que envolve a representatividade regional, de períodos e de autoria. Por uma série de indicadores, sabemos que a literatura brasileira está muito concentrada no Sudeste – em especial, no Rio de Janeiro e em São Paulo. A pesquisa tem a preocupação de reduzir este efeito, abrangendo obras importantes das diferentes regiões e unidades da federação. 

Também buscamos observar um equilíbrio entre os diferentes períodos de publicação, evitando, por exemplo, um volume maior de resenhas sobre livros publicados nos últimos anos. E, em relação à autoria, está sendo dada uma atenção especial à produção de grupos minorizados, que costumam ter menor espaço de divulgação, como os negros, indígenas, LGBTs, moradores de periferia. 

Um critério adicional é a repercussão dos livros escolhidos junto a críticos, leitores e outros produtores literários. Não são critérios infalíveis, é claro. Mas não pretendemos criar um corpus canônico para a literatura brasileira contemporânea, apenas abrir caminho para uma sistematização possível. 

Ilustração de A ocupação, de Julián Fuks, por Léo Tavares.



EXPANSÃO 


Em sua segunda fase, que já está em andamento e será disponibilizada em breve, o projeto visa ampliar a abrangência do mapeamento, logo do portal, incluindo outros romances, outros gêneros literários, como o conto, a poesia, a dramaturgia, as memórias, além de entrevistas com escritores do período (a partir do acervo disponibilizado pelo pesquisador italiano Giovanni Ricciardi de uma centena de entrevistas realizadas por ele nos últimos anos do século XX com os principais autores brasileiros da época). 

Haverá ainda levantamentos sobre o funcionamento do campo literário brasileiro (passando por uma reflexão sobre o mercado editorial, as livrarias, a crítica, as feiras literárias etc.) e discussões sobre a tradução, edição e recepção da literatura brasileira contemporânea no exterior – inicialmente, serão trabalhados Itália, França, Reino Unido, Alemanha, República Tcheca, Japão, Estados Unidos e Argentina. Junto a isto, estamos disponibilizando traduções das resenhas para diferentes línguas, incentivando, assim o estudo da língua portuguesa e de nossa literatura no exterior. 

Também estamos abrindo um espaço para os professores, buscando o necessário diálogo entre a universidade e as escolas. Há um formulário, aqui, que pode ser usado para sugestões e outras conversas. 

É comum compreender as praças como dispositivos que tornam o espaço das cidades muito mais acolhedor. O acesso às praças também costuma ser reconhecido como a materialização do direito humano à cidade, enquanto espaço livre de inclusão social. A praça é um espaço público de circulação, de lazer, de encontro e convívio para os usuários que por ela passam. Com o tempo, seus frequentadores reconhecem nela um espaço de pertencimento, um lugar que permite a construção de uma memória coletiva. De forma análoga, e considerando a literatura como um direito humano, o projeto Praça Clóvis – nome que homenageia também uma canção de Paulo Vanzolini – pretende reproduzir esse espaço comum no ambiente virtual. 

Ilustração de Ikamiabas, de Regina Melo, por Espírito Objeto.



Em função dos próprios critérios estabelecidos para a seleção das obras e dos assuntos a serem discutidos, esse projeto tem um caráter inclusivo. Busca-se tensionar o cânone, evitando os mecanismos que naturalizam obras e autores como pretensamente representativos, ao passo que produzem o apagamento de toda uma literatura produzida à margem, que não se beneficia dessa dinâmica.

Estamos, assim, intervindo em uma discussão que não é de hoje sobre a distorção de perspectiva que faz com que muito do que se pensa e se produz seja apagado do retrato convencional da literatura brasileira (e não só dela). Em 1904, Euclides da Cunha escrevia ao seu pai desde Manaus, capital do Amazonas: “a mais consoladora surpresa do sulista está no perceber que este nosso Brasil é verdadeiramente grande porque ainda chega até cá. Realmente, cada vez mais me convenço de que esta deplorável Rua do Ouvidor é o pior prisma por onde toda a gente vê a nossa terra”. 

A crítica mordaz do autor apontava o risco de se reduzir a percepção sobre a realidade do país a essa perspectiva tão estreita – o Rio de Janeiro dos intelectuais do início do século XX (somando-se à elite da São Paulo dos dias de hoje, acrescentaríamos). Dizer que o Brasil chega muito mais longe do que costumamos imaginar é pouco se não nos esforçarmos para ir até lá. 

O site Praça Clóvis apresenta, assim, um convite para aprofundar a reflexão coletiva sobre a literatura brasileira contemporânea, com a disponibilização pública de um acervo ampliado de informações e de leituras sobre a produção do período, reforçando o vínculo entre escrita, crítica, mercado e campo literários – e com a sociedade brasileira. 

O projeto mantém ainda um perfil no Instagram (@pracaclovis), um podcast no Spotify e uma newsletter no Substack.

Ilustração de Dois irmãos, de Milton Hatoum, por Kléber Sales.









30 de agosto de 2024

Para a orientadora, com carinho

Para Cíntia Carla Moreira Schwantes, in memoriam


Duas orientandas da professora Cíntia Schwantes escrevem sobre a importância da orientadora em suas vidas, em uma homenagem de despedida.

Agradeço a oportunidade de fazer aqui uma singela homenagem à minha orientadora,  Cíntia Schwantes, que fez a passagem aos 63 anos, representando aqui todas as estudantes que foram por ela tocadas ao longo de sua jornada acadêmica, sua jornada de vida.

Ontem, em sua fala, a professora Patrícia Nakagome nos emocionou e fez pensar sobre o legado que os pais deixam para os filhos e que os professores deixam aos seus alunos. O que me fez pensar no legado da Cíntia para escrever este texto. Poderia citar aqui sua vasta produção acadêmica como pesquisadora dos estudos de gênero e crítica literária feminista, referência nos estudos do gótico e do romance de formação feminino, estudiosa da poesia de Sylvia Plath, editora-chefe da revista água viva; poderia dizer da Cíntia tradutora de textos feministas importantes, da Cíntia poeta que deixou diversos poemas publicados e não publicados, da Cíntia que defendia a igualdade de gênero, os direitos humanos, a democracia e as minorias, algo que estava presente em suas aulas, seu dia a dia, sua produção teórica. Mas esse legado, importantíssimo, está disponível a quem se interessar em ler. A palavra nos eterniza de alguma maneira.

Hoje, quero aproveitar esses minutinhos aqui para falar da Cíntia que não ficou por escrito, mas que pode ser vista também (aos que souberem olhar) no que suas orientandas escreveram, escrevem e continuarão escrevendo ao longo de suas vidas, com palavras-escritas ou palavras-ações – um legado tecido com paciência, escuta e afeto. Preciso contar a vocês do privilégio que foi tê-la como minha orientadora desde quando cheguei à UnB, ainda formulando o que queria pesquisar. A Cíntia orientadora dedicava aos seus alunos o que nós temos de mais precioso: o tempo. E nos quatro anos do doutorado, nos encontramos semanalmente, às sextas-feiras e no horário da fome, como ela costumava dizer. E naquelas horas, lia tudo o que eu trazia escrito, sempre impresso, que é como ela gostava de ler, no papel; dos fichamentos que demandava até os artigos que eu escrevia para cada uma das disciplinas, às resenhas que eu queria publicar e ela que sempre me incentivava, além de cada parte nova da tese. Lia em silêncio (para minha angústia ansiosa), e vez ou outra marcava algo a ajustar ou listava mais um tanto de coisas que eu precisava ler, com sua imensa generosidade em partilhar o conhecimento. Cíntia era uma leitora voraz e sempre me impressionava o seu imenso repertório. Depois, escutava. Algo tão raro nos dias de hoje onde se vive com pressa e com tantos afazeres. Cíntia verdadeiramente nos escutava. Ouvia as dúvidas e angústias, respondia todas as perguntas e me deixava mais outras tantas, sempre com seu jeito tranquilo e sereno, e eu sempre saía de lá com muita coisa para pensar. Agora multipliquem esse tempo por cada uma das estudantes que ela orientou, por todos os estudantes que atendeu ao longo de todos esses anos na Universidade. Se a pandemia foi cruel para todos nós, dá para imaginar o quanto ela entristeceu o coração de uma professora que amava estar frente a frente com suas alunas, e que tinha uma grande dificuldade com as tecnologias. Em seu velório, sua irmã nos disse que ela só teve dois grandes amores na vida: o Felipe, seu filho, que ela adorava, e suas alunas. No coração generoso de Cíntia, todas e todos eram acolhidos com afeto, escuta e paciência. Era uma professora que sabia reconhecer o potencial que cada um, à sua maneira, carrega por vezes escondido. 

Quando penso na Cíntia professora, sempre lembro do livro Diário de escola, do Daniel Pennac, quando ele compara a experiência de ensinar ao primeiro voo dos passarinhos; em uma sala de aula, teremos aquelas alunas que alçarão voo dentro do “esperado”, alcançando o objetivo da aula sem maiores problemas; podem ser tidas como as melhores, mas isso é só uma questão de ponto de vista. Há os que podem fazer o voo de cabeça para baixo ou fazendo volteios até alcançar a janela, atingindo o objetivo mesmo assim, mas certamente criticadas por não se encaixarem (como a vida seria chata sem elas); há também os que tentem mais de uma vez atravessar a janela e não consigam, seja porque tenham alguma dificuldade (o que pode ser superado ou adaptado com um pouco de afeto e atenção) ou porque não acreditam em si mesmos, e nesses casos uma boa professora faz toda a diferença para que o voo possa dar certo. Cíntia era a professora que não deixava nenhum passarinho para trás e dedicava a maior parte de seu tempo a isso. Ficava feliz com o voo de todas, desejando que todas voassem mais alto que ela. Que privilégio, o nosso, termos sido orientadas por alguém assim.

Como legado, Cíntia deixa para mim e para as demais ‘Meninas da Cíntia’, que é como se chama um grupo de alunas e amigas que a cercou de afeto e cuidados nos momentos delicados que atravessou antes de partir, um exemplo de afeto, escuta e generosidade no mundo acadêmico (e para além dele), além de uma imensa saudade. Mas esse grupo, como prova mais bonita de seu exemplo, se aproxima ainda mais depois de sua partida, vivendo o luto e a saudade, mas buscando manter a rede de afeto que ela construiu viva, ‘palavras-ações’ que talvez não caibam no Lattes, mas que reverberarão por muito tempo.

Paula Queiroz Dutra

(durante o X Simpósio Internacional sobre Literatura Brasileira Contemporânea:

circulação, diálogos, entornos - 30/08/2024).


***

Na hora da fome - fizesse chuva, fizesse sol -

quando ninguém mais para socorrer

Ela, toda acolhimento - cachecol

palavras que desfaziam nó na garganta, sufoco no peito

Um: Calma, Moça! E o mesmo valia para o Moço.

Ali, naquela horinha mesmo, tudo recomeçava

Tantos e tantas - típicos e atípicos - com igual devoção

Dedinhos ansiosos – lápis-caneta-teclado – de mãos dadas, sempre

pronta para cruzar fronteiras rumo a revoluções

tantas e tantas que olhando para aqui ou acolá

HÁ A SUA POEIRA estelar

Resta aquela que cintila além e além

Para mim – que ecoo - do A ao Z de nomes e sobrenomes

Para os gatos do Darcy,

Um nó desfeito.

Leocádia Chaves





X Simpósio Internacional sobre Literatura Brasileira Contemporânea

 X Simpósio Internacional sobre Literatura Brasileira Contemporânea: circulação, diálogos, entornos



Universidade de Brasília, 28 a 30 de agosto de 2024

Em sua décima edição, o simpósio organizado pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, da Universidade de Brasília, reunirá pesquisadores de quatro continentes para discutir a produção e recepção de nossa literatura nos dias de hoje. O foco será tudo o que se move em seu entorno, a crítica, as curadorias, o mercado editorial, as feiras, a tradução, o ensino. Mas também aquilo que impulsiona a criação – o respeito às lutas de diferentes grupos sociais, a representação do que vai além do humano e os riscos que o humano impõe ao próprio planeta.

Coordenação: Pedro Mandagará e Regina Dalcastagnè

 

Coordenação do Fórum dos Estudantes: Ana Rüshe, Gabriel Soares Farias e Priscila Calado

 

Comissão executiva: Anderson Luís Nunes da Mata, Patrícia Nakagome, Virgínia Maria Vasconcelos Leal

 

Comissão científica: Carmen Villarino Pardo (Universidade de Santiago de Compostela), Claire Williams (St. Peter's College, Universidade de Oxford), Georg Walter Wink (Universidade de Copenhague), José Leonardo Tonus (Université Paris-Sorbonne), Paloma Vidal (Unifesp), Roberto Vecchi (Universidade de Bologna)

 

Organização: Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea

PROGRAMAÇÃO

Local:  Anfiteatro 10 do ICC


5 de julho de 2023

IX Simpósio Internacional sobre Literatura Brasileira Contemporânea

 


IX Simpósio Internacional sobre Literatura Brasileira Contemporânea: pensar e fazer a crítica

Universidade de Brasília, 23 a 26 de julho de 2023 

O ato de leitura de um texto ficcional dispara um modo de pensar criticamente que envolve as visões de mundo do autor, do narrador, das personagens e, sobretudo, de quem assina a crítica. Como alertou Walter Benjamin, os valores do crítico devem estar explícitos e isso é tudo que dele devemos saber. Essa tomada de posição de quem lê e comenta o texto literário profissionalmente revela muito mais sobre o momento em que se vive que o próprio texto ficcional. Por isso, de tempos em tempos é necessário olhar para os campos em que se dá a produção crítica com o objetivo de compreender o que tem sido feito, afinal, com a literatura. Entre a redução do espaço para a literatura nos veículos de imprensa, a expansão de um campo novo de repercussão dos lançamentos nas mídias digitais e as disputas políticas na pesquisa sobre literatura feita a partir da universidade, a crítica literária segue sua história de transformações nos espaços que ocupa, nos métodos que adota e nos objetivos que assume para si. O IX Simpósio Internacional sobre a Literatura Brasileira Contemporânea, organizado pelo GELBC, e que acontecerá entre os dias 23 a 26 de julho de 2023 na Universidade de Brasília, tem como objetivo tanto analisar a própria crítica literária na contemporaneidade quanto explorar os diferentes modos de fazê-la a partir da leitura da literatura brasileira contemporânea.

Organização: Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea

Coordenação: Anderson Luís Nunes da Mata (UnB), Pedro Mandagará (UnB), Regina Dalcastagnè (UnB), Lucia Tormin Mollo 

As inscrições serão feitas no local, no dia do evento. Confira a Programação.

31 de outubro de 2022

Discurso à nação do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva

 

Fotografia: Nelson Almeida


“Meus amigos e minhas amigas.

Chegamos ao final de uma das mais importantes eleições da nossa história. Uma eleição que colocou frente a frente dois projetos opostos de país, e que hoje tem um único e grande vencedor: o povo brasileiro.

Esta não é uma vitória minha, nem do PT, nem dos partidos que me apoiaram nessa campanha. É a vitória de um imenso movimento democrático que se formou, acima dos partidos políticos, dos interesses pessoais e das ideologias, para que a democracia saísse vencedora.

Neste 30 de outubro histórico, a maioria do povo brasileiro deixou bem claro que deseja mais – e não menos democracia.

Deseja mais – e não menos inclusão social e oportunidades para todos. Deseja mais – e não menos respeito e entendimento entre os brasileiros. Em suma, deseja mais – e não menos liberdade, igualdade e fraternidade em nosso país.

O povo brasileiro mostrou hoje que deseja mais do que exercer o direito sagrado de escolher quem vai governar a sua vida. Ele quer participar ativamente das decisões do governo.

O povo brasileiro mostrou hoje que deseja mais do que o direito de apenas protestar que está com fome, que não há emprego, que o seu salário é insuficiente para viver com dignidade, que não tem acesso a saúde e educação, que lhe falta um teto para viver e criar seus filhos em segurança, que não há nenhuma perspectiva de futuro.

O povo brasileiro quer viver bem, comer bem, morar bem. Quer um bom emprego, um salário reajustado sempre acima da inflação, quer ter saúde e educação públicas de qualidade.

Quer liberdade religiosa. Quer livros em vez de armas. Quer ir ao teatro, ver cinema, ter acesso a todos os bens culturais, porque a cultura alimenta nossa alma.

O povo brasileiro quer ter de volta a esperança.

É assim que eu entendo a democracia. Não apenas como uma palavra bonita inscrita na Lei, mas como algo palpável, que sentimos na pele, e que podemos construir no dia-dia.

Foi essa democracia, no sentido mais amplo do termo, que o povo brasileiro escolheu hoje nas urnas. Foi com essa democracia – real, concreta – que nós assumimos o compromisso ao longo de toda a nossa campanha.

E é essa democracia que nós vamos buscar construir a cada dia do nosso governo. Com crescimento econômico repartido entre toda a população, porque é assim que a economia deve funcionar – como instrumento para melhorar a vida de todos, e não para perpetuar desigualdades.

A roda da economia vai voltar a girar, com geração de empregos, valorização dos salários e renegociação das dívidas das famílias que perderam seu poder de compra.

A roda da economia vai voltar a girar com os pobres fazendo parte do orçamento. Com apoio aos pequenos e médios produtores rurais, responsáveis por 70% dos alimentos que chegam às nossas mesas.

Com todos os incentivos possíveis aos micros e pequenos empreendedores, para que eles possam colocar seu extraordinário potencial criativo a serviço do desenvolvimento do país.

É preciso ir além. Fortalecer as políticas de combate à violência contra as mulheres, e garantir que elas ganhem o mesmo salários que os homens no exercício de igual função.

Enfrentar sem tréguas o racismo, o preconceito e a discriminação, para que brancos, negros e indígenas tenham os mesmos direitos e oportunidades.

Só assim seremos capazes de construir um país de todos. Um Brasil igualitário, cuja prioridade sejam as pessoas que mais precisam.

Um Brasil com paz, democracia e oportunidades.

Minhas amigas e meus amigos.

A partir de 1º de janeiro de 2023 vou governar para 215 milhões de brasileiros, e não apenas para aqueles que votaram em mim. Não existem dois Brasis. Somo um único país, um único povo, uma grande nação.

Não interessa a ninguém viver numa família onde reina a discórdia. É hora de reunir de novo as famílias, refazer os laços de amizade rompidos pela propagação criminosa do ódio.

A ninguém interessa viver num país dividido, em permanente estado de guerra.

Este país precisa de paz e de união. Esse povo não quer mais brigar. Esse povo está cansado de enxergar no outro um inimigo a ser temido ou destruído.

É hora de baixar as armas, que jamais deveriam ter sido empunhadas. Armas matam. E nós escolhemos a vida.

O desafio é imenso. É preciso reconstruir este país em todas as suas dimensões. Na política, na economia, na gestão pública, na harmonia institucional, nas relações internacionais e, sobretudo, no cuidado com os mais necessitados.

É preciso reconstruir a própria alma deste país. Recuperar a generosidade, a solidariedade, o respeito às diferenças e o amor ao próximo.

Trazer de volta a alegria de sermos brasileiros, e o orgulho que sempre tivemos do verde-amarelo e da bandeira do nosso país. Esse verde-amarelo e essa bandeira que não pertencem a ninguém, a não ser ao povo brasileiro.

Nosso compromisso mais urgente é acabar outra vez com a fome. Não podemos aceitar como normal que milhões de homens, mulheres e crianças neste país não tenham o que comer, ou que consumam menos calorias e proteínas do que o necessário.

Se somos o terceiro maior produtor mundial de alimentos e o primeiro de proteína animal, se temos tecnologia e uma imensidão de terras agricultáveis, se somos capazes de exportar para o mundo inteiro, temos o dever de garantir que todo brasileiro possa tomar café da manhã, almoçar e jantar todos os dias.

Este será, novamente, o compromisso número 1 do nosso governo.

Não podemos aceitar como normal que famílias inteiras sejam obrigadas a dormir nas ruas, expostas ao frio, à chuva e à violência.

Por isso, vamos retomar o Minha Casa Minha Vida, com prioridade para as famílias de baixa renda, e trazer de volta os programas de inclusão que tiraram 36 milhões de brasileiros da extrema pobreza.

O Brasil não pode mais conviver com esse imenso fosso sem fundo, esse muro de concreto e desigualdade que separa o Brasil em partes desiguais que não se reconhecem. Este país precisa se reconhecer. Precisa se reencontrar consigo mesmo.

Para além de combater a extrema pobreza e a fome, vamos restabelecer o diálogo neste país.

É preciso retomar o diálogo com o Legislativo e Judiciário. Sem tentativas de exorbitar, intervir, controlar, cooptar, mas buscando reconstruir a convivência harmoniosa e republicana entre os três poderes.

A normalidade democrática está consagrada na Constituição. É ela que estabelece os direitos e obrigações de cada poder, de cada instituição, das Forças Armadas e de cada um de nós.

A Constituição rege a nossa existência coletiva, e ninguém, absolutamente ninguém, está acima dela, ninguém tem o direito de ignorá-la ou de afrontá-la.

Também é mais do que urgente retomar o diálogo entre o povo e o governo.

Por isso vamos trazer de volta as conferências nacionais. Para que os interessados elejam suas prioridades, e apresentem ao governo sugestões de políticas públicas para cada área: educação, saúde, segurança, direitos da mulher, igualdade racial, juventude, habitação e tantas outras.

Vamos retomar o diálogo com os governadores e os prefeitos, para definirmos juntos as obras prioritárias para cada população.

Não interessa o partido ao qual pertençam o governador e o prefeito. Nosso compromisso será sempre com melhoria de vida da população de cada estado, de cada município deste país.

Vamos também reestabelecer o diálogo entre governo, empresários, trabalhadores e sociedade civil organizada, com a volta do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.

Ou seja, as grandes decisões políticas que impactem as vidas de 215 milhões de brasileiros não serão tomadas em sigilo, na calada da noite, mas após um amplo diálogo com a sociedade.

Acredito que os principais problemas do Brasil, do mundo, do ser humano, possam ser resolvidos com diálogo, e não com força bruta.

Que ninguém duvide da força da palavra, quando se trata de buscar o entendimento e o bem comum.

Meus amigos e minhas amigas.

Nas minhas viagens internacionais, e nos contatos que tenho mantido com líderes de diversos países, o que mais escuto é que o mundo sente saudade do Brasil.

Saudade daquele Brasil soberano, que falava de igual para igual com os países mais ricos e poderosos. E que ao mesmo tempo contribuía para o desenvolvimento dos países mais pobres.

O Brasil que apoiou o desenvolvimento dos países africanos, por meio de cooperação, investimento e transferência de tecnologia.

Que trabalhou pela integração da América do Sul, da América Latina e do Caribe, que fortaleceu o Mercosul, e ajudou a criar o G-20, a UnaSul, a Celac e os BRICS.

Hoje nós estamos dizendo ao mundo que o Brasil está de volta. Que o Brasil é grande demais para ser relegado a esse triste papel de pária do mundo.

Vamos reconquistar a credibilidade, a previsibilidade e a estabilidade do país, para que os investidores – nacionais e estrangeiros – retomem a confiança no Brasil. Para que deixem de enxergar nosso país como fonte de lucro imediato e predatório, e passem a ser nossos parceiros na retomada do crescimento econômico com inclusão social e sustentabilidade ambiental.

Queremos um comércio internacional mais justo. Retomar nossas parcerias com os Estados Unidos e a União Europeia em novas bases. Não nos interessam acordos comerciais que condenem nosso país ao eterno papel de exportador de commodities e matéria prima.

Vamos re-industrializar o Brasil, investir na economia verde e digital, apoiar a criatividade dos nossos empresários e empreendedores. Queremos exportar também conhecimento.

Vamos lutar novamente por uma nova governança global, com a inclusão de mais países no Conselho de Segurança da ONU e com o fim do direito a veto, que prejudica o equilíbrio entre as nações.

Estamos prontos para nos engajar outra vez no combate à fome e à desigualdade no mundo, e nos esforços para a promoção da paz entre os povos.

O Brasil está pronto para retomar o seu protagonismo na luta contra a crise climática, protegendo todos os nossos biomas, sobretudo a Floresta Amazônica.

Em nosso governo, fomos capazes de reduzir em 80% o desmatamento na Amazônia, diminuindo de forma considerável a emissão de gases que provocam o aquecimento global.

Agora, vamos lutar pelo desmatamento zero da Amazônia

O Brasil e o planeta precisam de uma Amazônia viva. Uma árvore em pé vale mais do que toneladas de madeira extraídas ilegalmente por aqueles que pensam apenas no lucro fácil, às custas da deterioração da vida na Terra.

Um rio de águas límpidas vale muito mais do que todo o ouro extraído às custas do mercúrio que mata a fauna e coloca em risco a vida humana.

Quando uma criança indígena morre assassinada pela ganância dos predadores do meio ambiente, uma parte da humanidade morre junto com ela.

Por isso, vamos retomar o monitoramento e a vigilância da Amazônia, e combater toda e qualquer atividade ilegal – seja garimpo, mineração, extração de madeira ou ocupação agropecuária indevida.

Ao mesmo tempo, vamos promover o desenvolvimento sustentável das comunidades que vivem na região amazônica. Vamos provar mais uma vez que é possível gerar riqueza sem destruir o meio ambiente.

Estamos abertos à cooperação internacional para preservar a Amazônia, seja em forma de investimento ou pesquisa científica. Mas sempre sob a liderança do Brasil, sem jamais renunciarmos à nossa soberania.

Temos compromisso com os povos indígenas, com os demais povos da floresta e com a biodiversidade. Queremos a pacificação ambiental.

Não nos interessa uma guerra pelo meio ambiente, mas estamos prontos para defendê-lo de qualquer ameaça.

Meus amigos e minhas amigas.

O novo Brasil que iremos construir a partir de 1º de janeiro não interessa apenas ao povo brasileiro, mas a todas as pessoas que trabalham pela paz, a solidariedade e a fraternidade, em qualquer parte do mundo.

Na última quarta-feira, o Papa Francisco enviou uma importante mensagem ao Brasil, orando para que o povo brasileiro fique livre do ódio, da intolerância e da violência.

Quero dizer que desejamos o mesmo, e vamos trabalhar sem descanso por um Brasil onde o amor prevaleça sobre o ódio, a verdade vença a mentira, e a esperança seja maior que o medo.

Todos os dias da minha vida eu me lembro do maior ensinamento de Jesus Cristo, que é o amor ao próximo. Por isso, acredito que a mais importante virtude de um bom governante será sempre o amor – pelo seu país e pelo seu povo.

No que depender de nós, não faltará amor neste país. Vamos cuidar com muito carinho do Brasil e do povo brasileiro. Viveremos um novo tempo. De paz, de amor e de esperança.

Um tempo em que o povo brasileiro tenha de novo o direito de sonhar. E as oportunidades para realizar aquilo que sonha.

Para isso, convido a cada brasileiro e cada brasileira, independentemente em que candidato votou nessa eleição. Mais do que nunca, vamos juntos pelo Brasil, olhando mais para aquilo que nos une, do que para nossas diferenças.

Sei a magnitude da missão que a história me reservou, e sei que não poderei cumpri-la sozinho. Vou precisar de todos – partidos políticos, trabalhadores, empresários, parlamentares, govenadores, prefeitos, gente de todas as religiões. Brasileiros e brasileiras que sonham com um Brasil mais desenvolvido, mais justo e mais fraterno.

Volto a dizer aquilo que disse durante toda a campanha. Aquilo que nunca foi uma simples promessa de candidato, mas sim uma profissão de fé, um compromisso de vida:

O Brasil tem jeito. Todos juntos seremos capazes de consertar este país, e construir um Brasil do tamanho dos nossos sonhos – com oportunidades para transformá-los em realidade.

Maus uma vez, renovo minha eterna gratidão ao povo brasileiro. Um grande abraço, e que Deus abençoe nossa jornada.”

 

São Paulo, 30 de outubro de 2022.